|
|
Monteiro, Vicente do Rego (1899 - 1970)
Críticas
|
"Ao invés de aplicar-se simplesmente à caligrafia acadêmica, Rego Monteiro repudiou essa tradição latina (...) para reavivar a influência da tradição indígena a qual deveria ser a primeira a tocar e a estimular todo o artista brasileiro. A história demonstrou-nos cabalmente que toda a arte primitiva é suscetível de dar forma a magníficas florações. Assim, uma arte tão rica e potente como a indígena não poderia deixar de servir de estímulo ao desenvolvimento plástico que o tempo e o gênio dos artistas contribuem a trazer geralmente aos estágios iniciais de uma linguagem. Foi assim que Monteiro, rejeitando os 'pastiches' das frias compilações acadêmicas, tentou reformular seu mundo artístico retemperando sua sensibilidade nas fontes da arte indígena. (...) É certo, porém, que o efeito alcançado permanecia puramente decorativo e que a sensibilidade do pintor não se exteriorizava ainda de maneira propriamente plástica. Foi então que Rego Monteiro tomou contato na França com uma arte puramente plástica que o leva a imaginar uma conciliação entre o ritmo indígena e os princípios do quadro de cavalete, fim supremo e razão essencial da pintura".
Maurice Raynal
MONTEIRO, Vicente do Rego, ZANINI, Walter (org.). Vicente do Rêgo Monteiro. São Paulo: MAC/USP, 1971.
"Vicente ama a natureza de hoje como a de ontem. Julga importante ficar com aspectos que dão às suas obras a atualização, quase sempre traduzida na mecanicidade que imprime nas formas, auxiliadas pela geometrização legeriana. Entretanto, como coloca no outro prato da balança a perenidade, não se ocupa tanto da justificativa da época atual, não a exalta. A mitologia escolhida não é a da ´Vênus metalúrgica´, e os seus homens não sobem em andaimes nem têm como paisagem de fundo as chaminés. Prefere as Dianas, Vênus, Madonas; homens que podem ter habitado próximo às pirâmides, ou saído das mãos renascentistas, ou mesmo ter sido moldados por simples oleiros. Trabalha as oposições entre a época atual, caracterizada por linhas arrojadas e articuladas, e as aquisições do passado arcaico ou clássico, com a preservação de lembranças estilísticas como a frontalidade e a solenidade do ritual religioso. (...) A arte de Vicente é na sua aparência com freqüência austera, monocromada, despojada de referências cósmicas diretas (...). No seu significado, encaminha à argumentação de uma arte que trabalha oposições entre o arcaico / moderno; sagrado / profano (às vezes, mais especificamente pagão / cristão); primitivo / contemporâneo".
Elza Maria Ajzemberg
AJZENBERG, Elza. Vicente do Rego Monteiro: um mergulho no passado. 1984. 2v. Tese (Doutorado) - Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universiade de São Paulo - FFLCH/USP, São Paulo, 1984. p. 213.
"Lembro-me de que Vicente, em Paris, costumava entoar baixinho uma pornograficamente plebéia cantiga brasileira, por ele aprendida não sei onde nem de que espécie de boca: Negra velha quando fica arreliada Mete o dedo na quirica Dá ao negro prá cheirar. O que prendeu minha atenção a essa cantiga, tão entoada pelo pintor, ao pintar, em Paris, foi a valorização do cheiro: no caso, um cheiro de sexo de mulher. Ao que se juntar ter Vicente me confessado, certa vez, que uma de suas maiores saudades do Brasil era a de cheiros. Cheiros de vegetais, cheiros de comidas, cheiros de cachaças, o cheiro de curral de engenho. E cheiros de mulheres mestiças. O que coincidia com uma das minhas maiores recordações do Brasil desde que o deixei para uma primeira ausência, que seria longa. Pelo que resolvi, em face de novas ausências, suprir essa falta, viajando no estrangeiro com um frasco de sabão Aristolino na mala. O que parece anedótico, no caso funcionou. Será que a pintura modernista de Vicente, ao envolver 'saudosismo' pelos sentidos - o olfato e o paladar, entre eles -, envolvia alguma coisa de telúrico que incluísse, principalmente nesses saudosismos telúricos, saudade de sexos brasileiros de mulher? Lembre-se, ao falecer no Recife, sua ligação com mulher de cor. Sensível como era, me animo a dizer que o sexo esteve quase sempre presente em sua pintura. Suas próprias ventas pareciam sempre voluptuosas ávidas de cheiros de mulheres de cor: eram as de quem desfrutasse com aquele puro prazer de respirar, assinalado por Havelock Ellis, gosto por cheiros ou aromas, vivos, tropicais, brasileiros, capazes de ser como que associados à famosa sugestão francesa, percepção de cores e - por que não? - de formas".
Gilberto Freire
MONTEIRO, Vicente do Rego. Vicente do Rego Monteiro: pintor e poeta. Rio de Janeiro: 5ª Cor, 1994, p. 44-46
"Talvez a primeira referência, de intenções globais, que se deva fazer à obra de Monteiro, seja a de que ela se desenrolou em segmentos distintos, embora preservando traços constantes de uma figuração conceptualizada cujo teor é por igual estilizado, decorativo e monumental.
Assimiladora de diversificadas fontes culturais, essa pintura demonstrou-se capaz de aprofundar um próprio e inconfundível ideário plásticos, determinado por formas planas e circunscritas no espaço, pelo desenho táctil e rigoroso, de elegantes ritmos compassados, coadjuvado pela coloração moderada, luminosa, de poucas e menores variantes de meios-tons. Respondiam esses elementos a uma concepção de princípios de estética decorativa na sua função de promover uma compreensão universal do mundo. A síntese representacional decorrente, desenvolvida em composições harmônicas, que privilegiam efeitos de forma e cor no respeito à superfície bidimensional da tela, possui a vocação do espaço mural, no entanto um nível de realização a que o artista nunca teve acesso".
Walter Zanini
ZANINI, Walter. Introdução ao Artista. Vicente do Rego Monteiro: artista e poeta 1899-1970. São Paulo: Empresa de Artes/Marigo Editora, 1997. p. 38
"Vicente do Rêgo Monteiro (1899-1970), Victor Brecheret (1894-1955) e Antonio Gomide (1895-1967) mostram em suas produções a sintonização não apenas com o movimento moderno, mas com um estilo específico. Alinham-se ao art déco pela estruturação dos elementos florais procedentes do art nouveau, em curvas que buscam uma elegante regularidade geométrica.
O pós-guerra pede a decantação das poéticas de combate precedentes, como o cubismo ou o dadaísmo. Vive-se o momento da 'volta à ordem' nas artes. A pintura funciona como um escudo à liberalização dos costumes, ao ritmo trepidante dos anos loucos. A agitação febril que pauta o comportamento da época uma cenografia.
Respondendo aos bailados modernos que buscam nutriente nas civilizações distantes do burburinho parisiense, Vicente do Rêgo Monteiro apresenta a estilização das civilizações indígenas brasileiras, especialmente a marajoara.
O Atirador de Arco, 1925, propõe uma coreografia das tensões originadas pelo instrumento de guerra como tema da tela. A força despendida na envergadura do arco ecoa pelo plano pictural numa sucessão de ondas. A proximidade entre forma e fundo cria um espaço raso, em baixo-relevo, inspirado por uma estética cubista, esvaziada do teor agressivo das primeiras colagens".
Nelson Aguilar
MOSTRA DO REDESCOBRIMENTO (2000 : SÃO PAULO, SP), AGUILAR, Nelson (org.), SASSOUN, Suzanna (coord.). Arte moderna. São Paulo: Fundação Bienal de São Paulo: Associação Brasil 500 anos Artes Visuais, 2000.p.40
|
|
|
|