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Abreu, Caio Fernando (1948 - 1996)      

Biografia
Caio Fernando Loureiro de Abreu (Santiago do Boqueirão RS 1948 - Porto Alegre RS 1996). Contista, romancista, dramaturgo, jornalista. Muda-se para Porto Alegre, em 1963. Publica seu primeiro conto, O Príncipe Sapo, na revista Cláudia, em 1963. A partir de 1964 cursa Letras e Arte Dramática na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), mas abandona ambos os cursos para dedicar-ser ao jornalismo. Transfere-se para São Paulo em 1968, após ser selecionado, em concurso nacional, para compor a primeira redação da revista Veja. No ano seguinte, perseguido pela ditadura militar, refugia-se na chácara da escritora Hilda Hilst (1930 - 2004), em Campinas, São Paulo. A partir daí passa a levar uma vida errante no Brasil e no exterior. Fascinado pelo contracultura, viaja pela Europa de mochila nas costas, vive em comunidade, lava pratos em Estocolmo, e considera a possibilidade de viver de artesanato em uma praça de Ipanema. Na década de 1980, escreve para algumas revistas e torna-se editor do semanário Leia Livros. Em 1990, vai a Londres, lançar a tradução inglesa de Os Dragões Não Conhecem o Paraíso. Vai para a França, em 1994, a convite da Maison des Écrivains Étrangers et des Traducteurs de Saint Nazaire, onde escreve a novela Bien Loin de Marienbad. Em setembro do mesmo ano escreve em sua coluna semanal, no jornal O Estado de S. Paulo, uma série de três cartas denominadas Cartas para Além do Muro, onde declara ser portador do vírus HIV.

Comentário Crítico
A literatura de Caio Fernando Abreu começa a ser produzida em 1966, e não se interrompe até sua morte, trinta anos depois. Delimitar o momento de criação de sua obra é fundamental para compreendê-la, pois é desse tempo que o escritor extrai os temas e a atmosfera necessários para criá-la.

As décadas de 1960 e 1970 são marcadas pelos movimentos contraculturais: de um lado, floresce a ideologia "paz e amor"; o movimento negro, a rebeldia estudantil, a revolução sexual, o feminismo e o movimento gay. De outro, predomina o cenário cinzento das ditaduras latino-americanas, o imperialismo norte-americano e a guerra do Vietnã. Nutrindo-se desse momento particularmente rico da história do Brasil e do mundo, a obra de Caio Fernando Abreu elege a contemporaneidade como tema, e nela vai buscar seus personagens sombrios, angustiados, obcecados pela morte e pela busca desesperada de amor e sexo. O fim das utopias libertárias, no entanto, chega, para o escritor, com o advento da AIDS, que será tematizada em cada um de seus livros, a partir de 1983.

As marcas e a influência de autores como Clarice Lispector (1925 - 1977), Hilda Hilst (1930 - 2004), García Márquez e Julio Cortazar - dos quais é leitor contumaz - podem ser facilmente detectadas em seus livros, em diferentes momentos. A música, o teatro e o cinema também atuam como fontes de inspiração tão relevantes quanto a própria literatura.

Gosta de escrever com fundo musical e tenta incorporar, ao texto, o ritmo da música, procedimento que chama de "coreografia verbal". Sua intenção é a de projetar os sons até mesmo na experiência da leitura e, para obter esse efeito, alguns de seus contos são acompanhados de um curioso "modo de usar": para ser lido ao som de... Chega a admitir que as canções de Rita Lee e de Cazuza exercem maior influência sobre ele do que toda a obra de Graciliano Ramos (1892 - 1953). Da mesma forma, não teme incorporar à sua escrita o chulo ou o não-literário. Todas estas inspirações, e mais as frases assimiladas no cotidiano - as "frases-ímãs - são anotadas em pequenos cadernos: eu vou magnetizando coisas no inconsciente, coisas do dia-a-dia, coisas que magicamente as pessoas vão te dizendo".

Outro procedimento importante utilizado em sua técnica de escrita é o que denomina "teoria dos metâmeros", retirada da biologia, e que foi desenvolvido por ele a partir de 1970. Metâmeros são anéis de alguns tipos de verme, e por meio deles o animal se multiplica, gerando outro, já que cada parte contém informações genéticas do verme inteiro. Segundo Jeanne Callegari, biógrafa do escritor, em literatura um metâmero pode ser qualquer esboço ou anotação fragmentada que contenha informações sobre personagens, estilo, ou trama. Assim que o desejar, o escritor pode recuperar esses textos e utilizar-se deles, ampliando-os, transformando-os em contos, romances, ou peças teatrais.

Limite Branco, um romance de formação escrito aos 18 anos, permanece engavetado por cinco anos, quando então vai ser recuperado e reescrito por Abreu segundo a teoria dos metâmeros. Embora obra de um adolescente, já anuncia os temas sombrios que compõem sua literatura. O livro tem como cenário os anos 1960, mas o autor prefere classificá-lo como um romance intimista e atemporal.

Inventário do Irremediável, seu livro de estréia (reescrito posteriormente, pouco antes de sua morte) traz em seus contos uma forte influência da literatura de Clarice Lispector. A preocupação de se desvincular da influência exercida pela escritora nas suas produções é comentada em uma de suas entrevistas: "só lia os livros dela escondido de mim mesmo".

Entre os contos que compõem esse livro, O Ovo é o que exemplifica de modo mais visível essa influência. Escrito sob o impacto da ditadura militar no Brasil, O Ovo funciona como metáfora de tudo aquilo que aprisiona. O livro se divide em quatro grandes partes (ou inventários), a saber: a morte, a solidão, o amor e o espanto. Cada uma delas obedece a uma lógica interna, minuciosamente elaborada em cada conto. A busca dessa coerência e de uma unidade temática estão presentes em todos os livros do autor.

Pedras de Calcutá, cujo título é retirado de um poema de Mario Quintana (1906 - 1994), marca o amadurecimento de Abreu como escritor e o pleno domínio da palavra escrita. Tornam-se mais visíveis o rigor formal, a busca da palavra exata, o burilamento sem afetação que identificam sua obra. A temática predominante é ainda a descrença e o desamparo.

O livro que se segue, Morangos Mofados, lançado em 1982, transforma-se rapidamente no seu maior sucesso de público e de crítica: oito tiragens são impressas uma após a outra. Nele, Caio Fernando Abreu sedimenta sua presença na literatura brasileira como legítimo representante de sua geração. Segundo Heloisa Buarque de Holanda, pode-se ler "no conto título do livro, uma última e inútil tentativa de socorrer John Lennon, um certo adeus às fantasias apocalípticas, sobretudo, a clareza quanto à urgência de um novo projeto (sonho) que inclua um acerto de contas com o real".

E esse acerto vem, e é brutal. A AIDS já ronda a vida e a literatura de Caio Abreu. Seu próximo trabalho, Triângulo das Águas, obedece a uma concepção esotérica, astrológica: reúne três novelas, cada uma delas dedicada a um dos signos do elemento água. Uma delas, Pela Noite, é considerada o primeiro texto da literatura brasileira sobre o tema da AIDS. O livro não tem a mesma concisão de Morangos Mofados. Há um excesso de palavras, um jorro de linguagem proposital, segundo o autor, para provocar um efeito de imitação da água.

Os Dragões Não Conhecem o Paraíso, ao contrário, é considerado o melhor trabalho do escritor, e o mais maduro. Como o autor, seus personagens envelhecem: estão agora na faixa etária dos 40 anos. Predomina a temática amorosa, suas angústias e solidões. O tema da AIDS, ainda de forma implícita, também está presente no conto que abre o livro: Linda, uma História Horrível, no qual a doença é insinuada por metáforas, por sintomas: "Deus, pensou, antes de estender a outra mão para tocar no pêlo da cadela quase cega, cheia de manchas rosadas. Iguais à do tapete gasto da escada, iguais às da pele do seu peito, embaixo dos pêlos. Crespos, escuros, macios".

Com Onde Andará Dulce Veiga? Caio Fernando Abreu volta ao romance. A inspiração para o livro e a personagem pode ser encontrada na obra de Marques Rebelo, A Estrela Sobe, sucesso nos anos 1930, e filmada por Bruno Barreto em 1974. Apenas na aparência Dulce Veiga é um romance policialesco. O jornalista que protagoniza a trama e procura por uma cantora desaparecida está, na verdade, em busca de si mesmo, do seu passado, mas também da aceitação do seu presente, assombrado pela AIDS que, desta vez, é anunciada sem reticências. O livro descreve um Brasil urbano, violento e poético.

Desde os anos 1980 e 1990, Caio revisa e reescreve seus livros, obsessivamente. Em Ovelhas Negras, volta então aos seus primeiros escritos da adolescência e junta as duas pontas de sua vida e de sua obra. Ali reúne desde o seu primeiro trabalho ficcional, A Maldição dos Saint-Marie, até contos mais recentes, assim como fragmentos de origem e tempos diversos. Trata-se, para ele, de uma espécie de autobiografia ficcional, um livro pré-póstumo, como diz.

A obra teatral de Caio Fernando Abreu, variada e expressiva, remete aos mesmos temas tratados em sua literatura, e estabelece, por vezes, interessante diálogo com ela, como na peça A Maldição do Vale Negro, que retoma, mais uma vez, A Maldição dos Saint-Marie. Toda sua dramaturgia está reunida em Teatro Completo.

O volume Cartas, publicado em 2002, traz grande parte da enorme correspondência de Abreu, que nada fica a dever, em qualidade, à de sua obra ficcional.



Atualizado em 16/10/2013
 
 
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