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Padaria Espiritual (Fortaleza CE)

Histórico

A Padaria Espiritual é uma agremiação literária surgida em Fortaleza no final do século XIX que reúne escritores, pintores e músicos. Fundada por Antonio Sales (1868 - 1940) em 30 de maio de 1892, conta com a participação de 20 "padeiros", membros fixos do grupo que se reúne no "forno", nome dado a sua sede, sob a direção de um "padeiro-mor". Na própria denominação, que associa a imagem da padaria às letras numa época marcada pelo academicismo da literatura, é possível notar o traço transgressor que dá forma às manifestações públicas e privadas realizadas pelo grupo. Integram a Padaria o primeiro "padeiro-mor", Jovino Guedes (1859 - 1905), Tibúrcio de Freitas (s.d. - 1918), Ulisses Bezerra (1865 - 1920), Carlos Vítor, José de Moura Cavalcante (1965 - 1928), Raimundo Teófilo de Moura, Álvaro Martins (1868 - 1906), Lopes Filho (1868 - 1900), Temístocles Machado (1874 - 1921), Sabino Batista (1868 - 1899), José Maria Brígido (1870 - s.d.), Henrique Jorge (1872 - 1928), Lívio Barreto (1870 - 1895), Luís Sá (1845 - 1898), Joaquim Vitoriano (s.d. - 1894), Gastão de Castro, Adolfo Caminha (1867 - 1897), José dos Santos  e João Paiva, além do próprio Antonio Sales, o "primeiro forneiro". Cada um dos membros assina os textos, publicados no periódico do grupo O Pão, com um pseudônimo.

Boêmios, os "padeiros" não se limitam às reuniões e à redação de suas atas,  divulgam também o grupo por meio de performances em áreas públicas, como piqueniques ou conferências. Além disso, nos textos publicados n'O Pão, os "padeiros" tratam de assuntos diversos da vida literária do Ceará e do Brasil, além de publicarem seus próprios textos, quase sempre marcados pela blague. A orientação geral do que é impresso no periódico é de um posicionamento contrário à burguesia e ao beletrismo galicista, sendo assim mais voltados para a valorização do nacional. Os membros do grupo são, em sua maioria, jovens que não participam da elite cearense, daí sua ênfase no combate à burguesia e na valorização do trabalho a partir do recurso à metáfora da linha de produção do pão, alimento para o espírito. O Pão, com a colaboração dos 20 membros pioneiros da Padaria tem, num primeiro momento, seis números editados - o primeiro em 10 de julho de 1892 e o último em cinco de dezembro do mesmo ano. A partir de então, o jornal A República se transforma no principal veículo de divulgação da produção literária e crítica dos "padeiros".

Chama a atenção, na produção da Padaria, a heterogeneidade dos textos dos membros, marcados, na poesia, tanto pelo Simbolismo quanto pelo Parnasianismo, ambos de inspiração portuguesa, diferentemente da influência francesa dessas escolas ao sul do país. Na prosa convivem um Romantismo tardio, o Realismo e o Naturalismo, por vezes orientados para o Regionalismo.

Em 1894, a Padaria é reorganizada por Antonio Sales, e formalizada no texto Retrospecto, onde o autor avalia toda a produção do grupo até ali e inaugura uma segunda fase com a expulsão de alguns membros, que fundam o Centro Literário. Temístocles Machado, Tibúrcio de Freitas e Álvaro Martins, são excluídos do grupo por traição à Padaria, criticando-a duramente no Rio de Janeiro, motivo pelo qual mais adiante são ainda expulsos Adolfo Caminha e o recém-ingresso Eduardo Sabóia. Na segunda fase são admitidos dez membros, entre os quais, Antonio de Castro (1872 - 1935), Rodolfo Teófilo (1853 - 1932) e José Nava (1876 - 1911).

Tanto as atividades do grupo quanto O Pão tomam uma feição ligeiramente mais séria, mas ainda calcada no espírito de pilhéria, a partir da reorientação e da publicação do Retrospecto. O grupo e alguns de seus membros tem sua produção reconhecida em outras capitais, provocando admiração e repúdio, este, naturalmente, por sua posição anárquica, que, se não chega a ser abandonada, é suavizada. O Pão volta a ser publicado em janeiro de 1895 e chega ao fim no número 36, em 31 de outubro de 1896. O grupo, por sua vez, se encerra em dezembro de 1898.



Atualizado em 04/06/2007