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Rosenfeld, Anatol (1912 - 1973)

Biografia
Anatol Herbert Rosenfeld (Alemanha 1912 - São Paulo SP 1973). Filósofo, crítico de arte, jornalista e professor. Estuda filosofia e teoria da literatura na Universidade de Berlim. Intelectual de origem judaica, interrompe o doutorado devido à perseguição nazista. Refugia-se no Brasil, instalando-se em São Paulo, em 1937. Trabalha como lavrador em uma fazenda no interior de São Paulo. Em seguida, torna-se caixeiro-viajante, ofício que o faz andar pelo Brasil e lhe propicia o aprendizado da língua portuguesa. Nesse período não abandona as atividades intelectuais, escrevendo poemas e crônicas em alemão e em português. A partir de 1945, trabalha como jornalista, escreve em periódicos de língua alemã e em jornais brasileiros. Em 1956, a convite do crítico Antonio Candido (1918), assina a seção de Letras Germânicas no Suplemento Literário de O Estado de S. Paulo, colaboração que mantém até 1967, quando o caderno para de ser editado. Ainda no Estadão, contribui também com crônicas, textos de ficção e artigos nas áreas de história, teoria da literatura e teatro. De 1962 a 1967, leciona estética teatral na Escola de Arte Dramática do Estado de São Paulo (EAD). No mesmo período, envolve-se ativamente com a cena teatral paulista, estabelecendo diálogos, por meio de seus artigos, com importantes diretores do período. A convite do crítico Décio de Almeida Prado (1917 - 2000), em 1954 publica o clássico livro O Teatro Épico. Em sua trajetória intelectual, não se vincula a nenhuma instituição de ensino, embora receba inúmeros convites para lecionar em universidades. Prefere sustentar-se ministrando cursos particulares de filosofia e escrevendo como free-lancer para jornais e revistas. Preserva, dessa maneira, sua independência intelectual, além de dispor de tempo para dedicar-se a seus projetos. Participa, no fim da vida, da comissão editorial da revista Argumento. Postumamente, a editora Perspectiva publica uma série de livros com escritos deixados por Rosenfeld, editados pelo professor Jacó Guinsburg (1921), entre os quais estão Texto/Contexto II e Prismas do Teatro.

Comentário crítico
No decorrer de sua atividade intelectual, Anatol Rosenfeld escreve sobre diversos autores e temas, desde poetas alemães como Gottfried Benn (1886 - 1956) até brasileiros como Mário de Andrade (1893 - 1945). Nesse sentido, estabelece relações entre as artes alemã e brasileira, colaborando para o desenvolvimento da literatura comparada no Brasil. No artigo Aspectos do Romantismo Alemão, após expor e comentar as características centrais do movimento romântico na Alemanha, o crítico sonda sua ressonância em movimentos artísticos posteriores, efetuando, por exemplo, a aproximação entre romantismo e poesia concreta. Já em Mário e o Cabotinismo, Rosenfeld discute aspectos da literatura de Mário de Andrade à luz das formulações de Goethe (1749 - 1832), Nietzsche (1844 - 1900) e de outros pensadores alemães.

Nesse artigo, Rosenfeld observa na obra de Mário de Andrade certas "tendências irracionalistas", identificadas principalmente na expressão imediata e espontânea dos sentimentos e do inconsciente do eu-lírico; assim, seus versos deveriam expressar o "eu profundo" do poeta, livre dos automatismos da linguagem cotidiana. O crítico discute as possibilidades de concretização da almejada sinceridade subjetiva na literatura, afirmando que ela pressuporia um indivíduo simples, sem matizes, "sem mescla psíquica". Ao desenvolver a discussão, identifica na obra de Andrade, a despeito de suas intenções irracionalistas, "uma consciência aguda da multiplicidade do ser", delineando a complexidade dos textos do escritor modernista.

A questão do irracionalismo - as manifestações espontâneas do inconsciente, dos sentimentos, dos instintos subjetivos - na arte permeia diversos escritos de Rosenfeld, nos quais se percebe a defesa da razão por parte do crítico. Tal defesa é devida em grande parte à sua experiência com o nazismo e os atos de violência praticados por seus seguidores, baseados em um irracionalismo regressivo, isto é, em atos não mediados pela reflexão racional, instigando o ódio de um povo contra outros, sem que os indivíduos conjeturassem esclarecidamente sobre os motivos da barbárie. Por isso, Rosenfeld estabelece distância crítica em relação a elementos irracionalistas em obras de arte, que facilmente podem ecoar doutrinas fascistas.

A partir de 1964, quando acontece o golpe militar no Brasil, o crítico impõe-se de forma mais firme contra tais elementos na arte contemporânea. No mesmo período encontra-se bastante próximo da cena teatral paulista, na qual características do chamado teatro agressivo estão em voga. Escreve então o artigo O Teatro Agressivo, no qual discute a tendência violenta do teatro contemporâneo a partir da peça O Rei da Vela, de Oswald de Andrade, dirigida por José Celso Martinez (1937), do Teatro Oficina. Critica Martinez por fazer da violência o "princípio supremo" de seu teatro, fato que se afigura, para o crítico, "contraditório e irracional". Apesar das restrições de Rosenfeld ao método do Oficina, salta aos olhos seu equilíbrio argumentativo: há tanto a crítica dos aspectos apontados quanto a valorização dos avanços estéticos alcançados.

Outra importante contribuição crítica de Rosenfeld para o debate formal do teatro no Brasil está em O Teatro Épico (1965), em que introduz a questão do teatro épico de Bertolt Brecht. As atividades intelectuais do autor, no entanto, não se restringem às áreas da literatura e do teatro, tendo Rosenfeld escrito sobre cinema e antropologia, além de textos de ficção. Em todos esses escritos encontram-se a ironia do estilo, a técnica analítica moderna e o primado da razão.



Atualizado em 07/03/2013
 
 
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