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Enciclopédia Itaú Cultural de Teatro
Gullar, Ferreira (1930)

Biografia
José Ribamar Ferreira (São Luís MA 1930). Poeta, crítico de arte, jornalista, escritor, dramaturgo e tradutor. Autor de uma sólida obra dedicada à poesia e às artes visuais, tem papel de destaque durante os anos 1960, por seu engajamento político-cultural. Em conjunto com artistas e intelectuais, funda o Grupo Opinião, no qual se dedica à dramaturgia produzindo textos, em coautoria, que tratam de temas que refletem o movimento de resistência do teatro contra a ditadura.

Publica, em 1949, com recursos próprios, seu primeiro livro de poesia Um Pouco Acima do Chão. No ano seguinte, vence, com o poema O Galo um concurso promovido pelo Jornal de Letras, do Rio de Janeiro. Em 1951, Gullar muda-se para a cidade do Rio de Janeiro.

Trabalha como revisor em diversos jornais e revistas cariocas. Participa ativamente da primeira fase do concretismo, até 1957. Dois anos depois, escreve o Manifesto Neoconcreto, publicado no Jornal do Brasil, que representa um ponto de ruptura na arte moderna brasileira.

A partir de 1961, revê o experimentalismo que até então marca a sua obra e volta-se para o movimento de cultura popular. Em 1962, Oduvaldo Vianna Filho, vindo de uma experiência de teatro político desenvolvida pelo Teatro de Arena de São Paulo, convida Gullar a participar do Centro Popular de Cultura da União Nacional dos Estudantes - CPC, no Rio de Janeiro. A meta do grupo é montar uma dinâmica de atividades de agit-prop como introdução para pequenos esquetes a serem representados em comícios e manifestações de rua. Ferreira Gullar escreve os primeiros versos de João Boa-Morte, Cabra Marcado pra Morrer, poema que deve servir de base para um texto teatral sobre a reforma agrária. A peça não sai do papel, mas é publicada em forma de cordel, fato revelador do novo espírito literário de engajamento do poeta. Em 1963, é eleito presidente do CPC, desmantelado pelo golpe militar de 1964. Seus remanescentes, entre eles Gullar, fundam o Grupo Opinião, em dezembro do mesmo ano.

Se Correr o Bicho Pega, Se Ficar o Bicho Come é a primeira peça escrita por Gullar, em parceria com Oduvaldo Viana Filho. No Rio de Janeiro, estréia no Teatro de Arena do shopping center da rua Siqueira Campos, em 1966, sob a direção de Gianni Ratto. Os autores são premiados com o Molière e o Saci. Alberto D'Aversa, crítico do Diário de S. Paulo, observa: "A peça tem a virtude de ser em versos. Há anos estamos falando sobre a necessidade de usar novamente o verso no teatro para um tipo determinado de repertório".1 No ano seguinte, o Opinião encena A Saída? Onde Fica a Saída?, com direção de João das Neves e texto de Armando Costa, Antônio Carlos Fontoura e Gullar.

Dr. Getúlio, Sua Vida e Sua Glória, peça escrita em colaboração com Dias Gomes (1923 - 1999), tem a forma de enredo de escola de samba. A estreia, dirigida por José Renato, ocorre, em 1968, em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, estado natal do presidente Getúlio Vargas. O espetáculo faz temporada nos teatros João Caetano e Opinião, no Rio de Janeiro.

Vargas é representado nos ensaios da escola para o desfile, pelo personagem Simpatia, que enfrenta uma disputa de poder semelhante à vivenciada pelo ditador. Em 1983, uma nova versão, intitulada Vargas, entra em cartaz dirigida por Flávio Rangel.

Em dezembro de 1968, com a assinatura do Ato Institucional nº 5 (AI-5), Gullar é preso. Em 1969, João das Neves dirige Antígona, de Sófocles, com tradução de Gullar. Depois dessa encenação o Grupo Opinião deixa de existir como coletivo de artistas. Em depoimento, Gullar fala da importância do grupo na sua formação como dramaturgo:  "Até 1962, quando me integrei no CPC da UNE, minha experiência teatral era apenas a de espectador e leitor. E foi no Grupo Opinião, de 1964 a 1969, que passei a viver o teatro, a participar de uma maneira ou de outra de todas as etapas da realização teatral: da eleição do tema, da elaboração do roteiro e do texto, da discussão da obra, da escolha do elenco, da observação dos ensaios e da aflição da estreia. E também dos êxitos e dos fracassos. Foi uma experiência muito rica, de trabalho de equipe, que me ensinou o pouco que sei dessa arte difícil e cheia de surpresas".2

Brasil & Cia., de Armando Costa, Ferreira Gullar, Oduvaldo Vianna Filho e Paulo Pontes, é um show apresentado por Paulo Autran, em 1970, com direção de Flávio Rangel, no Teatro da Lagoa. A crítica elogia o humor fino e a inteligência dos autores no trato com a comicidade. Após um longo período na clandestinidade, Gullar vai para o exílio, em 1971. Dentro da Noite Veloz, livro de poemas lançado no Brasil, em 1975, ganha montagem do grupo de teatro Em-Cena-Ação, realizada na Casa do Estudante Universitário, no Rio, em 1978, com direção de Mario Prieto. Durante a permanência de Gullar no exterior, sua tradução para Ubu Rei, de Alfred Jarry, é utilizada em três montagens, nos anos 1970, mas sempre com muitas alterações, sem seu nome creditado e sem pagamento.

Considerado sua obra-prima, Poema Sujo é editado pela Civilização Brasileira, em 1976, durante o período em que permanece fora do Brasil, que tem fim em março de 1977. Preso no dia seguinte pelo Departamento de Polícia Política e Social, é solto após 72 horas de interrogatório e ameaças, graças à intervenção de amigos junto às autoridades militares.

Com a direção de Bibi Ferreira, é encenada, em 1979, no Teatro Casa Grande, Um Rubi no Umbigo, primeira peça que Gullar escreve sem parceria. O texto conta como uma "pedra preciosa incrustada, desde a primeira infância, no umbigo de um jovem transforma-se na tábua de salvação financeira do portador e sua família, mas também no alvo da cobiça de todos os que estão a sua volta".3 No programa da peça, Gullar arrisca algumas palavras sobre o ofício de dramaturgo: "Só em 1970, desfeito o Grupo Opinião, aventurei-me a escrever a peça que agora é apresentada ao público. Foi um parto difícil, e especialmente porque não queria fazer uma peça de 'poeta'. Tinha compreendido, nesses anos, que a linguagem tem no teatro uma função diferente da que tem na poesia ou no romance: ela deve nascer da ação dramática e ser veículo dela, integrada como carne e músculo no esqueleto da peça. Se o consegui, não sei, mas fiz o que pude para consegui-lo".4

Hugo Xavier dirige Poema Sujo, na Sala Sidney Miller, em 1980, representada pelos atores Esther Góes e Rubens Corrêa, com música de Milton Nascimento e direção musical de Wagner Tiso. A montagem recebe o comentário do crítico Yan Michalski: "O resultado vale como uma tentativa digna e corajosa, mas que na verdade pouco contribuiu para ampliar e aprofundar o prazer e o enriquecimento que Poema Sujo me proporcionou quando li sozinho em casa".5 

Cyrano de Bergerac, de Edmond Rostand, encenação produzida pela Companhia Estável de Repertório - CER, em 1985, com direção de Flavio Rangel, com Antonio Fagundes no papel principal, utiliza a tradução livre de Gullar, premiado com um Molière. Em 1988, a montagem de Crime na Flora, uma adaptação do livro homônimo de Ferreira Gullar pelo Grupo Experimental Alkathéa, dirigida por Arlindo Porto Nunes, em Belo Horizonte, revela a teatralidade de sua prosa poética. O espetáculo O País dos Elefantes, de Louis Charles Sirjacq, dirigida por Alain Milianti, é uma peça sobre a inconfidência mineira traduzida por Gullar. O espetáculo tem apenas algumas apresentações oficiais no Brasil e no Festival de Avignon, em 1989, com produção da Companhia Estável de Repertório - CER em conjunto com a Association Française D'Action Artístique - Afaa.

Nomeado presidente do Instituto Brasileiro de Arte e Cultura - Ibac, em 1992, o poeta devolve à instituição seu antigo nome, Fundação Nacional de Arte - Funarte, e permanece no cargo até 1995. É homenageado, em 2000, por seu aniversário, com a exposição Ferreira Gullar 70 Anos, realizada no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro - MAM/RJ. Ganha o Prêmio Jabuti, em 2007, pelo livro Resmungos. Em 2010, recebe o Prêmio Camões, conferido pelos governos de Portugal e do Brasil.

Entre suas inúmeras atividades profissionais, Ferreira Gullar, com seu talento múltiplo e diversificado, também trabalha na narração de filmes, escreve livros infantis, telenovelas e minisséries para a televisão. Antonio Carlos Secchin descreve o estado de mutação permanente do poeta: "Ferreira Gullar nunca se deixou aprisionar em determinado estilo poético, sempre surpreendendo seus leitores em sucessivas metamorfoses".6

Notas
1.
D'AVERSA, Alberto. Triunfa o jogo do bicho no Galpão. Diário de S. Paulo, São Paulo, 2 out. 1966.

2. GULLAR, Ferreira. Considerações em torno de Um rubi no umbigo. 1 folder. Programa do espetáculo, apresentado no Teatro Casa Grande, Rio de Janeiro, 1979.

3. MICHALSKI, Yan. No meio da barriga havia uma pedra. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 26 abr. 1979.

4. GULLAR, Ferreira. Considerações em torno de Um rubi no umbigo. 1 folder. Programa do espetáculo, apresentado no Teatro Casa Grande, Rio de Janeiro, 1979.

5. MICHALSKI, Yan. Duas vezes teatro e poesia. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 12 ago. 1980.

6. SECCHIN, Antonio Carlos. Mutação permanente. Rascunho: o jornal de literatura do Brasil, Curitiba, 18 nov. 2008. Seção Críticas e Resenhas. Disponível em: {http://rascunho.rpc.com.br}. Acesso em: 19jan 2009.



Atualizado em 31/05/2010
 
 
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