lista alfabética
busca

  histórico
  ficha técnica
  fontes de pesquisa

    sugestões

 

 
Enciclopédia Itaú Cultural de Teatro
  Na Selva das Cidades
1/ 9/ 1969 - São Paulo/SP
Teatro Oficina
   
 

Histórico

Última criação do Teatro Oficina em que atuam os principais integrantes do grupo. Baseada em texto de Bertolt Brecht, traz no próprio processo de elaboração a profunda crise que atravessa o país e a equipe artística.

1968 é um ano que arrasta o Brasil a um confronto com intensas contradições: a ditadura mostra-se cada vez mais repressiva, lançando o Ato Institucional nº 5; a luta armada há dois anos traz a violência para as principais capitais e São Paulo, semidestruída ao longo de quilômetros para as obras da via elevada que hoje a atravessa, era convulsionada pelas passeatas estudantis.

É nesse clima que o Oficina chega a 1969 e elege o texto de sua nova montagem: Na Selva das Cidades, de Bertolt Brecht. Ensaiado ao longo da temporada de Galileu Galilei, o novo projeto tem a ambição de conciliar contradições artísticas existentes no próprio grupo, entre os "representativos" (antigos fundadores e detentores dos rumos da equipe) e o "coro" (jovens oriundos de Roda Viva, sem voz nas decisões).

A encenação de José Celso Martinez Corrêa exige uma total remodelagem do espaço físico do Oficina, conduzida pela arquiteta, cenógrafa e figurinista Lina Bo Bardi. As cadeiras são retiradas e o palco giratório, desmontado, dando lugar a um espaço amplo, cujo centro é ocupado por um ringue de boxe. Nessa plataforma elevada ocorre a maioria das cenas. O diretor utiliza recursos dos métodos de Stanislavski e Grotowski para preparar o elenco, soma de procedimentos inspirados em Antonin Artaud, no expressionismo alemão e no psicodrama. Com tais técnicas, e robustecida pelas incessantes improvisações do elenco, a peça chega a ter cinco horas de duração no período de ensaios, motivando o desejo de encená-la em capítulos diários. Mas é compactada em cerca de três horas de espetáculo. A violência, tema do texto, atravessa toda a encenação. Razão pela qual, ao final de cada cena - denominada round - os adereços e elementos cenográficos em cima do ringue são estraçalhados pelos atores, ao grito de: quebra!!

O tema de Na Selva das Cidades é impiedoso: a peça é ambientada numa fictícia Chicago norte-americana, onde uma família de emigrados tenta sobreviver. O jovem Garga torna-se empregado de uma livraria e vai experimentar um insólito desafio: vender sua opinião para o poderoso malaio Schlink, controlador da prostituição e do tráfico. Isso abre a guerra entre os dois, que atravessa toda a trama. Das implicações metafísicas presentes nesse confronto até a mais cruenta sobrevivência nos mangues que cercam a cidade, onde ambos serão caçados pela polícia, a peça explora todas as etapas da desarticulação da família Garga. A irmã Maria, estuprada pelos capangas do malaio, se entrega à prostituição, caminho que também a namorada de Garga trilhará. Os pais, reduzidos quase a objetos, chafurdam no lixo à cata de comida. Renato Borghi vive Garga, e Othon Bastos, Schlink. Maria é interpretada por Ítala Nandi, enquanto Fernando Peixoto encarna um dos capangas, sendo os demais papéis distribuídos entre os elementos do "coro". A encenação cita cenas célebres de filmes e peças, transitando por um repertório de imagens poderosas; climas selvagens e poéticos adensados por recursos da mais alta expressividade, sons selecionados para provocarem o asco, a repulsa, e acompanhar a implacável destruição que corrói a alma e os corpos dessas criaturas cênicas. Uma faixa onde se lê "São Paulo, a cidade que se humaniza", pende do teto, criando a conexão com os fatos apresentados.

O encenador sabe extrair do texto de Bertolt Brecht infinitas correlações com a contracultura vigente, num espetáculo cujo acabamento cênico o coloca, entre as mais bem-sucedidas realizações do Oficina. O caótico quadro de uma Alemanha que sucumbe sob os escombros da República de Weimar ganha aqui a atualização de um país vitimado pelo autoritarismo da ditadura militar.

Segundo José Celso Martinez Corrêa, no texto do programa do espetáculo: "A Selva foi se tornando revelação. É o fim do 'barcovazio', dos 'sonhos errados', a catarse de tudo que nos seduziu, e nosso noviciado para entrarmos em outras, saindo de uma vez por todas de uma irritante e eterna qualidade de jovem grupo idealista e entrando em nosso tempo de guerra. É o fim definitivo de um certo tipo de teatro e um mergulho arqueológico no trabalho do Oficina: quebrar tudo, virar a mesa, espatifar as cucas e se preparar para destruir 10 anos de oficina que ameaça se transformar em instituição".1

O espetáculo chega a um nível de violência e desgaste físico tão grande que se torna impossível imaginar qual é o próximo passo depois dessa encenação quase suicida. Sobre essa entrega ilimitada do encenador, comenta o crítico Sábato Magaldi:

"[...] Contraditório ao escrever, precipitado em certas proposições teóricas, José Celso, ao montar um espetáculo, se põe a nu com uma inteireza moral que espanta o crítico. Agora que são comuns os alistamentos fáceis, José Celso se resolve, se pergunta, se martiriza, se oferece em holocausto. Pode-se não concordar com esta postura do espírito, à beira da demissão irracionalista, mas se tem de reconhecer que há nela uma entrega generosa de si mesmo, um apelo irrefreável para os vôos altos e os destinos superiores. [...] O espetáculo leva ao paroxismo o guinhol metafísico do jovem Brecht. A peça, caótica, hermética, réplica teatral da alucinação rimbaudiana num gênio que estava apenas nos seus 22 anos, se resolve numa multiplicidade de caminhos anunciando até o tão em voga teatro do absurdo. [...] Com poder ordenador e lógica cênica irrepreensível, José Celso conduz cada 'round' para a destruição de tudo, e móveis e objetos se vão amontoando, nas partes laterais do ringue (voltaram as duas platéias convergentes do Oficina), numa imagem de impressionante eloqüência".2

Apresentado em São Paulo e Rio de Janeiro, Na Selva das Cidades tem sua carreira interrompida em Belo Horizonte, com um significativo incidente. Na cena da curra, quando os capangas giram Ítala Nandi nua, ela é lançada a metros de distância sobre a platéia, sofrendo escoriações em todo o corpo. O incidente encerra a temporada e marca o aguçamento da crise de um elenco que já não pode mais contracenar. Na Selva das Cidades, limite entre a ficção e a realidade, faz o sangue do Oficina jorrar; sinal de que os rumos da equipe deveriam urgentemente ser repensados. Com a crise aberta, o grupo sofre profunda reorganização, cujos resultados e novos métodos de trabalho serão visíveis na montagem seguinte, Gracias, Señor, dois anos após.

Notas

1. CORREA, José Celso Martinez. Depoimento. In: NA SELVA das Cidades. São Paulo,  ago. 1969. Programa do espetáculo.

2. MAGALDI, Sábato: crítica de Na Selva das Cidades. Recorte sem referências, Jornal da Tarde, 1969.



Atualizado em 27/07/2009