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Enciclopédia Itaú Cultural de Teatro
Lins, Osman (1924 - 1978)

Biografia
Osman da Costa Lins (Vitória de Santo Antão PE 1924 - São Paulo SP 1978). Autor. Reconhecido como um dos grandes escritores brasileiros do século XX, sua dramaturgia se alimenta tanto de aspectos da comicidade popular e da cultura nordestina quanto da realidade social e política brasileira.

Osman Lins passa a infância e adolescência em sua cidade natal, Vitória de Santo Antão. Em 1941, parte para o Recife, a fim de continuar os estudos. É admitido como funcionário no Banco do Brasil, em 1943, onde permanece até a aposentadoria, em 1971. Forma-se no curso de finanças da Faculdade de Ciências Econômicas da Universidade do Recife, atual Universidade Federal de Pernambuco - UFPE, em 1946, e, em1958, ingressa no recém-aberto curso de dramaturgia da Escola de Belas Artes, na mesma universidade, e tem como professores Hermilo Borba FilhoAriano Suassuna, Joel Pontes, José Carlos Cavalcante Borges, entre outros.

Ainda em 1958, Lins realiza sua primeira experiência como dramaturgo. Escreve a peça O Vale sem Sol, que obtém menção honrosa no 1º Concurso Nacional de Peças Brasileiras da Companhia Tônia-Celi-Autran - CTCA. No Recife, é realizada uma leitura dramática desse texto, em novembro. Nesse ano escreve outra obra teatral, em um único dia: O Cão do Segundo Livro, auto de Natal em dois atos. Como demanda do curso de dramaturgia, cria, no ano seguinte, o drama Os Animais Enjaulados, em três atos.  Com a supervisão de seu professor de teoria do teatro, Ariano Suassuna, em 1960, escreve Lisbela e o Prisioneiro, comédia em três atos. A peça é premiada no 2º Concurso Nacional de Peças Brasileiras da CTCA, em 1961, e encenada por essa companhia, que estreia em abril, no Teatro Mesbla, no Rio de Janeiro, com sucesso de público e de crítica.

Lisbela e o Prisioneiro é um exercício dramatúrgico do teatro cômico-popular aliado à tradição da cultura nordestina. Versa sobre as armações de Leléu, artista de circo, preso na cadeia pública da cidade de Vitória de Santo Antão, para conquistar a romântica Lisbela e fugir do cárcere. É o texto mais popular de Lins, e Guel Arraes o adapta para a televisão em 1993, para  o palco em 2000, e para o cinema em 2003.

Lins colabora na imprensa recifense a partir da década de 1950, quando ingressa na redação da revista Memorandum, órgão da Associação Atlética Banco do Brasil - AABB. Em 1951, inicia sua colaboração ficcional no Suplemento Literário do Diário de Pernambuco, e se  envolve na direção e produção de programas culturais na Rádio Jornal do Commercio, no Recife, onde estreia com uma adaptação de Édipo Rei. Depois de ganhar o Prêmio Fábio Prado e de publicar seu primeiro romance, O Visitante, em 1956, Lins passa a escrever  no Suplemento Literário do jornal O Estado de S. Paulo, divulgando as atividades culturais do Recife e de Pernambuco, na coluna Crônicas do Recife. Conclui o curso de dramaturgia em 1960 e, um ano depois, viaja pela primeira vez para a França, como bolsista da Aliança Francesa.

Muda-se com a família para São Paulo, em 1962. E, no ano seguinte, a Companhia Nydia Licia - Sergio Cardoso estreia texto de sua autoria, A Idade dos Homens. A peça é inspirada no assassinato de Aída Curi, ocorrido no fim dos anos 1950, com grande repercussão na imprensa. Lins se propõe a uma dura análise de comportamento, nos moldes do teatro de Ibsen, aproveitando esse caso como pretexto para criticar a imprensa sensacionalista e a falta de humanidade em geral, por meio de um drama de feições trágicas, de estrutura aristotélica e tendência realista. A montagem não alcança êxito e o texto não é publicado.

Em 1965, escreve mais duas peças: Guerra do "Cansa-Cavalo" e Capa Verde e o Natal. Na primeira, cuja estreia ocorre em 1966, encenada por alunos da Escola de Arte Dramática - EAD, sob a direção de Maria José de Carvalho, percebe-se o retorno de Lins a procedimentos usados, embora de maneira diferente, nas peças precedentes. Por um lado, Guerra do "Cansa-Cavalo", apesar de ser um drama, utiliza procedimentos cômicos na caracterização dos personagens, com ambiente e tipos nordestinos que lembram Lisbela e o Prisioneiro; por outro, elabora críticas a comportamentos sociais, como em A Idade dos Homens. Nos três atos de Guerra do "Cansa-Cavalo", cuja ação se passa em uma casa-grande de engenho do Nordeste num domingo de 1940, Lins denuncia o autoritarismo dos senhores de engenho, por meio de um retrato quase documental do homem nordestino, ressaltando a análise das estruturas econômicas dos coronéis. A peça também é encenada em abril de 1971, na inauguração do Teatro Municipal de Santo André, São Paulo.

Capa Verde e o Natal é uma peça infantil em dois atos, escrita a pedido de uma de suas filhas. No texto, personagens de filmes (Charles Chaplin), HQs (Super-Homem), lendas, histórias infantis e personagens folclóricos (o Negrinho do Pastoreio e Pastoras) são convidados para a festa de Natal de Lúcia, a boneca falante. Entretanto, O Diabo Capa Verde, não é convidado e decide atrapalhar a festa. Por fim, depois de diversas peripécias engraçadas, chega o Menino Jesus, vestido de Pequeno Príncipe, que derrota o diabo: o bem vence o mal.

Esse período que abrange suas primeiras experiências dramatúrgicas pode ser caracterizado como uma fase de aprendizagem em que o autor se apropria dos fundamentos da arte dramática, notadamente da tradição aristotélica do teatro. De certa maneira, é também um momento de busca de uma poética teatral de acordo com seus próprios princípios estéticos, algo que se realiza posteriormente com as três peças em um ato que forma a trilogia Santa, Automóvel e Soldado. No ensaio "O escritor e o teatro" do livro Guerra sem Testemunhas, Osman Lins relata seu processo de aprendizagem do ofício de escritor e reconhece a importância da tradição para o experimentalismo de sua obra dramatúrgica e romanesca: "Aventuro-me então ao desconhecido com um preparo alcançado em rotas familiares; empreendo traçar o mapa de minhas descobertas com a experiência obtida através de uma cartografia consagrada. Não me precipito sem referências no espaço. Conheço e experimentei as regras que empreendo quebrar. Nenhum artista deveria pretender aventurar-se a reformas sem esse substrato".1

Entre 1969 e 1970, Lins escreve Mistério das Figuras de Barro, Auto do Salão do Automóvel e Romance dos Dois Soldados de Herodes. Essa trilogia apresenta elementos épicos "que apontam para uma visão da arte como arte e questionam a ilusão de realidade, além de sobrelevar a função social da arte [...]".2 Ele supera o padrão dramático que alcança com seus primeiros textos, modernizando-se e reforçando seu comprometimento com a realidade social.

Mistério das Figuras de Barro é encenada pela primeira vez em 1974, dirigida pelo próprio Lins, com alunos da Faculdade de Filosofia de Marília, São Paulo, onde assume a cátedra de literatura brasileira, em 1970. Combinando aspectos fantásticos e crítica social, a peça apresenta reflexões sobre o ofício do artista e seu papel social e ataca a inconsistência de algumas crendices populares, ao mesmo tempo em que se apresenta "o milagre da criação como produto das mãos dos indivíduos - concebido para sua salvação".3

Auto do Salão do Automóvel apresenta uma narrativa fragmentada, que torna praticamente impossível a reconstituição linear de sua fábula. A peça é composta de cinco quadros que, tendo como pano de fundo o trânsito da cidade de São Paulo, formam "um mosaico urbano", "caracterizado por sentimentos de opressão e ânsia de libertação, cujo ponto de confluência é a revolução".4  Há apenas o registro de uma única montagem da peça, realizada em 1970, no espetáculo Buumm, pelo Teatro Popular do Nordeste - TPN.

Sua última peça, Romance de Dois Soldados de Herodes, inspira-se no episódio bíblico do extermínio de crianças por ordem de Herodes. De certo modo, discute a situação política e social do Brasil durante a ditadura militar instaurada com o golpe de 1964. Os aspectos épicos do texto podem ser destacados, sobretudo pelo recurso à máscara (também presente em Mistério das Figuras de Barro) e pelo final não conclusivo, em que o desfecho se desdobra em três diferentes possibilidades.

Em 1975, adapta sua novela A Ilha no Espaço para a televisão, na série Caso Especial, da Rede Globo. Escreve mais dois casos especiais: Quem Era Shirley Temple?, em 1976, e Marcha Fúnebre, em 1977. Pouco antes de falecer, em 1978, reúne essas duas histórias em um único livro. Seu conto A Partida, do livro Os Gestos, é adaptado à linguagem cinematográfica por Sandra Ribeiro, em 2003, resultando o curta-metragem homônimo, com Paulo Autran e Geninha da Rosa Borges.

Osman Lins é o homenageado do 6º Festival Recife do Teatro Nacional, in memoriam, em 2003. Nessa ocasião, realizam-se as leituras dramáticas de Romance dos Dois Soldados de Herodes, direção de Carlos Reis, e Auto do Salão do Automóvel, direção de Luiz Arthur Nunes; um seminário sobre a obra osmaniana; três diferentes encenações de Mistério das Figuras de Barro, oriundas do projeto O Aprendiz Encena, realizado pelo Centro de Formação e Pesquisa das Artes Cênicas Apolo-Hermilo, da Prefeitura do Recife, e o lançamento do livro Osman Lins: o Matemático da Prosa, de Ivana Moura.


Notas
1. LINS, Osman. O escritor e o teatro. In: ______. Guerra sem testemunhas: o escritor, sua condição e a realidade social. São Paulo: Ática, 1974, p. 105.

2. DIAS, Maria Teresa de Jesus. Um teatro que conta: a dramaturgia de Osman Lins. 2004. p. 109. Tese (Doutorado em Teoria Literária e Literatura Comparada) - Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2004.

3. Idem, p. 116.

4. Ibidem, p. 123.



Atualizado em 04/02/2009
 
 
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  Suassuna, Ariano (1927)