Histórico
Com direção de José Renato, elenco de trinta atores e oito músicos, a montagem da comédia musical de Bertolt Brecht e Kurt Weill inaugura o Teatro Ruth Escobar, no fim de 1964, ano em que ocorre o golpe militar.
Em sua releitura paródica da Ópera dos Mendigos, de John Gay, Brecht conta a história do elegante anti-herói Mac Navalha, cercado de mendigos, ladrões, prostitutas e vigaristas. Com música ao vivo e um elenco selecionado também em função de suas habilidades vocais, a realização reforça os aspectos cômicos do texto e privilegia o burlesco em detrimento da ambigüidade de personagens e situações que, na dramaturgia brechtiana, resulta na abordagem crítica e dialética. Mac Navalha, interpretado por Oswaldo Loureiro, ganha um tom bonachão e perde seu caráter ameaçador.
O diretor faz uma série de modificações no original. O prólogo é substituído por uma apresentação de Mac Navalha em trajes sumários. A senhora Peachum, personagem secundária, ganha todas as canções importantes, em função da habilidade vocal da atriz que a interpreta, Leny Eversong.
Os cenários e figurinos de Flávio Império são o ponto forte da encenação. Materializam a miséria das personagens ao mesmo tempo que, fiéis às intenções do autor, primam pela teatralidade e pela crítica. O cenógrafo recorre a referências da época, colocando em cena, por exemplo, um grande retrato de Churchill com uma metralhadora na mão e o símbolo dos filmes da Metro.
Apesar de apontar diversas falhas técnicas - falta de acabamento, de nitidez de intenções, de interpretações marcantes - o crítico Yan Michalski ressalta o dinamismo da montagem e seu caráter de divertimento. Para Décio de Almeida Prado, "o espetáculo, em seu conjunto, é dos mais originais e audaciosos já apresentados em São Paulo. Ruth Escobar quis inaugurar o seu teatro com alguma coisa diferente, que marcasse época - e pode-se dizer que o conseguiu. A Ópera dos Três Vinténs é um dos clássicos da nossa época, seja pelo texto de Brecht, seja pela música de Kurt Weill (...) Escrita há trinta e seis anos, continua ainda hoje a figurar na vanguarda do teatro moderno".1
Nota
1 PRADO, Décio de Almeida. A Ópera dos Três Vinténs. O Estado de S. Paulo, São Paulo, 22 dez. 1964.
Atualizado em 28/05/2008