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  Sociedade Pró-Arte Moderna (Spam)        

Histórico

Uma carta de Mário de Andrade (1893 - 1945) a Lasar Segall (1891 - 1957), datada de 9 de fevereiro de 1931, permite apreender o espírito que redunda na criação da Sociedade Pró-Arte Moderna - Spam, fundada em 1932 na cidade de São Paulo. Diz o poeta e crítico: "... uma coisa que vai alegrar você - a quase realização daquela nossa velha idéia, lembra-se? - de um centro de arte moderna juntamente com d. Olívia Guedes Penteado e com outras algumas senhoras de nossa melhor sociedade; estou tentando dar a essa idéia uma forma palpável, útil. Creio que faremos para principiar uma espécie de club que se chamará 'Sala Moderna', na qual exporemos quadros, estátuas, livros e faremos ouvir musicistas, escritores exclusivamente modernos, nacionais e estrangeiros". Agrupamento de artistas de diversas áreas, afinados com o ideário moderno e modernista, e de setores da elite paulistana, com vistas a promover a arte em reuniões e festas (o que lhe confere um acentuado caráter mundano), eis o perfil do grupo definido em 23 de novembro, na casa do arquiteto Gregori Warchavchik (1896 - 1972), mas oficialmente criado em 22 de dezembro do mesmo ano, em uma reunião na casa da bailarina Chinita Ulmann. Dessas primeiras reuniões da Sociedade participam: Anita Malfatti (1889 - 1964), Paulo Prado (1869 - 1943), Lasar Segall, Camargo Guarnieri (1907 - 1993), Hugo Adami (1899 - 1999), Mário de Andrade, Mina Klabin Warchavichik, Rossi Osir (1890 - 1959), Tarsila do Amaral (1886 - 1973), John Graz (1891 - 1980), Regina Graz (1897 - 1973), Vittorio Gobbis (1894 - 1968), Wasth Rodrigues (1891 - 1957), Olívia Guedes Penteado (1872 - 1934), Antonio Gomide (1895 - 1967), Sérgio Milliet (1898 - 1966), Menotti del Picchia (1892 - 1988), Paulo Mendes de Almeida (1905 - 1986), Jenny Klabin Segall (1901 - 1967), Alice Rossi, entre outros.

Após a formulação dos estatutos e da eleição da primeira comissão executiva da entidade (em 27 de dezembro de 1932, na casa de d. Olívia), a Spam promulga os seus objetivos, em 1933, no catálogo da 1ª Exposição de Arte Moderna, por ela organizada e que reúne 100 obras de artistas modernos nacionais (de Anita, Tarsila, Segall etc.) e de nomes da arte moderna internacional, com trabalhos das coleções particulares de d. Olívia, Paulo Prado, Mário de Andrade, Samuel Ribeiro e Tarsila do Amaral. São exibidas aí obras de Pablo Picasso (1881 - 1973), Fernand Léger (1881 - 1955), Brancusi (1976 - 1957), André Lhote (1885 - 1962), entre outros. Ao apresentar a exposição, o grupo apresenta também a entidade, que visa "estreitar as relações entre artistas e pessoas que se interessam pela arte em todas as suas manifestações"; promover exposições, concertos, reuniões literárias e dançantes; realizar sorteio de obras entre os membros; e criar uma sede social que se torne um espaço de festas e exibições.

As festividades, tão enfatizadas nos documentos da Sociedade, são de fato seus pontos altos. O réveillon de 1932/1933, São Silvestre em Farrapos, dá visibilidade ao grupo, além de permitir arrecadar fundos. Os painéis que decoram as paredes são todos de autoria de Segall. Em fevereiro de 1933, um baile carnavalesco, também idealizado por Segall, O Carnaval na Cidade da Spam, é realizado no "Trocadero" (atrás do Theatro Municipal). O artista planeja e executa a decoração da festa, atento aos mínimos detalhes. O convite, com desenho de Segall e poema de Mário de Andrade, apresenta as atrações da cidade imaginária: "O circo de Spam! O monumento de Spam! O presídio de Spam! O jardim zoológico de Spam! Os restaurantes e quiosques de Spam!". "O circo", que abre o convite, dá título ao grande painel que cobre toda a parede de entrada do salão. Um hino (criado por Camargo Guarnieri) acompanha o cortejo na praça Pública da Spam, onde os participantes trajam fantasias concebidas por Segall, Esther Bessel, Jenny Segall e John Graz. Na madrugada, circula o jornal A Vida de Spam, dirigido por Mário de Andrade, Antônio de Alcântara Machado (1901 - 1935) e Sérgio Milliet (1898 - 1966). A festa pode ser vista como uma ampla criação coletiva, dirigida por Segall, que envolve pintura, música, literatura e esquetes teatrais.

O sucesso do evento permite o aluguel da sede, inaugurada em agosto de 1933, no quinto andar do palacete Campinas, na praça da República. Nesse espaço, o grupo organiza encontros musicais - com Francisco Mignoni, Fructuoso Viana e Lavínia Viotti - e conferências - Anita Malfatti, Procópio Ferreira (1898 - 1979), Hermes Lima, entre outros -, cria uma biblioteca com revistas de arte nacionais e estrangeiras, organiza sessões de desenho com modelo-vivo no ateliê. É na nova sede, em 1933, que a Spam promove a sua segunda exposição, desta vez com artistas do Rio de Janeiro como Candido Portinari (1903 - 1962), Di Cavalcanti (1897 - 1976) e Guignard (1896 - 1962). A necessidade de arrecadação de fundos para manutenção das despesas leva à organização de um segundo baile carnavalesco, mais uma vez projetado por Segall, Uma Expedição às Selvas da Spamolândia, realizado no amplo espaço do Rink São Paulo, antigo rinque de patinação. Colaboram na decoração: Anita Malfatti, Rossi Osir, Paulo Mendes de Almeida (1905 - 1986), Gastão Worms (1905 - 1967) e outros; a coreografia dos bailados exóticos fica a cargo de Chinita Ulmann e Kitty Bodenheim; a música, sob a responsabilidade de Camargo Guarnieri e Ernest Mehlich. Uma vez mais, realiza-se uma grande festa temática que envolve as diversas artes. Dessa vez, o motivo é a selva - animais insólitos, plantas tropicais, elementos da arte e da vida indígena. Alguns comentadores afirmam que Segall recria uma atmosfera mágica e alegórica inspirada no romance Macunaíma, de Mário de Andrade. Outros preferem insistir na manutenção do tom expressionista, utilizado na composição da cidade do primeiro baile, e da selva, neste segundo. O sucesso do baile não permite sanar as dívidas financeiras da entidade. Além disso, várias manifestações de repúdio aos "excessos" da festa tomam a imprensa. Fala-se também em dissensões no interior do grupo, que passariam, algumas delas, por uma cisão entre o "grupo dos grã-finos" e o dos "judeus". Todos esses fatores levam a que, em 1934, Segall - a "alma da Spam", segundo Paulo Mendes de Almeida - proponha a extinção da Sociedade.

A consideração das atividades da Sociedade Pró-Arte Moderna permite medir a temperatura artística da década de 1930, momento de "rotinização" dos ideais estéticos gestados em 1922, nos termos de Antonio Candido (1918). A Spam remete a um contexto artístico marcado por tentativas de ampliação dos espaços da arte e da atuação dos artistas modernos, por meio da criação de grupos e associações. A Pró-Arte Sociedade de Artes, Letras e Ciências (1931) e o Club de Cultura Moderna (1935), no Rio de Janeiro, ao lado de agremiações paulistanas como o Clube dos Artistas Modernos - CAM (1932), o Grupo Santa Helena (1934) e a Família Artística Paulista - FAP (1937), são expressões do êxito do associativismo como estratégia de atuação dos artistas na vida cultural das duas cidades. Tributários das conquistas estéticas do modernismo, os grupos dialogam, cada qual à sua maneira, com esse legado recente. A Spam, capitaneada por Lasar Segall, tem como principais integrantes figuras do primeiro modernismo e parece filiar-se mais diretamente à pauta elaborada pelos organizadores da Semana de Arte Moderna.



Atualizado em 28/05/2010
 
 
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  Andrade, Mário de (1893 - 1945)
Candido, Antonio (1918)
Del Picchia, Menotti (1892 - 1988)
Milliet, Sérgio (1898 - 1966)