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Andrade, Oswald de (1890 - 1954)

Biografia
José Oswald de Sousa Andrade (São Paulo SP 1890 - idem 1954). Romancista, poeta, dramaturgo, ensaísta e jornalista. Filho único de José Oswald Nogueira de Andrade, de origem latifundiária, e Inês Henriqueta Inglês de Sousa Andrade, de família aristocrata. Sua opção profissional e dedicação à literatura são bem recebidas, desde a juventude, pela família, sobretudo por ter como tio o escritor Inglês de Souza (1853 - 1918). Inicia-se no jornalismo em 1909, colaborando na coluna "Teatros e salões" do Diário Popular. Em 1911, funda o irreverente semanário O Pirralho. No ano seguinte, viaja pela Europa, onde toma contato com o ambiente artístico marcado pelo manifesto futurista (1909) do poeta italiano Marinetti (1876 - 1944), bem como pela arte primitiva, em voga entre os franceses. Seu livro de estreia, lançado em 1916, reúne as peças de teatro Mon Coeur Balance e Leur Âme, escritas em francês, em parceria com Guilherme de Almeida (1890 - 1969). Em 1919, forma-se bacharel na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco. Em 1920, funda com Menotti Del Picchia (1892 - 1988) a revista Papel e Tinta, entre cujos colaboradores estão intelectuais da vanguarda modernista como Mário de Andrade (1893 - 1945) e Di Cavalcanti (1897 - 1976). Durante a Semana de Arte Moderna de 1922, que ajuda a preparar, lê trechos do romance Os Condenados (posteriormente chamado Alma) sob vaias do público. Em 1924, defende a valorização da "originalidade nativa" como pedra de toque da nova estética proposta no seu "Manifesto da Poesia Pau-Brasil" e, com o mesmo intuito, integra uma excursão de modernistas pelas cidades históricas de Minas Gerais. Seu propósito de ruptura se concretiza, na prosa, com Memórias Sentimentais de João Miramar (1924) e, na poesia, com Pau-Brasil (1925). Em 1927, publica o romance A Estrela de Absinto e o Primeiro Caderno do Aluno de Poesia Oswald de Andrade. No ano seguinte, em diálogo com a obra da pintora Tarsila do Amaral (1886 - 1973), com quem está casado, cria o Movimento Antropofágico, divulgado pelo "Manifesto Antropófago" e pela Revista de Antropofagia. Em 1931, torna-se membro do Partido Comunista e passa a evidenciar seu posicionamento político na sua produção intelectual dos anos seguintes, como no prefácio com que lança Serafim Ponte Grande (1933) e nas alterações que faz no romance A Escada Vermelha (1934), inclusive com o acréscimo do atributo de cor ao título. As preocupações políticas também se fazem notar nas suas peças de teatro O Homem e o Cavalo (1934), A Morta e O Rei da Vela (1937) e nos dois volumes do romance cíclico Marco Zero, A Revolução Melancólica (1943) e Chão (1945). Após romper com o partido, em 1945, retoma as idéias antropofágicas, buscando alçá-las ao estatuto filosófico, em produções como a tese A Crise da Filosofia Messiânica (1950) e a série de artigos "A marcha das utopias" (1953). Publica o primeiro volume das suas memórias, Um Homem sem Profissão: sob as ordens da mamãe, em1954, meses antes de sua morte.

Comentário Crítico
Oswald de Andrade é considerado um dos principais expoentes da primeira fase do Modernismo brasileiro, aquela que tem lugar na década de 20, reconhecidamente após a Semana de Arte Moderna (1922). Esse período concentra grande parte de sua contribuição inovadora para a literatura brasileira, como as propostas estéticas formuladas nos manifestos com que inaugura os movimentos Pau-Brasil (1924) e Antropofágico (1928).

O escritor apropria-se do nome da primeira riqueza do território brasileiro exportada em massa, o pau-brasil, para designar a poesia de exportação que propõe, em oposição à poesia de importação, que julga mera imitadora dos modelos europeus. Caracteriza, assim, a poesia pau-brasil como "cândida", no sentido de prescindir da cópia em favor da valorização do primitivo, dos "fatos estéticos" da geografia, história e sociedade brasileira, e "ágil", no sentido de se constituir pela síntese, dispensando, no nível da linguagem, o que é simples demonstração de erudição e acolhendo o natural e a invenção, como o erro e o neologismo. O crítico Haroldo de Campos (1929 - 2003) vê nas técnicas de montagem empregadas para gerir esses elementos uma forma de estimular o leitor a deixar o estado de contemplação e participar da construção do sentido, tal como na montagem cinematográfica teorizada pelo cineasta russo Sergei Eisenstein (1898 - 1948). Um caso bastante representativo é o dos poemas iniciais de Pau-Brasil (1925), formados pelo recorte de trechos de crônicas de viagem da época colonial e pelo acréscimo de títulos que reforçam o deslocamento de contexto, o que destrói o sentido original e constrói um outro, marcado pela crítica e pelo humor. Esse procedimento revela que já está em germe no movimento Pau-Brasil a essência da Antropofagia, a devoração do outro, o "inimigo", para a incorporação dos seus valores e o consequente fortalecimento do antropófago.

No que se refere à prosa de Oswald moldada pela estética que propõe a partir de 1924, mostra-se bastante próxima da poesia pelo caráter fragmentário conferido à expressão de ambas; é o que se nota, por exemplo, pela comparação entre o poema "Velhice" ("O netinho jogou os óculos/ Na latrina"), de Primeiro Caderno do Aluno de Poesia Oswald de Andrade (1927) e o fragmento 75, "Natal" ("Minha sogra ficou avó"), de Memórias Sentimentais de João Miramar (1924). Esse romance e Serafim Ponte Grande (publicado em 1933, mas escrito na década de 20) formam o que o crítico Antonio Candido (1918) considera "o par ímpar", ou seja, as duas obras de ficção mais bem realizadas de Oswald, justamente por associarem, de forma inédita na sua produção, elevados graus de descontinuidade e de sarcasmo-poesia. O primeiro se constitui de fragmentos justapostos em linguagem sintética cuja sequência narra a história de João Miramar desde a infância até o momento em que declara, em entrevista, a intenção de interromper a escrita de suas memórias. No segundo, a subversão sintática extrapola o nível do fragmento e atinge todo o livro, formado de partes que revelam as aventuras do protagonista sob diferentes gêneros narrativos, o que faz Haroldo de Campos classificá-lo como não-livro composto de fragmentos de livros possíveis.

Os volumes da Trilogia do Exílio - Os Condenados (1922), A Estrela de Absinto (1927) e A Escada Vermelha (1934) -,  elaborados essencialmente entre 1917 e 1922, sob o impacto inicial de um relacionamento amoroso do escritor terminado tragicamente, são não só menos inovadores em termos estruturais como também mais afastados do humor, assumindo mesmo um tom decadentista. Numa possível tentativa de superação do pessimismo, ao retomar o texto do último volume para a publicação, já na década de 30, Oswald incorpora a ele elementos vindos da sua recente adesão ao comunismo, abrindo ao personagem Jorge d'Alvelos, por exemplo, a perspectiva da luta pela revolução social. Essa tomada de posição política, claramente expressa no prefácio escrito para Serafim Ponte Grande em fevereiro de 1933, também resulta numa experiência que, juntamente com as agruras financeiras vividas após a crise de 1929, constitui a base de Marco Zero. Os dois volumes deste romance, A Revolução Melancólica (1943) e Chão (1945), mantêm a estruturação em fragmentos como procedimento técnico para captar os quadros da realidade dos anos 30 que Oswald deseja retratar, mas sem a radicalidade estética de Serafim Ponte Grande. O interesse maior do escritor já não é marcar posição pela linguagem, mas pela interpretação crítica da história que vivencia. Isso mostra que, após a primeira fase modernista, ele continua a acompanhar o compasso das transformações no cenário da literatura brasileira, no qual se nota maior ênfase nas questões ideológicas do que nas estéticas, conforme aponta o crítico João Luiz Lafetá (1946-1996).

Na dramaturgia, com exceção de suas primeiras peças, Mon Coeur Balance e Leur Âme (1916), todas as outras - O Homem e o Cavalo (1934), A Morta e O Rei da Vela (1937) - contêm indícios, mais ou menos explícitos, do envolvimento de Oswald com o marxismo. Nesse caso, porém, a linguagem de vanguarda não é ofuscada pela ideologia e difere de tudo que o teatro brasileiro conhece até então, como destaca o crítico teatral Sábato Magaldi; um exemplo são as referências à própria situação cênica, que quebram a ilusão de realidade em torno da representação e criam um canal de comunicação mais direto com o público. Tal vanguardismo mantém essas peças longe dos palcos por muito tempo, mas o contexto de contestação política que se pronuncia na década de 60 leva o Teatro Oficina a enfrentar o desafio de encenar O Rei da Vela em 1967. O mesmo movimento de retomada se dá com a poesia inovadora dos anos 20, baseada na síntese, que é valorizada pelo Concretismo dos anos 50 e ecoa no Tropicalismo do final dos anos 60.



Atualizado em 15/07/2014
 
 
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Di Cavalcanti (1897 - 1976)
Malfatti, Anita (1889 - 1964)
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