Histórico
Espetáculo polêmico do Teatro Brasileiro de Comédia, no início dos anos 1950, põe em cena o texto de Jean-Paul Sartre.
A encenação de Adolfo Celi para o Teatro Brasileiro de Comédia - TBC, é realizada seis anos após sua estréia parisiense. O existencialismo - muito visível nesse texto do autor - ainda era pouco conhecido no Brasil, o que provoca algumas reações negativas à montagem.
Na peça, Garcin, Inês e Estela estão trancados em uma sala em estilo Segundo Império e entregues às suas angústias, são ocasionalmente visitados por um criado. As personagens amargarão por toda a eternidade sua mesquinha e covarde situação, donde resulta irremediável sofrimento. O inferno, nesta acepção sartriana, é o enclausuramento da situação, sem esperanças, o huis clos referido no título original.
No elenco estão Sergio Cardoso, Cacilda Becker (como Inês) e Nydia Licia (como Estela), secundados por Carlos Vergueiro no papel do criado. A montagem busca alguns efeitos não-realistas, através do jogo de iluminação e de considerações do criado, advertindo os espectadores de que naquele inferno não existem máquinas de tortura ou labaredas incessantes, mas que, igualmente, o sofrimento não terá fim.
Sergio e Cacilda merecem destaque por parte da crítica, assim como a cenografia, assinada por Bassano Vaccarini e Carlos Giacchieri.
A Censura interdita o espetáculo às vésperas da estréia, motivada pelas reclamações do Partido Comunista e da Igreja Católica, que expede uma nota impedindo os cristãos de a assistirem. A situação só se resolve após alguns debates com intelectuais, e a obtenção, pelos atores, de uma autorização expressa de seus confessores pessoais, para interpretarem os insólitos papéis.
Na visão do crítico Décio de Almeida Prado "é evidente que tal interpretação, marcada pela personalidade fortíssima de Adolfo Celi, possui vantagens e desvantagens. Cria uma visão do inferno menos original que a de Sartre, com gemidos e imprecações, e não assinala com tanta nitidez o crescendo da ação dramática: o inferno e a psicologia das personagens nos são dados inicialmente, não sendo atingidos por revelações e aprofundamentos sucessivos. De outro lado, confere ao espetáculo a máxima intensidade física, fazendo o público sentir na própria carne o que lhe seria talvez difícil alcançar pela inteligência. Em seus melhores momentos, a representação de Entre Quatro Paredes (Huis Clos) atinge uma impiedade, um furor que não estão longe de lembrar (...) um outro inferno, o de Baudelaire".1
Notas
1. PRADO, Décio de Almeida. 'Entre Quatro Paredes'. In: ______. Teatro brasileiro moderno. São Paulo: Perspectiva, 1996. p. 246.
Atualizado em 15/07/2008