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Enciclopédia Itaú Cultural de Teatro
Paixão de Cristo
1968 - Brejo da Madre de Deus/PE
Histórico
A Paixão de Cristo, de Nova Jerusalém, Pernambuco, é apresentada, todos os anos, na Semana Santa, atraindo dezenas de milhares de espectadores. Valendo-se de um realismo grandiloquente, nos moldes dos épicos hollywoodianos, as últimas horas da vida de Jesus são encenadas em dez palcos-cenários, construídos em área de 70 mil metros quadrados, cercada por uma muralha de pedra de 3 metros de altura. Entre atores, figurantes e técnicos, a realização desse espetáculo envolve, a cada temporada, mais de 500 pessoas.

Inaugurada em 1968, a cidade-teatro de Nova Jerusalém dá caráter profissional a uma Paixão de Cristo encenada nas ruas de Fazenda Nova desde 1951. Idealizada pelo comerciante e líder político local Epaminondas Mendonça, essa representação relembra, no início, a tradição medieval das encenações religiosas: não há atores profissionais, todos os personagens são vividos por moradores da região. A um dos filhos de seu Epaminondas, Luiz Mendonça, cabe a tarefa de interpretar Jesus - papel que desempenha até 1968. É ele, também, em parceria com o radialista Osíris Caldas, quem escreve o primeiro texto da peça, intitulado Drama do Calvário. Além disso, até a chegada de Clênio Wanderley, em 1956, Luiz Mendonça exerce também a função de "diretor" do espetáculo.

Em seu livro Teatro Moderno em Pernambuco, publicado em 1966, o crítico Joel Pontes afirma que, nos primeiros anos, dois aspectos garantem o sucesso da Paixão de Cristo de Fazenda Nova: o fervor religioso dos participantes e a integração teatro-natureza.1 Nessa época, mais especificamente desde 1962, as apresentações são suspensas por conta da construção da cidade-teatro, projeto concebido e realizado pelo gaúcho Plínio Pacheco, marido de Diva, filha mais nova de seu Epaminondas. É de Plínio, também, o texto Jesus, usado no espetáculo desde a inauguração da Nova Jerusalém, em 1968. Apesar de não ser dramaturgo, ele cria cenas eficientes, aliando requinte nos diálogos e rigor na pesquisa bíblica.

Se anteriormente Joel Pontes aponta a importância da paisagem local no resultado estético da representação, com o advento da cidade-teatro, inspirada na Jerusalém do tempo de Cristo, as semelhanças entre a geografia do agreste pernambucano e as paisagens da Judeia parecem se tornar mais perceptíveis. De fato, nesse espetáculo, com seus cenários emoldurados por ermas colinas acinzentadas, a geografia faz-se também protagonista. Além disso, o deslocamento imposto à grande maioria dos espectadores, que vêm de outras cidades para assistir à representação, sugere certo sentimento de peregrinação, de sacrifício, que contribui para singularizar essa Paixão de Cristo, em meio a tantas outras que existem no Brasil. Ao longo da apresentação, que tem quase três horas de duração, o caráter de romaria é reforçado: a multidão caminha, de um cenário a outro, acompanhando a ação.

Com o aumento de público, logo nos primeiros anos da cidade-teatro, muitos espectadores já não conseguem escutar os atores. Em 1972, tenta-se, sem êxito, o uso de microfones. Um ano depois, após longo debate, José Pimentel, desde 1969 na direção da montagem, decide implantar o recurso da dublagem, que se torna outra marca distintiva do espetáculo. Com a segurança da trilha gravada, plateias maiores, às vezes com mais de 10 mil pagantes, podem assistir a cada apresentação. Com o passar dos anos, a trilha sonora vai se tornando mais popular, com a utilização de canções de Roberto Carlos e Chico Buarque, ao passo que efeitos especiais, como o uso de raio laser, por exemplo, agregam mais espetaculosidade à montagem.

Além de dirigir, em 1978, José Pimentel passa a protagonizar a peça. Dezoito anos depois, por não concordar com a pressão dos patrocinadores para que outro ator fosse escalado para o papel principal, Pimentel deixa a Paixão de Cristo. Em 1997, o ator Carlos Reis, que interpreta o papel de Jesus entre 1969 e 1977, assume a direção artística do espetáculo, em parceria com Lúcio Lombardi. Com eles, o espetáculo ganha uma iluminação mais sóbria e uma trilha musical mais solene. Suprimem o raio laser, mas outros efeitos especiais são introduzidos. Como nas encenações dos mistérios medievais, quadros vivos e truques de maquinaria cênica adicionam encantamento ao espetáculo.

Ainda na primeira metade da década de 1970, como forma de ampliar a divulgação da peça em outras regiões do Brasil, a produção passa a convidar artistas famosos, do eixo Rio-São Paulo, para integrar o elenco. A partir de 1997, essa estratégia se intensifica e estrelas das telenovelas da Rede Globo passam a interpretar papéis de destaque na peça.

Em 1977, a BBC de Londres produz um documentário sobre o espetáculo, intitulado Passion of Pernambuco. O filme tenta compreender como uma realização desse porte existe em uma região marcada por uma "pobreza antiga e entediante, onde as pessoas clamam aos céus pelas mais corriqueiras necessidades". Para os jornalistas britânicos, uma possível explicação para a longevidade dessa Paixão de Cristo reside, antes de tudo, em seu poder de despertar nas pessoas, atores e espectadores, o sentimento de que estão "fazendo parte de um grandioso ato de criação".2

Notas

1. PONTES, Joel. O teatro moderno em Pernambuco. 2ª ed. Prefácio de Luiz Maurício Carvalheira. Recife: Fundarpe, 1990 [1966]. 

2. Transcrição de trecho do documentário Passion of Pernambuco, dirigido por Robert Saunders, texto de Patrick O'Donovan. Filme realizado pela BBC de Londres, em 1977, dentro da série The world about us. Tradução de Luís Augusto Reis.



Atualizado em 29/05/2009