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Enciclopédia Itaú Cultural de Teatro
Galileu Galilei
14/ 12/ 1968 - São Paulo/SP
Teatro Oficina

Histórico

Montagem do prestigiado texto de Bertolt Brecht pelo Teatro Oficina, protagonizada por Cláudio Corrêa e Castro, marca o retorno do encenador José Celso Martinez Corrêa à valorização da razão e da palavra após as irreverentes e antropofágicas montagem de O Rei da Vela e Roda Viva. Paradoxalmente, a encenação de Galileu Galilei acirra as contradições internas do grupo, dividido entre os que se alinham com a idéia de um teatro político-social e os que desejam um teatro sensorial provocativo, baseado nos princípios de Artaud e da contracultura - tendências que ganham a adesão de José Celso e anunciam os caminhos imediatos do conjunto.

A primeira versão do texto foi escrita por Brecht em 1938, quando muitos acreditavam na irreversível vitória do fascismo na Alemanha. A expectativa de uma época bárbara era evidente e o autor se utilizou da trajetória de Galileu como pretexto para abordar os temas e questões que o afligiam.

A peça conta parte da biografia do astrônomo que, ao ser processado pela Santa Inquisição por negar a física aristotélica e afirmar que a Terra gira em torno do Sol, à simples visão dos instrumentos de tortura, abjura publicamente. Essa atitude, considerada covarde por muitos, permite que Galileu finalize seus estudos e escritos, comprovando suas teorias e legando-as às futuras gerações.

Quando a bomba atômica norte-americana destrói Hiroshima, encerrando uma guerra já terminada em solo europeu, Brecht repensa a responsabilidade dos cientistas. Altera, assim, todo o final da peça, modificando o significado inicial do texto, que tornava Galilei um herói, e passa então a condená-lo: sua traição certamente não é heroísmo, e sim subserviência à repressão.

Galileu Galilei é apontada como o testamento de Brecht. Por coincidência, ele morre no período de preparação do espetáculo que estava dirigindo com o Berliner Ensemble, sua companhia de trabalho. O texto estuda a responsabilidade do homem para consigo mesmo, para com sua obra e para com a sociedade. Coloca em xeque o herói, seu significado social, a discutível necessidade de sua existência numa sociedade sem liberdade. Defende o conhecimento crítico científico, acredita na razão como instrumento de luta contra a repressão, possui uma estrutura dialética e é fundamentado nos princípios marxistas.
José Celso também busca se aproveitar desse universo para refletir sobre o contemporâneo brasileiro. O ensaio geral realiza-se em 13 de dezembro de 1968, dia em que é decretado o Ato Institucional nº 5 - AI-5, medida que intensifica os mecanismos de repressão sobre os focos de resistência ao golpe militar.

O crítico Sábato Magaldi elogia entusiasticamente a realização: "Encenação soberba, a de Galileu, Galilei, cartaz do Teatro Oficina. José Celso M. Corrêa havia proclamado sua descrença na eficácia do teatro racionalista e nos dá um espetáculo prodigiosamente racional que é uma das mais nítidas provas do valor da razão. Mas afirmar que o diretor, por felicidade, é contraditório, apenas simplifica o problema sem ver-lhe as diversas coordenadas. A verdade é que José Celso M. Corrêa tem vivido no âmago de todas as fases do novo processo cultural brasileiro e as anima sempre com estímulos extremamente valiosos e criadores. Confesso que temia ver 'Galileu' transformado em festival tropicalista. Nada tenho contra estes festivais: somente ficariam deslocados nessa obra-prima de Brecht. José Celso assimilou a experiência do Rei da Vela e Roda Viva para encarar o monstro sagrado Brechtiano com uma audácia e uma liberdade inventiva que dizem bem tanto do encenador como do texto. Talvez se José Celso não tivesse ousado antes, se colocaria em face do 'Galileu' com reverência e timidez prejudiciais. A teatralidade pura e desinibida que veio conquistando garantiu à nova encenação uma grandeza e uma linguagem cênica admiráveis: Brecht, sem a cartilha brechtiana, sem efeitos de afastamento catalogados nos manuais. Uma maravilha, nunca um Brecht se fez entre nós tão isento de modismos brechtianos e nunca a palavra de Brecht me pareceu mais límpida e comunicativa. Um didatismo preciso, inteligente, másculo e poderoso".1

A descrição da abertura do espetáculo pela jornalista Teresa Cristina Rodrigues permite que visualizemos o espetáculo: "My name is Bertolt Brecht... a gravação de um depoimento do autor de Galileu Galilei continua, há luz na platéia, e os 22 atores da nova montagem do Teatro Oficina entram em cena. Vestem todos a roupa base: terno cinza, parecido com o de presidiários. O coro se divide rapidamente: alguns sobem por escadas às varandas laterais do palco e outros ficam diante da platéia. A voz de Brecht continua compassada, num disco americano de 1946. Um murmúrio surge lentamente e vai aumentando o tom. Torna-se angustiante. O espetáculo começa - a grade que fica no primeiro plano é levantada devagar. (A cortina está aberta). Tem início a peça mais discutida deste autor alemão, sob a direção de José Celso Martinez Corrêa - a figura mais polêmica e inventiva do teatro brasileiro. Numa produção caríssima, o espetáculo que tem 14 quadros em 2 atos, demora três horas e meia".2

O espetáculo de José Celso revela as contradições que começam a se acirrar entre o diretor e os antigos integrantes de seu grupo: dentro do conjunto do espetáculo, a cena do Carnaval de Florença assume uma dimensão inesperada, transformando-se num "ritual mágico-militarista" na feliz expressão de Fernando Peixoto.3 A direção, mesmo após a estréia, estimula o coro de jovens intérpretes a improvisações constantes, numa pesquisa de novas possíveis relações com o público, em paralelo às outras cenas, que seguem seu fluxo normal, relegadas a uma posição secundária.

Trata-se do primeiro passo em direção à busca de um teatro sensório-irracional, que explode na década seguinte, com Gracias, Señor.

Notas

1. MAGALDI, Sábato. Crítica do espetáculo Galileu, Galilei. São Paulo, Jornal da Tarde, 18 de dezembro de 1968.

2. RODRIGUES, Teresa Cristina. Galileu, Este Velho Subversivo. São Paulo, recorte de jornal sem referências.

3. PEIXOTO, Fernando: Teatro Oficina (58-82). São Paulo: Brasiliense, 1982.



Atualizado em 19/06/2008