lista alfabética
  busca
Enciclopédia Itaú Cultural de Artes Visuais
 
       
 
obras
biografia
histórico
acervos
textos críticos
fontes de pesquisa



  Exposições
individuais
coletivas



  sugestões

  Buti, Marco (1953)      

Críticas

"Sinais de uma indiscutível qualidade gráfica, as gravuras de Marco Buti revelam, à primeira vista, uma atitude de extrema coerência e trabalho conseqüente ao tratar e considerar as questões das artes gráficas contemporâneas no contexto maior das artes plásticas e visuais. Certo da importância de uma 'consciência gráfica' necessária, que conduz, orienta e sempre deu sentido ao ato de gravar como expressão, seu trabalho reúne, em um só tempo, precisão e subjetividade, emoção e vocação estudiosa na concepção de cada estampa, sem, contudo, trair os valores essenciais e inerentes dessa linguagem. Antes: inovando-a, muitas vezes, pela prática de experimentação e pela geometria plena de suas realizações. É ainda pela mesma atitude coerente e de consideração ao meio material que seu trabalho aponta o caminho e desperta para a importância do exercício maior de um ofício competente como meio digno, natural e social da manifestação de seus anseios e pensamentos".

Evandro Carlos Jardim

JARDIM, Evandro Carlos.  [Texto constante da orelha do livro]. In: BUTI, Marco. Marco Buti. Apresentacao Sérgio Miceli e Evandro Carlos Jardim. São Paulo: Edusp, 1995. (Artistas da USP, 1).


"Quando ando pela rua, estou sempre em busca do meu trabalho. Passante, espero pela revelação da forma poética oculta pelo hábito, fitando a luz sempre diversa, a construção-destruição da cidade, os reflexos, o movimento das pessoas, as sombras, os espaços. As imagens que se apresentam, rigorosamente estruturadas, mas independentes de qualquer intenção, feitas e desfeitas a todo instante, que apenas existem num certo olhar. São soma de uma presença, um tempo, um espaço, um ponto de vista. As cores de um fragmento de mundo parecem ter sido cuidadosamente escolhidas. Alguns minutos antes ou depois, um mínimo deslocamento da luz solar alteraria tudo, desfazendo a estrutura da imagem. Passando na calçada oposta ela não se revelaria. Um quadro que jamais saberia imaginar. A qualquer momento, em qualquer lugar, em muitas cidades que são uma só: aquela criada por minha presença. A experiência poética nem sempre se dá nos recintos oficiais; preciso estar atento, porque o Instante não se anuncia. Mas a cidade fica paisagem quando estou distraído. Para ver o que vejo todos os dias, preciso ser estrangeiro. O mundo é aqui. Mas é uma viagem ir até aqui".

Marco Buti - abril de 1999


"O que costumamos chamar de contemporaneidade não pode ser concebido de maneira estática e simplista. Trata-se, na verdade, de inúmeros presentes simultâneos, em mudança, mas ritmos e direções diferentes, onde o tempo não se separa do seu espaço, e o agora continua sendo parte da história. Deslocam-se muito menos, no entanto, os centros reais de poder: controlando as informações, projetam a imagem de uma contemporaneidade harmônica, que desejam cada vez mais afinadas com seus interesses. Alguns participam da dinâmica da nova economia através da tecnologia de ponta, absorvidos pelo mundo virtual. Muitos outros, com os velhos esforços físicos e mecânicos, sentindo toda brutalidade dos fatos. São duas faces do mesmo fenômeno: às estatísticas correspondem vidas humanas. O mundo artístico participa do mundo. Por mais que se insista em que a arte só pode falar de si mesma, não deixa de gerar capitais e poder, como qualquer outra mercadoria. A gravura em maior evidência só pode ser realizada naqueles locais onde o mercado de arte e a economia como um todo permitem os investimentos necessários, e garantem seu retorno. Pelo menos no plano material, toda realização artística sofre tais influências, contribuindo para as opções estéticas. O espaço não se expande além dos limites dos financiamentos, que são mais generosos apenas nas grandes ocasiões, quando se erguem vastos cenários. Nenhum meio a priori garante nível poético ou contemporaneidade: só pode ser considerado enquanto veículo de um processo artístico. No uso massificado, as mesmas tecnologias de ponta capazes de suscitar uma emoção autêntica e uma experiência estética ilustram o quanto é ambígua a noção de contemporaneidade: produzem infindavelmente um futuro virtual, novas sensações visuais, cujo objetivo principal é, numa expressão famosa, que as coisas mudem para que continuem as mesmas. Nada aponta para uma superação das disparidades mundiais, e muito menos das brasileiras - pelo contrário, a exclusão parece aprofundar-se. Provavelmente, aqui continuaremos desfrutando por um longo tempo do privilégio da intervenção artesanal plena no processo gráfico, podendo vivenciar a experiência artística em sua totalidade. Não é tão pouco continuar dissonante, ou mesmo desafinado, no meio da harmonia globalizada, quando o cinismo, o vazio e o conformismo parecem ser a opção de um número crescente de artistas, críticos e curadores".

Marco Buti - junho de 2000

BUTI, Marco. [Depoimentos]. In: GRAVURA: arte brasileira do século XX. São Paulo: Itaú Cultural : Cosac & Naify, 2000. p. 198.


"Muito estudada nas calcografias de Marco Buti, a cidade é o lugar em que se questiona o político, quer o da economia, quer o da estética. Duplamente política, a gravura considera o tema da exclusão que dirige Buti para a tese de que, desigual, a globalização poupa o gravador brasileiro de inclusão em horizontes técnicos de ponta. É por isso que a gravura brasileira pode manter-se manual, embora alguns considerem esta direção superada. Todavia, fica a pergunta sobre quem se pretende superador, se participa na quadrilha que controla o país ou em grupo que deseja mandar em nome de um vanguardismo, hoje, conformista. Para Buti, que defende a gravura de pesquisa, todas as técnicas são contemporâneas, com igual direito à cidadania. Rebatendo-se a reflexão artística de Buti na cidade, esta aparece como lugar gráfico: por isso, seus estudos recentes de ponta-seca cingem-se à incisão e ao efeito da rebarba, minimalismo de que diferem os estudos que combinam técnicas, enquanto dirigidas pela cidade. A ela chegam as águas, tinta e forte, o buril e a ponta-seca: a vinda é narrada por Buti em posição de fotógrafo, com o flagrante na cabeça. O ponto e o momento cruzam-se na luz instantânea, no movimento cortado, no ângulo rápido: gente, demolição, reflexo, tudo se apresenta para o passante, que, ativado pelo átomo, está destotalizado, desidentificado pelo imprevisto. Descontínuo, o passante anda, devindo em si mesmo com os solavancos do real. Ele, aqui, não devaneia: distraído, permite que algo se mostre de relance. A gravura do aviãozinho de papel é a alegoria invertida do que Marco Buti narra: flutuação acima dos imprevistos, vôo de pássaro aneladíssimo pelos que amam a paisagem como totalidade. Mas, em Marco, não há isso: o aviãozinho e sua cidade pertencem ao devaneio, ao passo que as suas gravuras pensam duas visualidades, a atômica e volátil do passante, a reflexiva e tátil do vente".

Leon Kossovitch e Mayra Laudanna

KOSSOVITCH, Leon; LAUDANNA, Mayra. A cidade - encontros. In: GRAVURA: arte brasileira do século XX. São Paulo: Itaú Cultural : Cosac & Naify, 2000. p. 30.