A arte de nossos antepassados


No passado, o Homem também deixou gravadas ou pintadas em rochas imagens de grande qualidade artística. Esse é mais um campo instigante de investigação para o arqueólogo brasileiro.

Há vários milênios sociedades humanas vêm deixando registros em diferentes suportes de pedra: paredes e tetos de cavernas e abrigos, blocos no chão, pedras nos leitos dos rios, lajes a céu aberto. Qual o seu significado?

No Brasil, as pinturas rupestres mais antigas chegam a quase 12.000 anos de idade e foram encontradas na região de São Raimundo Nonato (Piauí). São desenhos de animais, pessoas, plantas e objetos, muitas vezes retratando cenas da vida cotidiana ou eventos cerimoniais.

Também em Minas Gerais algumas datações de arte rupestre são antigas, alcançando cerca de 10.000 anos atrás. Na região de Lagoa Santa temos cenas de caça com uso de flechas, armadilhas aprisionando veados e grandes redes com peixes, retratando dinâmica e movimento.

De fato, o costume de cobrir suportes de pedra com pinturas de diferentes cores está espalhado por todo o Brasil. São testemunhos gráficos das sociedades indígenas, tanto do passado como do presente, pois vários grupos ainda produzem arte rupestre.

Além das pinturas, muitos sítios apresentam outro tipo de arte rupestre, denominado gravura. Neste caso, foi utilizada a técnica da abrasão (ou raspagem) das pedras, resultando figuras em baixo relevo.

Os motivos de arte rupestre são bastante variados. Alguns grupos utilizavam, por exemplo, o chamado "motivo geométrico", trabalhando com formas não representativas e desenhando pontos, traços e círculos em diferentes tamanhos e combinações. Outros grupos adotavam o "motivo figurativo", desenhando representações de pessoas, animais, árvores, objetos etc.

Também os estilos variam: existem figuras formadas apenas por linhas de contorno, outras apresentam pinturas cheias, outras, pontilhadas.

O importante é saber que não existe uma sucessão evolutiva na arte rupestre, ou seja, não é possível dizer que desenhos geométricos são mais antigos que os figurativos, ou que uma técnica seja mais "desenvolvida" do que outra. Isto vai depender, como veremos adiante, do universo simbólico compartilhado pelos artistas.


Mas, como o arqueólogo estuda esta arte?


O registro da arte rupestre, em campo, se dá através de uma série de registros como fotografias, filmagens, descrições e reproduções. Para 'transportá-las até o laboratório", o pesquisador utiliza a técnica de relevé, uma espécie de "decalque" da arte, aplicando uma folha plástica transparente sobre a base de pedra e realizando uma cópia dos desenhos. Nessa prancha flexível, são anotados dados sobre as figuras, como espessura dos traços, cores e disposição do desenho no painel para análise a posteriori.

Ainda em campo é possível ter uma primeira idéia sobre a cronologia da arte rupestre: muitos paredões apresentam camadas sobrepostas de desenhos, indicando que diferentes grupos humanos ali estiveram e imprimiram seus desenhos por cima de desenhos mais antigos. O estudo dessa sobreposição ajuda a definir a sequência cronológica de motivos e estilos da área.

E pensar que, por pelo menos 10.000 anos, diferentes grupos indígenas produziram arte rupestre, deixando seus registros pelos quatro cantos do país.

Agora, cabe ao arqueólogo a difícil tarefa de compreender seu significado.


Qual o sentido desta arte?

Não existe uma fórmula única para interpretar a arte na pedra, e nem mesmo os estudiosos concordam entre si. De fato, a arte rupestre constitui talvez o vestígio arqueológico mais complexo de ser analisado, embora seja, também, um dos mais fascinantes.

Antes de mais nada, é preciso compreender que toda a arte rupestre é uma representação do mundo real, na forma de um símbolo. Mas o significado dos símbolos pode variar muito, de sociedade para sociedade. Assim, quando um artista desenha um traço vermelho na rocha pode, por exemplo, estar retratando a figura estilizada de um homem, ou pode estar marcando a passagem do tempo. As possibilidades de interpretação tornam-se, assim, infinitas.

Os arqueólogos propuseram várias linhas interpretativas: a arte rupestre como meio de comunicação, a arte rupestre como forma de magia, como arte pura, como uma pré-escrita, como marcador de territórios. Entretanto, cada uma destas linhas apresenta somente uma das muitas maneiras viáveis de se analisar a arte rupestre, já que não podemos simplificá-la, nem tratá-la de forma genérica.

De qualquer modo, o arqueólogo precisa voltar sua atenção ao conjunto de arte rupestre existente, ou seja, ao total de representações gráficas deixadas por uma determinada sociedade. De nada vale analisar uma figura ou um desenho isolado, já que eles foram entendidos e materializados enquanto conjuntos de símbolos.

Por outro lado, é preciso conhecer as características da sociedade que produziu a arte, ou ainda, o contexto histórico e cultural em que surgiu. Desta forma, o arqueólogo precisa estudar não só a entrada de caverna onde existem gravuras rupestres, mas também os locais onde este grupo de pessoas morava, caçava, plantava, enterrava seus mortos, e assim por diante. Só assim poderá compreender, por exemplo, qual o tipo de atividade que as pessoas desenvolviam naquele local - e, então, estabelecer hipóteses sobre os registros deixados.

O estudo do significado da arte rupestre está relacionado ao que hoje se denomina de "arqueologia cognitiva", que pretende investigar as formas de pensamento e crenças do passado (universo ideológico), através dos vestígios materiais. Neste sentido, a arte rupestre é vista como um veículo para a manutenção, reprodução ou transformação da sociedade, ao longo de sua trajetória.

O Arqueologia Brasileira lhe faz um desafio: embarque na Linha do Tempo e navegue pelo painel da Toca do Boqueirão da Pedra Furada, no Parque Nacional da Serra da Capivara (Piauí). O que nossos antepassados queriam dizer ou informar? As conclusões ficam por sua conta.

 



Detalhe de inscrição rupestre (reprodução). Rio Tocantins, Lajeado, TO.
Acervo: Museu de Arqueologia e Etnologia - USP
Reconstituição digital: José Luiz M. de Castro Neto
Pinturas sobrepostas em paredão rochoso. Parque Nacional da Serra da Capivara. Toca do Boqueirão da Pedra Furada, PI.
Acervo: Zanettini/Documento
Foto: Erika González

Lua Minguante. Reprodução de gravura encontrada no Rio Tocantins. Lajeado, TO.
Acervo: Museu de Arqueologia e Etnologia - USP
Reconstituição digital: José Luiz M. de Castro Neto

Figuras de animais em paredão rochoso, GO.
Foto: Irmhild Wust


Gravuras geométricas encontradas em sítio (abrigo), região do alto Araguaia, MT.
Foto: Erika González


Detalhe de inscrição rupestre (reprodução). Rio Tocantins, Lajeado, TO.
Acervo: Museu de Arqueologia e Etnologia - USP
Reconstituição digital: José Luiz M. de Castro Neto


Equipe em ação: registro de assinalações rupestres na região de Lajeado, TO.
Acervo: Museu de Arqueologia e Etnologia - USP
Foto: Erika González


Técnica de relevé, utilizada para a reprodução de grafismos.
Acervo: Museu de Arqueologia e Etnologia - USP
Foto: Erika González

Detalhe de inscrição rupestre geométrica. Rio Tocantins, Lajeado, TO.
Acervo: Museu de Arqueologia e Etnologia - USP
Reconstituição digital: José Luiz M. de Castro Neto

Fotografando a arte de nossos antepassados. Lajeado, TO.
Acervo: Museu de Arqueologia e Etnologia - USP
Foto: José Carlos Marcelino


Documentando conjuntos:
o registro métrico de um paredão com diversas pinturas. Rio Tocantins, Lajeado, TO.
Acervo: Museu de Arqueologia e Etnologia - USP
Foto: Erika González