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Enciclopédia Itaú Cultural de Teatro
Cinderela, a História que Sua Mãe Não Contou
20/ 9/ 1991 - Recife/PE
Teatro Valdemar de Oliveira

Histórico
Cinderela, a História que Sua Mãe Não Contou é o espetáculo teatral mais visto no Recife nos anos 1990. Um fenômeno de comunicação logo absorvido pelos mass media pernambucanos: o personagem central dessa paródia, vivido pelo ator Jeison Wallace, torna-se uma das figuras mais populares da rádio e televisão locais. Essa aceitação midiática termina inserindo todo um universo marginal, associado à figura do travesti, no imaginário da indústria cultural recifense.

A peça, que dá origem ao prolífico grupo Trupe do Barulho, concebida com base no esquete cômico Cinderela, a Bicha Borralheira, escrito, em 1985, por Henrique Celibi, ex-integrante do transgressor Grupo de Teatro Vivencial. Feito para ser apresentado em boates direcionadas ao público gay, esse texto conta a história de Cinderela, um travesti negro, semianalfabeto, que trabalha como empregada doméstica em uma casa da periferia recifense. O enredo guarda semelhanças com a fábula infantil homônima. Mas, na peça, calcada no escracho e no deboche, a madrasta e as duas irmãs malvadas também são travestis; em vez de uma fada madrinha, uma "fada macumba"; o príncipe, em vez de belo e viril, é feio e exageradamente afeminado. O baile, na verdade, é um concurso de dublagem para transformistas.

A rigor, como manda a tradição da comédia popular, o texto de Henrique Celibi serve apenas como um roteiro a partir do qual os atores improvisam com muita liberdade, modificando o espetáculo a cada apresentação. Antes da peça propriamente dita, há um longo prólogo, espécie de ato variado, com piadas, músicas e brincadeiras com a plateia. Durante toda a apresentação, a linguagem é chula e politicamente incorreta. Diversos clichês preconceituosos em relação a raça, gênero, religião e classe social são desfechados a cada fala, a cada gesto. Temas escatológicos são recorrentes. Vez por outra, pode aparecer alguma intenção de crítica social, ou alguma piada de cunho político. A cena é kitsch e hiperteatral. As interpretações, caricaturais.

O espetáculo vive, sobretudo, do virtuosismo cômico de alguns membros do elenco, em especial Edílson Rygaard, mas também Jeison Wallace. O humor se constrói, em alguma medida, com base em um ambíguo jogo de identificação entre o conteúdo da peça e a realidade de vida dos atores. Assim, a montagem oferece ao público certo conforto psicológico, ao pôr em cena personagens que, de tão acentuadamente grotescos, parecem assegurar ao espectador a certeza de que ele é diferente daquilo que o faz gargalhar.

Sobre o espetáculo, em 1998, o professor Marco Camarotti diz: "Não consigo encontrar paralelo, acho que Cinderela é um fenômeno único. Todo mundo, inclusive o próprio grupo [Trupe do Barulho] tenta repetir a fórmula, mas não consegue. Acredito que, além da qualidade do trabalho de ator e da extraordinária interatividade com a platéia, a grande força da peça está no próprio mito de Cinderela. Na Europa, existem inúmeras versões desse mito, algumas delas de muita violência e crueldade. [...] Acredito que, ao associar a força desse mito à problemática do travesti suburbano, a questão ganhou uma dimensão ainda maior".1

No decorrer de mais de oito anos em que se mantém em cartaz, a peça é apresentada em diversas outras cidades, dentro e fora de Pernambuco. Em algumas capitais nordestinas, sobretudo em João Pessoa, Natal e Maceió, a montagem obtém receptividade semelhante àquela alcançada no Recife. Fora da Região Nordeste, é vista, talvez com menor entusiasmo, no Rio de Janeiro, em Santos, em Brasília e em São Paulo. Nessas praças, o espetáculo é comparado ao trabalho da Cia. Baiana de Patifaria que, anos antes, tem sucesso de público com a peça A Bofetada.2

Para a cena cultural do Recife, Cinderela, a História que Sua Mãe Não Contou desperta especial interesse por significar um desdobramento, em escala massiva, de certos aspectos da estética experimentada pelo Grupo de Teatro Vivencial. Sobre essa ligação entre o Vivencial dos anos 1970 e 1980 e a Cinderela dos anos 1990, o poeta e filósofo Jomard Muniz de Britto, intelectual ligado ao Vivencial, afirma: "Cinderela une as famílias. O Vivencial era uma violentação. [...] Pronto: poderia dizer, inspirando-me no filme Blade Runner, que Cinderela é o replicante do Vivencial".3

Notas

1. CAMAROTTI, Marco. In: REIS, Luís Augusto. Cinderela - a história de um sucesso teatral no Recife dos anos 90. Recife: Comunigraf, 2002. p. 219-220

2. FISCHER, Lionel. In: REIS, Luís Augusto. Cinderela - a história de um sucesso teatral no Recife dos anos 90. Tribuna da Imprensa, Recife: Comunigraf, 2002. p. 109.

3. BRITTO, Jomard Muniz de. In: REIS, Luís Augusto. Cinderela - a história de um sucesso teatral no Recife dos anos 90. Recife: Comunigraf. 2002. p. 219.



Atualizado em 29/05/2009