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Enciclopédia Itaú Cultural de Teatro
As Lágrimas Amargas de Petra von Kant
2/ 8/ 1982 - Rio de Janeiro/RJ
Teatro dos Quatro

Histórico
A montagem do Teatro dos Quatro, com direção de Celso Nunes, vale a já consagrada atriz Fernanda Montenegro um dos maiores triunfos de sua carreira e marca a estréia do texto de Fassbinder em um espetáculo de grande êxito artístico.

A personagem Petra von Kant é uma figurinista de alta costura esmagada por sua paixão não correspondida por uma jovem de nível social e cultural inferior. Essa trama pode ser interpretada como metáfora do confronto entre a nova e a velha Alemanha. O texto tem, exclusivamente, personagens femininas: a mãe e a filha da protagonista, além de sua criada. Aliando delicadeza e sensibilidade na abordagem emocional da peça com um cuidadoso tratamento plástico, o diretor Celso Nunes valoriza a personagem de Marlene, a criada muda. Interpretada, soberbamente, pela bailarina e atriz Juliana Carneiro da Cunha, ela exprime os sentimentos que Petra recalca.

Considerando que o espetáculo proporciona ao público "revelação extraordinária", o crítico Sábato Magaldi observa que a platéia "se emociona, se subjuga, vive uma das experiências fundamentais de sua existência".1 Segundo o crítico, este fenômeno se deve à atriz Fernanda Montenegro e à encenação centrada em seu desempenho. O crítico Macksen Luiz descreve os matizes da interpretação da atriz, no intuito de mostrar que sua riqueza não permite enquadrá-la no tempo: "Nada mais contemporâneo do que seu domínio corporal. (Na cena em que Petra discute com a amante, a repulsa de um contato físico é sugerida com um leve, mas marcante, movimento de corpo para trás). Nada mais surpreendente do que os prodígios que consegue fazer com a sua voz. (No meio do choro e do desespero de Petra ao confessar a sua ligação homossexual à sua mãe e à sua filha projeta a voz com um gama de modulações que vai do sussurro ao grito). Nada mais vanguardista do que a forma como revela à platéia a sua técnica de trabalho. (Fernanda se prepara para a cena final à frente do público, saindo do mais denso desespero para um espelho, diante do qual se penteia, se veste e caminha até um divã. As mudanças de climas dramáticos se fazem de frente e sem truques para a platéia)".2

Além da técnica, o crítico observa a ética de trabalho da atriz, que não se isola em cena:

"Nos momentos mais densos, quando tem diante de si a atriz Renata Sorrah, Fernanda, visivelmente, troca sua emoção com a companheira de cena, numa integração que somente a humildade de se saber uma profissional de gabarito e consciente poderia gerar".3

Notas

1. MAGALDI, Sábato. Lágrimas amargas: encontro privilegiado com Fernanda. Jornal da Tarde, São Paulo, 13 abr 1984.

2. LUIZ, Macksen. Um monstro cada vez mais sagrado. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 4 ago. 1982. Caderno B, p. 3.

3. Ibid.



Atualizado em 31/03/2009