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Belinky, Tatiana (1919 - 2013)

Biografia
Tatiana Belinky Gouveia (Petrogrado, atual São Petersburgo, Rússia 1919 - São Paulo SP 2013). Autora de histórias e poemas infantis, tradutora e roteirista de televisão. Após viver cerca de nove anos em Riga, Letônia, chega ao Brasil, em setembro de 1929, com os pais e dois irmãos mais novos. Fixam-se em São Paulo. Estuda no Colégio Presbiteriano Mackenzie até 1937, quando conclui o curso comercial e começa a trabalhar como secretária bilíngue e taquígrafa. Ingressa na Faculdade de Filosofia São Bento, mas não conclui o curso. Em 1940, casa-se com o médico psiquiatra Júlio Gouveia (1914 - 1989). Alguns meses depois, quando seu pai morre, em acidente aéreo, assume seus negócios, atuando durante seis anos como representante de produtores de celulose em fábricas de papel, até que se restabeleçam as condições econômicas da família. De 1948 a 1951, a convite de uma sociedade beneficente presidida por amigos e com o apoio da prefeitura, Tatiana e o marido adaptam peças infantis e as encenam em apresentações gratuitas em teatros de toda a cidade de São Paulo. O sucesso do projeto resulta em convite da TV Paulista para que o teatro infantil seja levado à televisão. Em texto adaptado por Gouveia, encenam A Pílula Falante e O Casamento de Emília, de Reinações de Narizinho (1931), de Monteiro Lobato (1882 - 1948). Em 1952, chamado para realizar um programa semanal, o casal vai para a TV Tupi. Inicialmente eles levam ao ar Fábulas Animadas, adaptações feitas por Tatiana de contos de fadas e histórias fantásticas. Em seguida, criam O Sítio do Picapau Amarelo, série inspirada na obra homônima de Lobato, com cerca de 350 episódios, que entre 1968 e 1969 é montada para a TV Bandeirantes. Ao deixar a televisão, a autora assume o setor infantojuvenil da Comissão Estadual de Teatro. De 1972 a 1979, atua como colunista, escrevendo crítica de teatro e de literatura infantil em jornais paulistas, como Folha de S.Paulo, O Estado de S. Paulo, Jornal da Tarde e Gazeta de Pinheiros. Publica, em 1984, Teatro da Juventude, que reúne suas adaptações. A convite de uma editora, lança suas primeiras obras autorais, em 1985: A Operação Tio Onofre e Medroso! Medroso!. Dominando os idiomas inglês, russo, alemão e iídiche, passa também a traduzir obras de Anton Tchekhov (1860 - 1904), irmãos Jacob (1785 - 1863) e Wilhem Grimm (1786 - 1859), entre outros, e a adaptar livremente clássicos da literatura, como Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll (1832 - 1898). Morre na cidade de São Paulo, em 15 de junho de 2013.

Comentário crítico
Em obra composta de mais de 120 títulos, entre traduções, adaptações, memórias, poesia e prosa, Tatiana Belinky propõe aos leitores infantojuvenis reflexões a respeito da natureza humana - frequentemente com humor e sempre empregando recursos que chamam atenção para a própria linguagem.

É o caso, por exemplo, de A Operação Tio Onofre (1985), história que tematiza o medo e a coragem com base em Talita, menina que tem o hábito de atribuir a objetos nome de pessoas. Tio Onofre é o cofre que deve ser aberto sob a ameaça de assaltantes que invadem a casa. O exercício de vocabulário pela aproximação sonora serve de código para a interrupção do crime. Durante o roubo, o telefone da casa toca, e Talita deve atender para que não se levantem suspeitas sobre a ocorrência do crime. Quem está do outro lado da linha é o pai, e a protagonista recorre à metáfora de "Tio Onofre" para alertá-lo de que está em perigo. O enfrentamento do medo e a relação familiar baseada na boa comunicação entre pais e filha permitem, portanto, a superação da adversidade.

Entre os temas que perpassam a obra de Tatiana estão também os direitos humanos. É o que ocorre claramente em O Caso dos Ovos (1986), que parodia a organização do trabalho na sociedade para evidenciar a legitimidade da luta por direitos e da busca por justiça social. Resumindo sua insatisfação na palavra de ordem "galinha bota o ovo, coelho leva a fama", as poedeiras entram em greve, exigindo de seu chefe, o Coelho da Páscoa, que cada ovo leve o nome de sua produtora.

Já a tolerância ao outro e o respeito às diferenças são colocados, por exemplo, em Medroso! Medroso! (1985). Rafa, o protagonista, vira objeto de violência psicológica pois, diferentemente de seus amigos, tem medo de nadar na represa. O menino surpreende a todos quando realiza um ato de coragem. Os colegas, então, param de caçoar dele.

As preocupações humanistas de Tatiana encontram o ápice nas crônicas de Olhos de Ver (2004), que, buscando gestos belos e verdadeiros em encontros banais, retrata meninos e adultos moradores de rua e outros personagens que vivem em condições menos favoráveis do que as da narradora-protagonista. O tratamento dado a essas questões nunca é ingênuo, e procura sempre fugir ao moralismo ou ao lugar-comum. Esse traço torna-se claro em Stanislau (1986), um passarinho que não sabe viver fora da gaiola: sua dona aprende que, por tê-lo criado dessa maneira, jamais poderá soltá-lo na natureza.

É na poesia, no entanto, que o rompimento com o senso comum se torna mais claro. Por meio do humor, o puritanismo é evitado. A vocação é ilustrada em Cacoliques (1990), versos que criam cacófatos como "No mato, abunda a pita". O livro de 1990 traz composições com a configuração mais recorrente na obra de Tatiana, os "limeriques", inspirados no limerick, forma poética que tem no autor inglês Edward Lear (1812 - 1888) seu expoente, cuja estrofe se organiza em cinco versos de oito, oito, cinco, cinco e oito sílabas, em rimas aabba.

Trata-se, em geral, de humor nonsense, pelas situações incongruentes ou absurdas - como demonstram versos do primeiro livro da autora no gênero, Limeriques (1987): "Um cara chamado Mariz / estava com dor no nariz / 'Vou jogá-lo fora', / falou - e na hora / fez isso e vive feliz". Em Mandaliques (com Endereço e Tudo), 2001, ainda adotando a mesma forma poética, Tatiana brinca com expressões chulas do português, empregando os versos para mandar cada pessoa para um lugar: "Sou um infeliz baderneiro. / Só quero fugir bem ligeiro: / Me mandam pra Marte / Ou para qualquer parte".

O olhar bem-humorado e sensível está presente também nos livros em que narra suas memórias: Bidínsula e Outros Retalhos (1990), Transplante de Menina: Da Rua dos Navios à Rua Jaguaribe (1995) e Antecedências (2002). A obra de Tatiana Belinky inclui ainda traduções e adaptações de versos, contos e romances russos, ingleses e alemães.



Atualizado em 17/06/2013