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Enciclopédia Itaú Cultural de Teatro
Vianna, Márcio (1949 - 1996)

Biografia

Márcio Vianna Correia (Parnaíba PI 1949 - Rio de Janeiro RJ 1996). Diretor. Idealizando seus próprios roteiros, compostos de fragmentos, Márcio Vianna tem uma carreira breve, desenvolvida ao longo dos anos 90, que se destaca pela pesquisa de linguagem em torno da fruição do ato teatral.

Com uma profissão estabelecida como advogado na IBM do Brasil e a atividade amadora de fotógrafo, Vianna ingressa no teatro aos 40 anos para realizar trabalhos experimentais, muitas vezes produzidos com recursos próprios. O primeiro espetáculo, Marat, Marat!, 1989, cria uma ficção em torno do assassinato de Jean-Paul Marat, líder da revolução francesa. No reduzidíssimo palco da Aliança Francesa de Botafogo, raramente usado para este fim por possuir apenas dois metros de profundidade, sem coxias, Márcio Vianna monta um espetáculo com seis atores, máscaras e um cenário feito de módulos que giram. O "milagre estético", como chama o crítico Armindo Blanco, lhe vale o Prêmio Molière. Em 1990, estréia Vincent, roteiro de Márcio Vianna. Mais uma vez o cenário é um dos pontos fortes: em um tablado colocado sobre molas de carro, os atores encenam episódios da vida pessoal de Van Gogh. No mesmo ano, o diretor faz sua primeira experiência radical: em Confessional, limita em 13 o número de espectadores e isola cada um em uma cabine que lembra um confessionário, onde as personagens segredam seus textos. No centro da sala há uma área usada para algumas cenas que são vistas por todos. O tema tratado é novamente a estranheza e a rejeição provocada pela arte de Van Gogh em seu tempo.

Em 1991, Márcio Vianna realiza uma série de experiências em lugares distintos com o nome de A Farra dos Atores, que consiste em um espetáculo que se representa como um fluxo ininterrupto de ações desconexas durante dez horas. A área cênica é como um corredor onde os atores entram para realizar cenas independentes e rápidas, dando lugar a outros atores. Às vezes as ações têm continuidade em uma cena futura, outras vezes não. Em 1992, realiza três espetáculos: Circo da Solidão, em que cobre o palco de barro para falar da criação, Imaginária, em que a cena se desenrola totalmente no escuro; e O Livro dos Cegos, em que dá prosseguimento à experiência da audição no teatro - todos sem uma dramaturgia, com roteiros elaborados pelo próprio diretor. Em 1993, ocupa por três meses o Teatro Gláucio Gill, onde encena seu espetáculo mais acabado e em bases mais tradicionais. Com textos que Louis Althousser escreveu durante os últimos anos de vida em um manicômio, Vianna monta o roteiro de O Futuro Dura Muito Tempo, protagonizado por Rubens Corrêa, ao lado de Vanda Lacerda, que interpreta a mulher do filósofo, por ele assassinada. Em um imenso caixote de areia, Louis Althousser remexe e desenterra suas lembranças e delírios. Quando o público entra, ele já está empenhado nessa tarefa, e é no seu decurso que desenterra Hélène para dividir com ela seu mergulho no tempo. O espetáculo arrebata vários prêmios Shell: melhor direção para Márcio, melhor ator para Rubens Corrêa, melhor cenografia para Teca Fishinski e melhor iluminação para Paulo César Medeiros - os dois últimos, parceiros constantes de trabalho do diretor. Na temporada paulista, o crítico Jefferson Del Rios escreve: "A escolha resultou no belo e estranho espetáculo de Márcio Vianna, um verdadeiro inventor de climas e imagens. Trabalho de gradual envolvimento com luzes, sombras e interpretações que sugerem memória, lucidez e alucinação. O resultado plástico da iluminação e do cenário trazem à linguagem do palco algo do cinema de Bergman ou Herzog a serviço de um elenco poderoso".1

No mesmo teatro, encena 1999, com jovens atores. Em A Alma Quando Sonha É Teatro, 1994, aborda o universo dos atores esquecidos pelo público. Seguem-se, em 1995, Meu Pai Voa, e Ambulâncias na Contra-Mão, coletânea de poemas de poetisas brasileiras, material-tema que se repete no mesmo ano em O Último Bolero. Em 1996, está dirigindo Beatriz Segall em O Lado Fatal, adaptação dos poemas de Lya Luft, quando falece, vítima de um tumor cerebral. O crítico Lionel Fischer avalia seu trabalho depois de sua morte: "Márcio Vianna (...), entre outras virtudes, teve a de jamais duvidar de que o palco era o local ideal para o homem se confrontar com suas questões mais relevantes. Por muitos encarado como um idealista cujos sonhos não teriam lugar no mercado, para mim Márcio Vianna foi alguém que, por vontade própria, se colocou numa espécie de deserto sempre em busca de novos caminhos. E se estes não chegaram a ser apontados com inquestionável clareza, pouco importa: as pistas traçadas são visíveis. E podem ser seguidas e investigadas. Ao menos por aqueles que, a exemplo de Vianna, se recusam a converter o teatro em fútil arena (...)" 2

Notas

1.  RIOS, Jefferson del. Peça sobre Althusser vê loucura sem cair no óbvio. O Estado de S. Paulo, São Paulo, 21 jan. 1994.

2. FISCHER, Lionel. Obrigado por tudo, Márcio. Sated, Rio de Janeiro, ano 1, n. 5, p. 3, 1996.



Atualizado em 09/06/2010
 
 
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  literatura - nomes
  Luft, Lya (1938)