lista alfabética
busca

 
       
 
 
  histórico
  cronologia
  fontes de pesquisa

    espetáculos

    sugestões

 

 
Enciclopédia Itaú Cultural de Teatro
Teatro de Cultura Popular (TCP)

Data/Local
1961 - Recife PE - Teatro Experimental de Cultura (TEC) - criação

1962 - Recife PE - Teatro Popular de Cultura (TCP) - nome definitivo

1964 - Recife PE - Teatro de Cultura Popular (TCP) - extinção

Histórico
Grupo de teatro criado pelo Movimento de Cultura Popular para dar sustentação ao projeto cultural e educacional do governo Miguel Arraes, em uma perspectiva de educação conscientizadora. Notabiliza-se na cena nacional não só por se originar de movimentos políticos, mas também por empreender uma abordagem da cultura popular como forma de aproximar o teatro das camadas operárias e campesinas.

Fundado em maio de 1960, o Movimento de Cultura Popular (MCP) é uma sociedade civil sem fins lucrativos, mantida pela prefeitura do Recife, entre 1960 e 1961, e, posteriormente, pelo governo do estado de Pernambuco, entre 1962 e 1964, nas gestões de Miguel Arraes. Os projetos desenvolvidos têm por objetivo elevar o nível cultural do povo e assim conscientizá-lo acerca das opressões que sofre. "Educar para a liberdade" é o lema que conduz suas atividades. A matriz desse pensamento advém do movimento intelectual francês Peuple et Culture, de Joffre Dumazidier.

A iniciativa conta com o apoio de parte significativa da intelectualidade e da classe artística pernambucana. Entre seus fundadores estão Germano Coelho, Ariano Suassuna, Hermilo Borba Filho, Abelardo da Hora, Anita Paes Barreto, Geninha Sá da Rosa Borges, Paulo Freire, Evaldo Coutinho, Francisco Brennand, Luiz Mendonça, Ilva Niño, e o próprio Miguel Arraes. No primeiro ano de atividade, recebe a denominação de Teatro Experimental de Cultura (TEC). Em 1962, para a estreia de Julgamento em Novo Sol, adota definitivamente o nome de Teatro de Cultura Popular (TCP).

A atuação do MCP inspira o Centro Popular de Cultura (CPC) no Rio de Janeiro. No entanto, os projetos políticos e culturais que incentivam os dois movimentos provêm de distintas concepções de cultura popular e politização das classes trabalhadoras. Enquanto o CPC busca a "politização" da classe operária, o MCP, inspirado na pedagogia de Paulo Freire, almeja a conscientização do povo. Além de influenciar grupos ideológicos, o TCP também possibilita, em Pernambuco, o surgimento de grupos pós-golpe de 1964, como o grupo Construção e o grupo Raiz.

O TCP se instala na própria sede do MCP, no bairro de Casa Amarela, no Recife, e cria dois espaços: o Teatro do Povo - uma arena e arquibancadas cobertas por uma lona, com capacidade para 500 pessoas - e a Concha Acústica Arraial do Bom Jesus, com capacidade para acomodar de 3 a 5 mil pessoas.

Para a inauguração do Teatro do Povo, em 1961, Mendonça apresenta Eles Não Usam Black-Tie, de Gianfrancesco Guarnieri. No entanto, o espetáculo não alcança o resultado esperado e os integrantes do grupo não conseguem compreender o motivo do desagrado. A Derradeira Ceia, de Luiz Marinho, com direção de Luiz Mendonça, estreia ainda em 1961, no Teatro do Povo. Apesar de reagir de maneira positiva a essa peça, que aborda a vida de Lampião, ao fim do espetáculo o público volta a fazer reclamações. O diretor e o elenco resolvem, assim, abrir debate com a plateia a fim de saber o motivo da insatisfação. Segundo Luiz Mendonça, até então, a plateia de Casa Amarela apenas conhecia "espetáculos de circo ou folguedos populares, feitos de cenas curtas e variadas, não se interessava nem conseguia acompanhar uma trama única, com exposição, desenvolvimento e conclusão [...] os espectadores reclamaram a falta do final alegre dos 'outros circos', onde 'baianas' e mágicos ou encerravam ou iniciavam o espetáculo, enfim o 'ato variado' (espécie de show com cantores, mágicos e palhaços)".1

Com A Derradeira Ceia, o grupo encerra, de certa maneira, uma primeira fase, em que se preocupa com o estabelecimento de um espaço de representação localizado próximo às camadas populares e de um repertório adequado ao público com o qual deseja se comunicar. O resultado, entretanto, ainda fica longe do satisfatório. Apesar de possuir casas de espetáculos e o apoio do governo, o grupo se sente perdido, sem saber ainda como lidar com o público. As respostas para essas primeiras dúvidas surgem de uma experiência com o Teatro de Arena de São Paulo, em que são realizadas apresentações do espetáculo Revolução na América do Sul, de Augusto Boal, com direção de José Renato. Boal realiza, no Recife, um Seminário de Dramaturgia com a presença de quase todos os autores pernambucanos. Nelson Xavier e Milton Gonçalves ministram uma oficina de interpretação para atores do grupo e jovens atores recifenses.

Em dezembro de 1961, o TCP estreia dois espetáculos natalinos que são importantes na trajetória do grupo, pois permitem que Mendonça se aproxime de manifestações folclóricas do ciclo de Natal, como o bumba meu boi, reisado, chegança, pastoril religioso etc. Folguedos que possibilitam eficiente comunicação com o público e apontam para Mendonça e o TCP os caminhos para a concretização de seu ideal de um teatro popular.

Julgamento em Novo Sol, de Augusto Boal, Hamilton Trevisan, Modesto Carone, Benedito Araújo e Nelson Xavier, estreia em maio de 1962. Xavier dirige a peça, escrita durante o Seminário de Dramaturgia, apresentando a história do primeiro sindicato de trabalhadores rurais do Brasil. Esse é um dos maiores sucessos do TCP, que conquista a estima não apenas da classe estudantil e de vários segmentos da intelectualidade recifense, mas também de proletários e camponeses do Recife e do interior de Pernambuco.

A partir desse espetáculo, o grupo começa a receber convites para apresentações em sindicatos e associações de bairro do Recife e passa a colaborar no projeto de alfabetização de Paulo Freire, elaborando esquetes que ilustram as aulas e as conferências do pedagogo. O grupo é dividido em quatro setores: 1) assume a responsabilidade pelos espetáculos no Teatro de Santa Isabel e pelas associações estudantis e sindicatos; 2) ocupa-se dos Centros Educativos Operários, que realizam espetáculos com e para as próprias comunidades; 3) leva espetáculos para a Zona da Mata Sul do Estado; e 4) atua na Zona da Mata Norte.

Também há um núcleo que desenvolve um teatro político de agitação e propaganda, cujo objetivo é denunciar a exploração do povo nordestino. Esse segmento do grupo atua nos comícios de Miguel Arraes apresentando esquetes que discutem fatos do momento. Nesse núcleo, o elemento estético perde importância, e ganha relevância apenas o conteúdo político. Um dos recursos mais utilizados pelo núcleo de agit-prop é um "teatro invisível".

O grupo encerra suas atividades por causa do golpe militar de 1964. Alguns de seus ex-integrantes continuam a carreira artística, como José Wilker, Ilva Niño e Luiz Mendonça, que migram para o Rio de Janeiro, ou como Marcus Siqueira, Joacir Castro e Leandro Filho, que permanecem em Pernambuco.

Notas
1. MENDONÇA, Luiz. Teatro é festa para o povo. Revista Civilização Brasileira - Caderno Especial n. 2, Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, p. 153, ano IV, jul. 1968.



Atualizado em 27/05/2010
 
 
Veja nas
Enciclopédias
 
  artes visuais - artistas
  Brennand, Francisco (1927)

 
  literatura - nomes
  Carone, Modesto (1937)
Suassuna, Ariano (1927)