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Lispector, Clarice (1920 - 1977)      

Biografia
Clarice Lispector (Tchetchelnyk, Ucrânia 1920 - Rio de Janeiro RJ 1977). Romancista, contista, cronista, tradutora e jornalista. Nascida numa aldeia ucraniana, imigra com a família para o Brasil em 1926, instalando-se em Maceió. Em 1929, vive com os pais no Recife, onde faz os primeiros estudos e aprende os idiomas inglês e francês (em casa, conversa em iídiche com os pais, de origem judaica). Após a morte da mãe, a família muda-se para o Rio de Janeiro, em 1935, onde Clarice conclui o curso ginasial, lê autores como Eça de Queirós, Dostoievski, Graciliano Ramos e publica o seu primeiro conto, no jornal literário Dom Casmurro, em 1936. Quatro anos depois ingressa na Faculdade Nacional de Direito e trabalha como redatora na Agência Nacional e depois no jornal A Noite. Casa-se com o diplomata Maury Gurgel Valente e vive durante 15 anos em países como Itália, Suíça, Inglaterra, Estados Unidos, onde escreve os seus primeiros livros. O romance de estreia, Perto do Coração Selvagem, é publicado em 1944, quando a autora tem apenas 19 anos de idade, e ganha o Prêmio Graça Aranha. Em 1959, após seu divórcio, volta a residir no Brasil e publica alguns de seus livros principais, como Laços de Família (1960), A Paixão Segundo G.H. (1961), Água Viva (1973) e A Hora da Estrela (1977). No Rio de Janeiro, atua como jornalista no Jornal do Brasil, Correio da Manhã e Diário da Noite, escrevendo crônicas e artigos sobre moda, beleza e comportamento para o público feminino. Em 1967, a pedido de seu filho caçula, escreve um livro para crianças, O Mistério do Coelho Pensante. Ela também adapta para o português obras da literatura infantojuvenil, como A Ilha Misteriosa, de Júlio Verne, e As Viagens de Gulliver, de Jonathan Swift. Em 1976, recebe o primeiro prêmio do 10º Concurso Literário Nacional, de Brasília, pelo conjunto de sua obra.

Comentário Crítico
Clarice Lispector é autora de contos e romances de temática existencial e psicológica, em que o centro narrativo está na investigação do mundo interior dos personagens, e em especial o das figuras femininas, com poucas ações exteriores e enredo reduzido ao mínimo. É uma obra em que noções convencionais de tempo, espaço e movimento dramático, essenciais a uma estética de cunho realista, como a praticada por autores da década de 1930, como Jorge Amado (1912 - 2001), Rachel de Queiroz (1910 - 2003) ou José Lins do Rego (1901 - 1957), cedem vez a um outro tipo de discurso, construído com base nas sensações, memórias e pensamentos do personagem, articulados numa prosa densa, elaborada, que se aproxima da linguagem poética, pelo uso que faz da metáfora, da sinestesia e de toda sorte de recursos imagéticos e sonoros. A autora não se preocupa apenas com os significados, mas também com os significantes, ou seja, com o valor artístico das palavras. A originalidade de Clarice é registrada pela crítica literária como uma renovação da prosa narrativa brasileira. É importante apontar também a dimensão filosófica de sua obra, que se apresenta na tensão entre a liberdade de escolha dos personagens e as convenções morais ou sociais estabelecidas, bem como os conflitos entre imaginação e realidade, indivíduo e mundo. Nesse aspecto, é possível aproximá-la de pensadores como o francês Jean-Paul Sartre, que investiga a natureza da existência humana enquanto resultado de escolhas e ações.

Todos esses elementos conceituais e estéticos já estão presentes no livro de estreia de Clarice, Perto do Coração Selvagem, publicado em 1944, o qual recebe na época comentários elogiosos de críticos como Antonio Candido (1918) e Álvaro Lins, que saúdam a renovação trazida pela autora. Em seu artigo No Raiar de Clarice Lispector, publicado no mesmo ano que o romance, Candido já se referia à "exploração vocabular" e à "aventura da expressão" da autora, capaz de "estender o domínio da palavra sobre regiões mais complexas e inexprimíveis". Lins, por sua vez, aponta nesse livro a influência de autores de língua inglesa do início do século XX, como Virgínia Woolf e James Joyce, em especial pelo uso do monólogo interior (discurso da personagem na primeira pessoa, em que ela faz um mergulho introspectivo em direção a seus sentimentos, ideias ou experiências vividas. Com efeito, o título do livro é uma frase do romance Retrato do Artista quando Jovem, de Joyce. No entanto, segundo a própria autora, na época em que escreve o livro, ela não conhecia a obra do escritor irlandês, aceitando o título como sugestão apresentada por Lucio Cardoso (1913 - 1968), que lê os originais do romance antes da publicação. Ainda que não tenha ocorrido influência direta, são nítidas as afinidades estilísticas entre Clarice e Joyce, não apenas no campo semântico mas também na quebra da linearidade fabulatória do tipo início-meio-fim, substituída pela fragmentação e descontinuidade da narrativa.

Perto do Coração Selvagem é um romance urbano e psicológico, que destoa da ficção regionalista e social dominante na época. O livro, dividido em duas partes, conta a história de Joana desde a sua infância até o início da vida adulta. Poucos fatos surgem ao longo dessa trajetória: a perda dos pais, sua adoção pela tia, o roubo de um livro pela menina, que provoca a sua transferência para um internato, o casamento com Otávio e a separação do marido, após descobrir seu adultério. A maneira como Clarice constrói e desenvolve sua ficção, porém, é diferente da fabulação tradicional, alternando o monólogo interior com a descrição de ocorrências da vida da personagem quando criança e adulta, inserindo o passado no presente e vice-versa, rompendo ainda as fronteiras entre imaginação e realidade. Esse tipo de narrativa, que não está centrada numa história linear, de feitio realista, causa estranheza até mesmo a Álvaro Lins, que na época julga a obra inacabada, opinião hoje não endossada pela crítica, que considera a fragmentação como uma das maneiras de se construir um relato.

A criação de um mundo próprio pela linguagem, que não se limita a retratar os acontecimentos exteriores, é uma definição que pode ser aplicada a diversos romances posteriores, e em especial A Paixão Segundo G.H. (1964), um longo monólogo em que a narradora faz um mergulho em si mesma, buscando entender sua identidade, sua relação com os outros, as razões para existir, amar, estar no mundo. Subitamente, ela resolve abrir o quarto da empregada, que se demitira, como se explorasse uma outra dimensão, diferente da sua, e ali se depara com uma barata, que provoca a sensação previsível de asco e medo. Contemplar o inseto, porém, torna-se um desafio para a narradora, que encontra ali a oportunidade de demonstrar uma atitude inesperada, corajosa, que simbolize uma mudança em sua vida: e ela come a barata, vencendo a repulsa. A Paixão Segundo G.H. é um livro em fluxo contínuo, sem divisão em capítulos, que começa com seis travessões seguidos de uma frase começada em letras minúsculas ("estou procurando, estou procurando. Estou tentando entender") e termina de modo similar, com uma frase interrompida seguida de igual número de travessões, representando, na própria materialidade da escrita, o estado de espírito da personagem, o seu fluxo incessante de pensamentos e sensações, que não obedecem a uma lógica linear.

Já em Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres (1969), Clarice narra em terceira pessoa a história de Loreley, professora primária que abandona a casa dos pais no interior fluminense e muda-se para o Rio de Janeiro, onde se envolve em várias relações amorosas frustradas até conhecer Ulisses, com quem tem um envolvimento mais profundo. Os nomes dos personagens desse romance não são escolhidos por acaso: Loreley, no folclore germânico, é uma sereia que seduz os pescadores com seus cantos, e Ulisses, na mitologia grega, é o herói que após lutar na Guerra de Troia retorna a sua terra natal, Ítaca, e durante a viagem marítima pede aos marinheiros que o amarrem ao mastro do navio, para que ele possa resistir ao canto das sereias. O título da narrativa, por sua vez, remete à Educação Sentimental, de Flaubert, e outras obras romanescas do século XIX que têm como tema o aprendizado do amor, suas penas, alegrias e artimanhas nos jogos de sedução.

Água Viva, publicado em 1973, é talvez o livro mais denso e enigmático de Clarice. O enredo do romance poderia ser resumido à história de uma pintora que inicia um quadro e resolve escrever para o antigo amante (numa conjunção entre a arte e o amor, dois temas básicos da autora). Porém, praticamente não há ações exteriores nesse monólogo fragmentário, elíptico, musical, quase abstrato, que se aproxima da linguagem poética ("É com uma alegria tão profunda. É uma tal aleluia. Aleluia, grito eu, aleluia que se funde com o mais escuro uivo humano da dor de separação mas é grito de felicidade diabólica"). As referências simbólicas ao útero, à placenta, ao líquido amniótico, por sua vez, permitem uma leitura de ordem psicanalítica, que tem orientado alguns dos estudos sobre a obra de Clarice Lispector.

A Hora da Estrela (1977), último livro que publica, parece o romance mais singular em sua obra, exatamente por se afastar das características que mantém ao longo de quase todo o seu trabalho criativo. O romance conta a saga de Macabéa, datilógrafa nascida em Alagoas que migra para o Rio de Janeiro, onde conhece Olímpico de Jesus, também nordestino, com quem vive uma relação amorosa decepcionante. Após consultar-se com uma vidente, que prevê um futuro feliz para Macabéa, ela morre num acidente, atropelada por um luxuoso Mercedes-Benz, símbolo da ostentação da prosperidade material.

Clarice Lispector também é notável contista, tendo publicado oito livros com histórias curtas, em que se destacam Laços de Família (1960), A Legião Estrangeira (1964) e Felicidade Clandestina (1971). A autora explora a ironia e o humor negro, mostrando o absurdo do cotidiano e das relações humanas, como no conto intitulado Uma Galinha (incluída em Laços de Família), em que os sentimentos de compaixão e solidariedade de uma criança pelas aves domésticas logo se transformam em seus opostos, a indiferença e a crueldade (alegoria que pode ser estendida ao campo social, tanto na esfera política quanto na familiar ou na do ambiente de trabalho). A arte narrativa de Clarice, especialmente nas histórias curtas, adota por vezes recursos da fantasia e da fábula, que não obedecem às normas da verossimilhança (ou seja, o retrato realista de pessoas, cenários e situações), como acontece no conto A Menor Mulher do Mundo (de Laços de Família), que relata as aventuras de uma pigmeia do Congo Central que mede apenas 45 centímetros. Descoberta pelo explorador francês Marcel Pretre, ela é batizada de Pequena Flor e levada para a Europa, onde causa perplexidade pela sua diferença radical em relação aos padrões biológicos e culturais do chamado mundo civilizado. Esta é também uma abordagem irônica do tema tradicional do amor impossível, uma vez que a relação entre a pigmeia e o explorador europeu é irrealizável. Em A Legião Estrangeira (1964), Clarice Lispector reúne contos e crônicas que depois são republicados, com acréscimos, no livro Felicidade Clandestina (1971). Os temas básicos da autora, como a solidão, a busca da verdade, o amor, a angústia, estão presentes aqui, ao lado de outros, como o da velhice. No conto Viagem a Petrópolis, por exemplo, a personagem Margarida não tem consciência de sua situação de abandono, que vai descobrir, de forma cruel, ao longo da narrativa.



Atualizado em 02/04/2014
 
 
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