lista alfabética
  busca
Enciclopédia Itaú Cultural de Artes Visuais
 
       
   
biografia
histórico
fontes de pesquisa



  Exposições
coletivas
póstumas



  sugestões

  Lima, Attílio Corrêa (1901 - 1943)        

Biografia
Attílio Corrêa Lima (Roma, Itália 1901 - Rio de Janeiro RJ 1943). Arquiteto, urbanista, paisagista e designer. Ingressa como aluno livre nos cursos de escultura, pintura, gravura e arquitetura da Escola Nacional de Belas Artes (Enba), no Rio de Janeiro, em 1919. Matricula-se como aluno regular do curso de arquitetura em 1920, diplomando-se em 1925. Recebe a medalha de ouro e o prêmio de viagem ao exterior no Salão Nacional de Belas Artes (SNBA) de 1926, e embarca para Paris no início de 1927. Nesse ano ingressa no Instituto de Urbanismo da Universidade de Paris, formando-se em 1930 com a tese Avant Projec d'Aménagement et Extension de la Ville de Niterói, publicada pelo instituto em 1932, com prefácio de seu orientador, o urbanista francês Henri Prost (1874-1959). De volta ao Rio de Janeiro, em 1931, assume a direção da cadeira de urbanismo, criada na modernização do ensino da Enba, no ano anterior. Dois anos depois é convidado pelo interventor federal de Goiás, Pedro Ludovico Teixeira, a realizar o Plano Urbanístico da Nova Capital do Estado, Goiânia. Em 1935, afasta-se do projeto por julgar que a empreiteira Coimbra Bueno responsável pela obra, esteja comprometida com interesses especulativos do mercado imobiliário. O engenheiro Armando Augusto de Godoy (1876-1944) assume o plano, modificando-o, sobretudo na parte sul. Lima é indicado pela Comissão do Plano da Cidade do Recife, ao lado de Washington Azevedo e Francisco Prestes Maia (1896-1965), para dar um parecer sobre o projeto apresentado pelo engenheiro-arquiteto Nestor de Figueiredo. As críticas levantadas pelos urbanistas levam a comissão a recusar o plano de Figueiredo e a convidar, em 1936, Corrêa Lima para desenvolver um plano para o bairro de Santo Antônio - não construído. Segundo o historiador Yves Bruand, o convite é feito por sugestão de Luis Nunes (1908-1937), aluno de Lima na Enba e, na época, chefe da Diretoria de Arquitetura e Urbanismo (DAU), no Recife. Em agosto do mesmo ano, apresenta um plano geral para a cidade (não efetivado). Nos anos 1940, desenvolve no Rio de Janeiro o Plano Regional de Urbanização do Vale do Paraíba, o Plano da Cidade Operária de Volta Redonda, em 1941 e o Plano da Cidade Operária da Fábrica Nacional de Motores, em 1943, inacabado pela morte prematura do arquiteto. Em São Paulo, apresenta os projetos para os conjuntos residenciais da Várzea do Carmo, em 1942, parcialmente construído, e de Heliópolis. Além das atividades como urbanista, dedica-se à arquitetura, ao paisagismo e ao design. Em 1937, Lima vence o concurso nacional para construção da Estação de Passageiros de Hidroaviões do Rio de Janeiro, com a colaboração dos arquitetos Jorge Ferreira, Renato Mesquita, Renato Soeiro e Tomás Estrela. Inaugurado em 1938 com jardins também projetados por Lima, o edifício foi tombado pelo Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico (Iphan), em 1957. Em 1940 é inaugurada a Estação das Barcas, cujo projeto mobiliário é assinado pelo arquiteto. Os dois projetos fazem parte da famosa exposição Brazil Builds, realizada no Museu de Arte Moderna de Nova York (MoMA), entre 1942 e 1943.

Comentário Crítico
Attílio Corrêa Lima faz parte da segunda geração de urbanistas do Brasil, integrando o grupo seleto de arquitetos modernos que se destacam no cenário artístico nacional e internacional no fim da década de 1930 e início dos anos 1940. Sua obra, entretanto, como a de todos os integrantes da primeira geração de arquitetos modernos do país, carrega inicialmente traços da formação acadêmica recebida na Escola Nacional de Belas Artes (Enba), no Rio de Janeiro, e no l'Institute d'Urbanisme de l'Université de Paris [Instituto de Urbanismo da Universidade de Paris], como atestam os planos para as cidades de Niterói, no Rio de Janeiro, 1930 (não concretizado), Goiânia (1933 - 1935), e Recife, 1936 (não concretizado). Orientados pelos princípios de regularidade e monumentalidade do urbanismo europeu de meados do século XIX, cujo maior exemplo é a intervenção do barão de Haussmann (1809-1891) em Paris, esses planos são definidos por edifícios que configuram quarteirões maciços e uniformes, ruas, avenidas e bulevares de traçado geométrico com perspectiva central marcada por monumentos, praças ou edifícios. Nessas cidades, bem como nas que desenvolveria na década seguinte, o arquiteto realiza uma leitura criteriosa dos fatores naturais, urbanísticos, sociais e culturais antes de definir sua proposta.

Em Niterói essa leitura indica a importância de um sistema de transporte contínuo com o Rio de Janeiro que estrutura seu traçado urbano, sua expansão e a criação de quatro centros: o novo, constituído por uma praça rotatória de fluxo contínuo, cercada por edifícios monumentais de 100 metros de altura, ponto de fuga da perspectiva da avenida principal de ligação com a capital e do paisagismo de palmeiras imperiais; o cívico, junto à costa, com edifícios públicos administrativos de destaque como a prefeitura e o palácio do governo; o comercial, também situado numa praça rotatória; e o cultural.

No Recife, a análise das características locais define a manutenção do traçado urbano existente, cuja consolidação e valor histórico impunham limites econômicos e de preservação do patrimônio. Adotando o sistema viário radial-perimetral muito em voga no período, o urbanista busca respeitar esses limites, além de solucionar os problemas de circulação e ligação entre centro e periferia.

Em Goiânia, uma capital a ser construída sobre território virgem, os condicionantes naturais e simbólicos ganham peso. Considerando os aspectos técnicos da topografia do sítio, Corrêa Lima desenha as avenidas principais dotadas de toda a infra-estrutura no sentido da maior inclinação e as ruas secundárias no sentido da menor inclinação, evitando-se o problema de erosão e enchentes, ao mesmo tempo em que se aproveita da topografia local para dar à nova cidade a monumentalidade necessária a sua função. Não é à toa que o palácio do governo e os edifícios administrativos encontram-se no ponto mais alto da cidade, na confluência das avenidas Goiás, Araguaia e Tocantins. Segundo o arquiteto, "guardando as devidas proporções, o efeito monumental procurado é o do princípio clássico adotado em Versailles, Karlsruhe e Washington".1 Para o historiador Yves Bruand, Goiânia é a prefiguração do projeto de Lucio Costa (1902-1998) para Brasília, sobretudo na distinção entre o centro governamental e o centro comercial, já ensaiada em Niterói, e na maneira como as funções se distribuem ao longo da avenida Goiás, a mais importante da cidade.

A cidade operária de Volta Redonda, Rio de Janeiro, 1941, segundo o historiador da arquitetura Alberto Xavier, tem como modelo a cidade industrial, 1901-1904, do urbanista inglês Tony Garnier (1896-1948). Desenhando a cidade com base na organização fabril, Corrêa Lima define zonas funcionais estanques e uma ocupação que segue a hierarquia produtiva, reforçada pela topografia original do sítio, de maneira que os destacados bairros dos engenheiros e técnicos especializados estão mais próximos do centro administrativo, dos equipamentos sociais e da indústria do que o bairro dos operários não especializados.2

Na cidade operária da Fábrica Nacional de Motores (FNM), de 1943 e não construída, o urbanista enfrenta um desafio semelhante ao da cidade anterior, desta vez aproximando-se ainda mais dos preceitos do urbanismo moderno, tal como são definidos pela famosa Carta de Atenas, de 1933.3 Em seu parecer sobre o plano, Corrêa Lima faz uma ode ao urbanismo e à arquitetura moderna, e enfatiza a importância da vida coletiva e da industrialização para o desenvolvimento da sociedade moderna, desenhando uma cidade mais densa que as primeiras, com edifícios uniformes de habitação vertical dispostos paralelamente sobre um grande parque, alimentados por equipamentos sociais, tal como o proposto para o Conjunto Residencial da Várzea do Carmo, de 1942 (parcialmente construído), em São Paulo.4

Afinadas com os princípios de funcionalidade espacial e construtiva caros ao movimento moderno, a Estação de Hidroaviões, 1937 - 1938, e a Estação de Barcas, 1940, no Rio de Janeiro, são os projetos mais conhecidos e festejados do arquiteto. Na primeira, mais do que na última, ele consegue desenvolver de maneira mais coesa esses princípios, adotando a estrutura independente de concreto armado e dando expressividade aos pilares ao torná-los robustos e destacados nas fachadas e no espaço interno. A fluidez dos espaços é reforçada externamente pelas fachadas envidraçadas e internamente pelo vazio central e o desenho sinuoso da escada de ligação entre o térreo e o mezanino. Externamente a escada escultural que liga o terraço do restaurante ao jardim tropical, hoje totalmente desfigurados, é valorizada, sendo a imagem da arquitetura moderna na capa do catálogo da exposição Brazil Builds, 1942-1943.

 

Notas
1 LIMA, Attílio Corrêa. Plano da Cidade de Goiânia. Arquitetura, Rio de Janeiro, n. 14, ago. 1963, p. 13.
2 Sobre este tema ver o trabalho da historiadora Magali Nogueira da Silva Calife, A relação capital trabalho na gênese da CSN. 2000. Dissertação de Mestrado em História. Faculdade de História da Universidade Severino Sombra, Vassouras, 2000. In: Domínio Público. Disponível em: www.dominiopublico.gov.br/download/texto/cp000254.pdf. Acesso em: 15 nov. 2006.
3 Carta-manifesto em favor da cidade moderna funcional escrita por Le Corbusier por ocasião do 4º Congresso Internacional de Arquitetura Moderna - CIAM, realizado em Atenas, em 1933.

4 LIMA, Attílio Corrêa. Plano da Cidade Operária da F.N.M. Arquitetura, Rio de Janeiro, n. 14, ago. 1963, p. 5-9.



Atualizado em 11/10/2013