Comentário Crítico
Nássara estréia na imprensa carioca no jornal O Globo, em 1927, com desenho que acompanha a reportagem de Eduardo Bahout sobre a travessia do Atlântico realizada pelo hidroavião Jahú. Euricles de Matos, redator-chefe do jornal, encoraja o jovem Nássara a continuar na carreira, o que ocorre alguns anos depois. Em 1928, ingressa no curso de arquitetura da Escola Nacional de Belas Artes - Enba, e divide o tempo entre os estudos e os grupos de samba, choro e marcha que forma com outros estudantes. Ele tem as primeiras aulas formais de desenho particularmente com Modesto Brocos (1852 - 1936), que o aconselha a abandonar o desenho acadêmico e aponta sua vocação para a caricatura.
Em 1929 Nássara publica três caricaturas em O Globo e inicia uma carreira, de êxito, que dura até sua morte. É levado para a revista A Noite pelo caricaturista Fritz (1895 - ca.1969), em 1930, colaborando também nessa década com as publicações Crítica, Carioca e Vamos Ler. Nássara trabalha em revistas e jornais brasileiros importantes, destacando-se sua contribuição em Diretrizes e as duas páginas semanais em cores para a revista O Cruzeiro, na década de 1940. Segundo alguns estudiosos, essas páginas de humor semanais constituem a melhor fase de sua atividade artística. Em suas charges e caricaturas desfilam figuras internacionais e nacionais ligadas à 2ª Guerra Mundial (1939-1945), com humor profundamente antifascista, e cenas do cotidiano do carioca.
Assim como outros jovens desenhistas surgidos nos anos 1930, Nássara é influenciado pelo grande caricaturista da época, o carioca J. Carlos (1884 - 1950). Posteriormente conhece o traço geometrizado e a caricatura em meio-tom do paraguaio radicado no Brasil Guevara (1904 - 1964). Aliado às aulas de história da arte na Enba, o contato com a modernidade visual de George Grosz (1893 - 1959), das revistas Vanity Fair e Simplicissimus, e artistas de vanguarda como Pablo Picasso (1881 - 1973) e Henri Matisse (1869 - 1954), ajuda-o a formar seu estilo, cedo descoberto.
As charges e caricaturas de Nássara se caracterizam pelas linhas econômicas e formas geometrizadas, em que tudo é redutível a esferas, cones, ovóides combinados entre si. Como nota Millôr Fernandes (1923), Nássara é o "Mondrian do portrait-charge, corrige a natureza fazendo com que as personagens acabem se parecendo com a caricatura". Há em seus desenhos um trabalho de abstração do real, sem que se perca a fisionomia do caricaturado. No entanto, não há interesse pelo exame psicológico dos personagens. Segundo o chargista Jaguar (1932), ele faz "logotipos" das pessoas que retrata. Entre seus portraits-charge mais famosos estão Napoleão Bonaparte (1769 - 1821), Getúlio Vargas (1882 - 1954) - quase sempre de perfil -, Jânio Quadros (1917 - 1992), Candido Portinari (1903 - 1962), Grande Otelo (1915 - 1993), Carmem Miranda (1909 - 1955) e Noel Rosa (1910 - 1937).
Nos anos 1950, Nássara ajuda a fundar, com o jornalista Samuel Wainer (1912 - 1980), o jornal Última Hora, no qual mantém página dupla em cores com crônica do cotidiano do Rio de Janeiro. Em 1974, começa a colaborar para o jornal de humor O Pasquim. Nesse momento, inicia-se a segunda fase de sua carreira, em que é descoberto e admirado por uma geração de caricaturistas mais novos. Permanece ali até 1983, com o mesmo humor afiado e traço econômico e certeiro dos primeiros tempos. Dessa fase destacam-se retratos das novas personalidades da música como Caetano Veloso (1942) e Maria Bethânia (1946), caricaturas das figuras políticas, como Jânio Quadros, Ulisses Guimarães (1916 - 1992), Paulo Maluf (1931) e Delfim Netto (1928) e dos presidentes militares, reunidos na charge clássica Corrente pra Trás, de 1982.
Como compositor, Nássara faz diversas músicas, sobretudo marchinhas de carnaval hoje antológicas, como Formosa, seu primeiro sucesso em 1932 gravada por Francisco Alves (1898 - 1952) e Mário Reis (1907 - 1981), Alá Lá Ô, e o grande hit Balzaquiana (1950), que ganha versão para o francês de Michel Simon. Em 1972, Nássara desenha 12 capas de disco para a série No Tempo dos Bons Tempos, do selo Fontana.