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Marinho, João Carlos (1935)    

Biografia
João Carlos Marinho Homem de Melo (Rio de Janeiro RJ 1935). Escritor de literatura infantojuvenil, romancista, poeta e advogado. Assina João Carlos Marinho, João Carlos Marinho Silva ou J. C. Marinho Silva. Aos 5 anos, muda-se para Santos com a família, onde faz o antigo curso primário. No Colégio Mackenzie, em São Paulo, cursa o ginásio como interno até os 13 anos, quando seu pai morre. Ele passa a viver então com os avós, a mãe e a irmã, nessa cidade. Apaixonado pelo futebol, um dos temas que vai permear sua futura obra, começa a frequentar os jogos no Estádio do Pacaembu, a ouvir comentários de rádio e a ler jornais e revistas esportivos, tornando-se, em suas próprias palavras, "uma verdadeira enciclopédia de futebol". Em 1952, vai para a Suíça e faz o colegial na École Nouvelle de la Suisse Romande, em Lausanne, onde mora até abril de 1956, quando obtém o certificado de Maturité Fédérale Suisse. De volta ao Brasil, fixa residência em São Paulo e ingressa na Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP), em 1957. Bacharel, em 1961, inicia sua carreira como advogado trabalhista em Guarulhos, São Paulo, atuando inicialmente em sindicatos e depois com escritório próprio. A partir de 1965, divide o tempo dedicado ao escritório com o dedicado à literatura e, desde 1987, vive exclusivamente como escritor. Em 1969, Marinho estreia com o livro O Gênio do Crime, que chega à 60ª edição, 40 anos depois de sua publicação, e inaugura As Aventuras da Turma do Gordo. A série conta hoje com 12 títulos, sendo o mais recente, Assassinato na Literatura Infantil, publicado em 2005. Para o público juvenil escreve ainda o livro de contos Pai Mental e Outras Histórias. Sua obra inclui também dois romances para adultos e um livro de poesias, além de um ensaio, Conversando de Monteiro Lobato, publicado em edição comemorativa do centenário de nascimento do autor.

Comentário Crítico
João Carlos Marinho insere-se no movimento de renovação da literatura infantojuvenil da década de 1970. Seu livro de estreia, O Gênio do Crime, inicia a série posteriormente denominada As Aventuras da Turma do Gordo. Seguindo o modelo dos livros de Monteiro Lobato (1882-1948) dedicados ao público infantil, de cujas obras é grande leitor e admirador, Marinho cria uma série de aventuras protagonizadas por um grupo de pequenos heróis.

As narrativas giram sempre em torno de um conflito, uma ameaça social que mobiliza o grupo e desafia a sua coragem e inteligência. O confronto entre os heróis mirins e os bandidos adultos envolve aventuras fantásticas permeadas de muita ação e suspense. Os garotos agem predominantemente por si, tomam a iniciativa da ação e mostram-se determinados e capazes de encontrar soluções. Embora o comportamento dos adultos seja geralmente posto em questão, o centro do conflito não é a oposição entre o mundo dos adultos e o dos jovens, já que contam com a ajuda deles e muitas vezes sua contribuição é importante para o sucesso da ação dos pequenos detetives.

É na cidade de São Paulo que vivem os personagens que compõem a Turma do Gordo, crianças que confrontam suas individualidades tanto no convívio cotidiano como nas aventuras de que participam conjuntamente. Há inúmeras referências precisas à cidade, que aumentam o efeito de real do texto, possibilitando maior identificação e, portanto, interesse por parte dos leitores. Outro fator que concorre para a verossimilhança da narrativa é a linguagem direta e acessível que procura traduzir a linguagem oral e cotidiana dos protagonistas, presente nos numerosos diálogos que entremeiam as intervenções do narrador. Por meio das peripécias e dos desdobramentos que envolvem as aventuras, as narrativas perpassam questões familiares e sociais e expõem aspectos críticos do mundo de que as crianças fazem parte, orientando o leitor para uma determinada consciência de mundo e valorizando sua intervenção nele. O autor não poupa o leitor de entrar em contato com temas polêmicos tais como a corrupção, a pedofilia ou um atirador em série, conhecidos das crianças pelos meios de comunicação de massa, embora dilua sua violência por meio do humor e de soluções fantasiosas.

Com exceção do segundo título da série, Caneco de Prata, cuja inspiração tem origem na leitura de Memórias Sentimentais de João Miramar, de Oswald de Andrade (1890 - 1954), e em que constrói uma narrativa fragmentada e mesclada de imagens com anotações, esquemas e tabelas, as demais novelas são lineares e sua estrutura segue o pensamento lógico da criança. Destinam-se a um leitor fluente, apto a compreender não apenas o texto mas o mundo expresso na narrativa, o que se dá por volta de 10 ou 11 anos, não por acaso a faixa etária também dos protagonistas.

A narrativa é sempre colocada da perspectiva do jovem leitor, tanto do ponto de vista da linguagem e da sua experiência de vida como na apropriação de procedimentos próprios à cultura de massa, como filmes de ação, livros policiais e de ficção científica ou jogos eletrônicos que lhes são familiares. Mas, ao mesmo tempo que se apropria desses procedimentos, trata-os de forma crítica ao parodiar seus estereótipos. Opondo-se a uma literatura dominada por princípios antagônicos e irredutíveis, comprometida com valores éticos ou de intenção pedagógica, o autor chega mesmo a inverter as expectativas de exemplaridade e expõe a complexidade das forças interiores que resultam na ambiguidade do comportamento humano.

Do ponto de vista da linguagem visual, é interessante observar que nas edições mais recentes da série houve alterações significativas com relação às imagens que integram os textos. Menos lúdicas do que anteriormente, na sua maioria de página inteira, e sempre em branco e preto, elas são antes sugestivas do que ilustrativas e parecem ir de encontro ao comentário feito por uma das personagens ao referir-se ao tipo de ilustração que desejava para o livro que estava escrevendo: não deveriam identificar com clareza a figura dos personagens, de modo que o leitor fosse forçado a imaginá-la.

A obra de João Carlos Marinho, que não se reduz às aventuras da Turma do Gordo, inclui ainda um livro de contos, dois romances e um livro de poesia. O primeiro, Pai Mental e Outras Histórias, destina-se ao público juvenil e compõe-se de quatro pequenas narrativas cotidianas, de caráter existencial, que encenam o confronto de jovens e crianças com o mundo adulto. Os romances, ambos para adultos, são marcados pelo experimentalismo formal, contrariando a pontuação convencional: O Professor Albuquerque e a Vida Eterna é um livro memorialístico, de tom melancólico e fundo biográfico, em que um longo parágrafo compõe a história da infância e adolescência do narrador, e Pedro Soldador , uma narrativa essencialmente descritiva, que traduz as desventuras de um trabalhador no ambiente operário paulista das décadas de 1950 a 1970. Seu livro de poemas Anjo de Camisola é dedicado à cidade de São Paulo e de filiação modernista. Com multiplicidade de linguagem, a obra é composta de poemas em verso e prosa, grafites e paródias, dialogando com autores brasileiros e da literatura universal, e inclui traduções de trechos de Rabelais, Montaigne (1533 - 1592) e Proust (1871 - 1922), além de citações de canções da música popular brasileira e de uma citação da própria obra, adaptada de O Professor Albuquerque e a Vida Eterna.

Mas é aos títulos que compõem as aventuras da Turma do Gordo que o autor passa a se dedicar com exclusividade a partir de 1988. Livros que envolvem o leitor com um estilo simples e direto, e que com muito humor e irreverência não dispensam uma representação crítica do mundo que o cerca.



Atualizado em 16/10/2013