lista alfabética
busca

 
       
 
 
  biografia
cronologia
fontes de pesquisa

    espetáculos

    sugestões

 

 
Enciclopédia Itaú Cultural de Teatro
Alabarse, Luciano (1953)

Biografia
Luciano Alabarse (Porto Alegre RS 1953). Diretor. Atua desde os anos 1970 em Porto Alegre, onde encena  textos de autores de projeção nacional e internacional. Trabalha sem vinculação restrita a um grupo de teatro, apesar de manter uma equipe constante de colaboradores em seus espetáculos.

Gradua-se em 1974 na Universidade Federal do Rio Grande do Sul - UFRGS, no curso de licenciatura em artes cênicas, mas não exerce a profissão de professor. A opção pela graduação na área de teatro se dá a partir do erro no preenchimento do formulário de inscrição no vestibular, mas, após a primeira aula com o professor Luiz Paulo Vasconcellos, descobre que seu lugar é o teatro.

Depois de formado, Alabarse encena profissionalmente O Canto do Cisne, de Anton Tchekhov, O Beijo no Asfalto, de Nelson Rodrigues, em 1976; e, no ano seguinte, Antes do Café, de Eugene O'Neill. Aproxima-se do Teatro de Arena de Porto Alegre - Tapa, e dirige vários espetáculos, entre eles Mumu, a Vaca Metafísica, de Marcílio Morais, em 1977. No mesmo ano é criado o Grêmio Dramático Açores, que tem Alabarse como um de seus fundadores. No Açores, grupo de teatro amador vinculado ao Teatro de Arena, dirige espetáculos como Os Dragões do 31º Dia, de Luiz Emediato, O Evangelho Segundo Zebedeu, de César Vieira, e A Lata de Lixo da História, de Roberto Schwarz, este é considerado o primeiro espetáculo do ator e diretor gaúcho Gilberto Gawronski, atualmente radicado no Rio de Janeiro. Em 1980, Alabarse dirige Os Filhos de Kennedy, de Robert Patrick, último espetáculo encenado no Arena antes de seu fechamento,  por um longo período, até ser assumido pelo governo do Estado do Rio Grande do Sul, já sem a participação de seus fundadores.

A partir da década de 1980, Alabarse diversifica sua produção artística e dirige, além de espetáculos teatrais, diversos shows musicais de artistas como Adriana Calcanhoto, Muni, Nelson Coelho de Castro, Fernando Ribeiro e Vocal Mandrialis. Nessa época, cria o grupo de teatro Descascando o Abacaxi, que monta os espetáculos Esta É a Sua Vida, de Carlos Carvalho, criado com base em improvisações do elenco, coordenadas por Alabarse e depois fixadas em texto pelo dramaturgo; Doce Vampiro, de Carlos Carvalho; e Pode Ser que Seja Só o Leiteiro Lá Fora, do escritor gaúcho Caio Fernando Abreu, espetáculo que marca a primeira parceria cênica de Abreu e Alabarse. Por esta montagem, Alabarse recebe seu primeiro Troféu Açorianos de Melhor Diretor, concedido anualmente pela Coordenação de Artes Cênicas da Secretaria Municipal de Cultura de Porto Alegre.

A parceira com Abreu, de quem é um grande amigo, estende-se a outros trabalhos teatrais. Em 1984, dirige Reunião de Família, adaptação para o teatro, feita por Abreu, do romance de Lya Luft. No ano seguinte, leva aos palcos Morangos Mofados, baseado no livro de contos homônimo do escritor gaúcho, que traz para a cena uma geração de atores em início de carreira.

Ainda na década de 1980, volta a encenar Nelson Rodrigues, com Senhora dos Afogados, uma de suas peças preferidas. Dirige também O Balcão, de Jean Genet, e, de Naum Alves de Souza, Um Beijo, um Abraço, um Aperto de Mão. Inimigos de Classe, Essência de Macaco e Ensina-me a Viver, encenada apenas em São Paulo, completam essa fase.

Em 1991, Alabarse assume a Coordenação de Artes Cênicas da Secretaria Municipal da Cultura de Porto Alegre, em que permanece até 1994, sendo responsável por inúmeros projetos que movimentam a cena porto-alegrense. Entre suas iniciativas, estão a criação do projeto Novas Caras, em que artistas iniciantes têm a oportunidade de mostrar seu trabalho nos teatros municipais, e a Sessão Maldita, realizada no porão do Teatro Renascença, que semanalmente, à meia-noite, apresenta espetáculos de caráter experimental.

Paralela à função pública, Alabarse desenvolve a carreira artística, sendo dessa época o espetáculo A História do Soldado, baseado em Igor Stravinsky. O encenador associa-se à Orquestra Sinfônica de Porto Alegre para narrar a história de um soldado que, ao voltar da guerra, é acossado pelo Diabo, que quer roubar-lhe um violino e, consequentemente, a alma. A música ao vivo, executada pela orquestra, marca a primeira montagem gaúcha da célebre obra.

Hotel Atlântico, adaptado do romance homônimo de João Gilberto Noll pelo próprio diretor, espetáculo de 1992, vale-se da estética cinematográfica, já encontrada na obra original, para, com cenas curtas que se sucedem, retratar a viagem de um homem, do Rio de Janeiro até o litoral gaúcho, em que se depara com diversas situações inusitadas e personagens enigmáticas, até encontrar a morte. Em 1993, Lenta Valsa de Morrer, baseada em texto de Clarice Lispector, é apresentada em um porão, um ambiente claustrofóbico e pouco usual em suas montagens, uma vez que Alabarse prefere o palco italiano e a cenografia grandiosa.

Encena Hamleto, de Giovanni Testore, em um hangar desocupado na zona sul de Porto Alegre, em 1994. O público é conduzido em ônibus para o local da apresentação, em que a encenação do texto de Testore, baseado em Shakespeare, mescla-se com intervenções do Vocal Mandrialis. No mesmo ano é criado o Festival Internacional de Artes Cênicas Porto Alegre em Cena, patrocinado pela prefeitura, com coordenação e curadoria geral de Alabarse, de 1994 a 2001 e de 2005 em diante. O evento é considerado um dos maiores festivais de teatro da América Latina, e traz, anualmente, no mês de setembro, atrações nacionais e internacionais à capital gaúcha, além de peças produzidas no Rio Grande do Sul. 

A partir de 2002, retoma a encenação de espetáculos de forma mais regular. Inicia a montagem de uma trilogia de peças do dramaturgo austríaco Thomas Bernhard: Almoço na Casa do Sr. Ludwig, A Força do Hábito e Heldenplatz. É também nesse período que se interessa mais profundamente pela tragédia grega clássica: dirige Antígona, de Sófocles, Medéia, de Eurípides, e Édipo, adaptação de duas tragédias de Sófocles (Édipo Rei e Édipo em Colono). Antígona, com texto traduzido do grego especialmente para a montagem, tenta reproduzir de forma mais fiel possível o que seria uma tragédia grega. Utiliza um coro que, a exemplo do que ocorre século V a.C., canta suas falas - neste caso, sobre uma trilha sonora marcada pela dissonância harmônica, composta por Arthur de Faria.

Sobre Édipo, o crítico teatral Antônio Hohlfeldt escreve, em sua coluna semanal no Jornal do Comércio de Porto Alegre: "Na encenação, tudo está resolvido a contento e faz com que esqueçamos o espetáculo para nos envolvermos com o que se diz, se mostra e se sente. Como, no futebol, o melhor juiz é o que não aparece, aqui, o espetáculo é ótimo porque esquecemos que ele existe. Alabarse alcança neste trabalho um de seus melhores momentos pelas escolhas que fez como diretor".1 Entre as escolhas, pode-se apontar a trilha sonora, inteiramente composta de canções dos Rolling Stones, e os figurinos, que misturam reconstituições de indumentárias gregas clássicas com outras de inspiração oriental-nipônica.

O mesmo crítico Hohlfeldt chama a atenção para as diferentes formas que a música é empregada nos espetáculos de Alabarse. Se, a respeito de O Homem e a Mancha, sugere que deva ser feito algum estudo acadêmico que analise as trilhas sonoras de suas encenações, tal a importância que elas adquirem, sobre Édipo escreve que é "uma trilha sonora provocadora e provocante, às vezes irritante, mas sempre tocante".2

A trajetória artística de Alabarse compreende duas fases distintas: a primeira, que se inicia em meados dos anos 1970 e se estende até meados dos anos 1990, caracteriza-se pela encenação de textos de autores brasileiros (Nelson Rodrigues, Marcílio Moraes, Naum Alves de Souza) e, mais especificamente e com mais intensidade, de autores gaúchos (Carlos Carvalho, Caio Fernando Abreu, Lya Luft, João Gilberto Noll). A segunda fase, a atual, aprofunda a escolha por textos escritos diretamente para o teatro, com Alabarse dedicando-se aos autores clássicos ou de grande reconhecimento literário, como Thomas Bernhard, Samuel Beckett, William Shakespeare, Sófocles e Eurípides.

Notas
1
HOHLFELDT, Antônio. O Édipo de Alabarse. Jornal do Comércio, Porto Alegre, 15 ago. 2008. Disponível em: [http://jcrs.uol.com.br/colunistas.aspx?pCodigoColuna=11081&pCodigoColunista=214]>. Acesso em: 04 set. 08.

2 idem



Atualizado em 07/06/2010
 
 
Veja nas
Enciclopédias
 
  literatura - nomes
  Abreu, Caio Fernando (1948 - 1996)
Lispector, Clarice (1920 - 1977)
Luft, Lya (1938)