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  Escola Carioca    

Definição
Escola Carioca é o nome pelo qual parte produção moderna da arquitetura brasileira é comumente identificada pela historiografia. Trata-se originalmente da obra produzida por um grupo radicado no Rio de Janeiro, que, com a liderança intelectual de Lucio Costa (1902-1998) e formal de Oscar Niemeyer (1907-2012), cria um estilo nacional de arquitetura moderna: uma espécie de brazilian style, que se dissemina pelo país entre os anos 1940 e 1950, contrapondo ao international style, hegemônico até os anos 1930.1

Para entender o termo há que se recorrer a um dos episódios "fundadores" da moderna arquitetura brasileira: o projeto do Ministério da Educação e Saúde (MES), atual Palácio Gustavo Capanema, de 1936-1943, elaborado no governo Getúlio Vargas. O edifício é desenhado por uma equipe liderada por Lucio Costa com a orientação direta de Le Corbusier (1887-1966), que vem ao Brasil auxiliar os jovens arquitetos na tarefa de projetar um prédio moderno como sede do ministério. A equipe, formada por Carlos Leão (1906-1983), Affonso Eduardo Reidy (1909-1964), Jorge Moreira (1904-1992), Ernani Vasconcelos (1912-1989) e Niemeyer, realiza o primeiro edifício que incorpora em grande escala os cinco pontos da arquitetura corbusiana - brise soleil [quebrassol], pan de verre [pano de vidro ou courtain wall], teto-jardim, térreo com pilotis e planta livre - ao mesmo tempo que lança mão de uma plasticidade que não se vê comumente na arquitetura moderna de outros países e recupera elementos "nacionais", como os painéis de azulejo. Para o crítico da arquitetura João Masao Kamita, essa escola se destaca "pela dinamização e combinação inventiva dos volumes, pela composição variada e instigante da concatenação de curvas e diagonais às retas, pela abertura e transparência do bloco, pelo tratamento desprendido das formas de vedação não só no que diz respeito aos materiais empregados e à forma dos vãos, mas ao próprio desenho de superfície, ora dobrado, inclinado ou encurvado".2  Ainda segundo o crítico, essa produção seria marcada por um sentido único de "exuberância" e "extroversão" e por "uma articulada e inteligente interpretação da nova arquitetura sem desprezar o passado, visto como sustentação do presente",3  tanto no âmbito do projeto quanto no da historiografia. A relação entre modernidade e tradição é a base, não só da moderna arquitetura brasileira até a metade do século XX como também é o eixo do discurso construído por Lucio Costa acerca da história da arquitetura nacional, que liga a arquitetura produzida no período colonial e a realizada contemporaneamente, e sustenta toda uma historiografia posterior.4 

Além do MES, são considerados exemplares da Escola Carioca obras como o edifício sede da Associação Brasileira de Imprensa (ABI) (1936), dos irmãos Roberto: Marcelo (1908-1964), Milton (1914-1953) e Maurício (1921-1996); a Estação de Passageiros de Hidroaviões (1937), de Attílio Corrêa Lima (1901-1943); o Grande Hotel de Ouro Preto (1938), de Niemeyer; o Pavilhão do Brasil na Feira Internacional de Nova York (1938-1939), de Costa e Niemeyer; o Conjunto Arquitetônico da Pampulha, projetado por Niemeyer em Belo Horizonte; o Park Hotel São Clemente(1944), em Friburgo, Rio de Janeiro, de Lucio Costa; o Conjunto Habitacional Pedregulho (1950-1952), de Reidy, entre outros.

A ideia do termo Escola Carioca de arquitetura é esboçada pela primeira vez por ocasião da publicação do catálogo da exposição Brazil Builds, no Museum of Modern Art [Museu de Arte Moderna] (MoMA), de Nova York, em 1943,5  em texto escrito em 1944 pelo crítico Mário de Andrade (1893-1945) sobre a importância dessa realização. Andrade afirma que "a primeira escola, o que se pode chamar legitimamente de 'escola' de arquitetura moderna no Brasil, foi a do Rio, com Lucio Costa à frente, e ainda inigualada até hoje".6 No mesmo ano, essa produção nomeada internamente de Escola Carioca começa a ser conhecida como brazilian style. A simultaneidade dos termos faz com que durante muito tempo se tome a produção arquitetônica "carioca" pela totalidade da produção nacional, algo que vem sendo revisto pela historiografia da arquitetura desde os anos 1980.7  De fato, a partir da década de 1940 é possível verificar em várias cidades do Brasil uma produção que pode ser identificada com a rubrica Escola Carioca. Encabeçada por arquitetos cariocas ou formados no Rio de Janeiro - como Hélio Duarte (1906-1989), que dirige a experiência do Convênio Escolar em São Paulo, 1948 -1952,8 e Oscar Niemeyer, que projeta os principais edifícios do Parque do Ibirapuera, responsáveis pela introdução da arquitetura moderna nos edifícios públicos em São Paulo -, não se pode afirmar que ela represente a totalidade da produção arquitetônica brasileira. Pois mesmo entre os arquitetos cariocas há aqueles que em sua obra ou em alguns projetos buscam se manter fiéis aos preceitos racionalistas mais estritos, como Jorge Moreira e Vital Brazil (1909-1997), ou construir outros vocabulários arquitetônicos, como Sérgio Bernardes (1919-2002).

O termo, portanto, está longe de ser consensual, pois identifica superficialmente uma série de obras como uma produção hegemônica, em detrimento da variedade de propostas em curso no país entre as décadas de 1930 e 1950, mesmo entre aqueles que se tornam símbolos da chamada Escola Carioca, como Costa, Niemeyer, Reidy, Moreira e os Roberto. Como exemplo, pode-se apontar a diferença entre a forma nas obras de Costa e Niemeyer - os principais nomes do Rio de Janeiro - se dá a ligação entre a arquitetura moderna e a tradicional. Se para Costa trata-se de valorizar a austeridade da arquitetura civil da tradição construtiva luso-brasileira, por esta se aproximar da contenção formal moderna, na obra de Niemeyer o que se nota é a filiação ao barroco mineiro, sobretudo o das igrejas, já que este se distancia de um racionalismo mais estrito, ressaltando plasticamente o caráter próprio de cada edifício.9

Notas
1 Segundo Hugo Segawa, "Brazilian School, Cariocan School, First National Style in Mordern Architecture, Neobarroco foram alguns dos rótulos atribuídos pela história e crítica de arquitetura pensada e escrita pelos estudiosos europeus e norte-americanos, para a arquitetura feita no Brasil mais ou menos entre a década de 1930 até Brasília", fruto da revisão historiográfica do pós-guerra. Cf. SEGAWA, Hugo. Arquiteturas no Brasil: 1900-1990, São Paulo: Edusp, 1998, p.103.

2 KAMITA, João Masao. Espaço moderno e país novo. Arquitetura moderna no Rio de Janeiro. Tese (Doutorado). 1999. 184f. - Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo - FAU/USP, São Paulo, 1999. pp. 27-8.

3 Idem, op. cit, pp. 48-9.

4 MARTINS, Carlos Alberto Ferreira. Arquitetura e estado no Brasil: elementos para uma investigação sobre a constituição do discurso moderno no Brasil: a obra de Lucio Costa 1924-1952. Dissertação (Mestrado). 1987. 225f. - Faculdade de Filosofia Ciência e Letras da Universidade de São Paulo - FFLCH/USP, São Paulo, 1987.
 
5 Ocasião em que surge o temo brazilian style.
 
6 ANDRADE, Mario de Andrade, Brazil Builds (1944). In: _________. Depoimento de uma geração. Organização Alberto Xavier. São Paulo: Cosac Naify, 2003, p.179.
 
7 TINEM, Nelci. O Alvo do Olhar Estrangeiro: o Brasil na historiografia da arquitetura moderna. João Pessoa: Ed. Manufatura, 2002, il p&b, 237 p.

8 WISNIK, Guilherme. O programa escolar e a formação da 'escola paulista. In: __________. Arquitetura escolar paulista: anos 1950 e 1960. Organização Avany de Francisco Ferreira e Mirela Geiger Mello. São Paulo: FDE, 2006, p.59.

9 Idem, Modernidade congênita. In: _________. Arquitetura Moderna Brasileira. Organização Elizabetta Andreolli e Adrian Forty. Londres: Phaidon, 2004, p. 30.



Atualizado em 06/12/2012
 
 
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  Andrade, Mário de (1893 - 1945)