por Alexandre Ribeiro e Nayra Lays

*A coluna de outubro é escrita excepcionalmente apenas por Nayra Lays.


O Ayó – Encontro Negro de Contadores de Histórias teve sua quarta edição em Belo Horizonte (MG) e contou com a participação de griôs vindos de outras cidades mineiras, de Angola, do Senegal, do Rio de Janeiro e de São Paulo. Durante dois dias, no Sesc Venda Nova, ouvi histórias contadas com violas, tambores, cantos, objetos lúdicos, poesias, fotografias, o próprio corpo. Através de pretas e pretos velhos, crianças e jovens, mergulhei em “um novo campo do conhecimento: da ancestralidade, da brincadeira, da mandinga”, como foi dito.

Parte da programação foi desenvolvida sob uma árvore, em círculo, onde era possível que todas e todos se olhassem enquanto o sol brilhava. Quando a contadora ou o contador se posicionava ao centro, toda a atenção se voltava para o novo universo a ser tecido, em um ritual da palavra no qual éramos conduzidas, mas também nos sentíamos à vontade para puxar palmas, coros, dizer palavras complementares à história, cantar e rir. Rir como se ri junto com a avó, de algum causo contado com o cuidado e o interesse da primeira vez. Rir como se ri da espontaneidade da criança que se sente parte do que ouve e interage como quem tivesse estado mesmo lá, na história. E quem é que vai dizer que ela não sabe sobre o mundo dos animais, das plantas, dos orixás e da natureza humana em seu estado puro?

Conceição Evaristo, uma das contadoras, com seu conto “Olhos d’Água”, me fez lembrar de vó Helena, de cujo tom da voz eu não me lembro desde que partiu. Fiquei pensando, então, na importância de cultivar memórias afetivas, mesmo as mais miúdas, pois são elas que também alimentam muitas e muitas vezes nossas esperanças. E foi assim que saí do Ayó: alimentada. Alimentar-se da palavra contada pelos nossos, para nós, mulheres negras, também pode significar a gestação de coisas que nem sabemos ainda o que são, mas que em algum momento serão paridas.

Aliás, Ayó é rebento de Nathalia Grilo Cipriano, que abriu o evento falando sobre propósito e chamado, sobre luta, resistência e a importância de espaços como aquele, com o nosso protagonismo. Especialmente em um contexto no qual histórias só são legitimadas quando estão em um papel, e principalmente quando são escritas por pessoas diferentes de nós.

Ayó, que significa exaltação, alegria, me inundou em lágrimas de reencontro com o que eu nem me lembrava de já ter vivido – e com o que nunca vivi no corpo físico, mas, graças à ancestralidade, também faz parte de quem sou. Levou-me ao centro para dançar e girar junto, esquecendo qualquer receio. Conectou-me a outras formas de contar e ouvir histórias, e me fez desejar contar alguma, do jeito que eu bem entender, em uma próxima edição. Não, não existem padrões para contar uma boa história, desde que ela também saiba ouvir, e seja leve como sopro. Afinal,

“A gente chama Ayó e todos os sopros se encontram/
A gente chama Ayó e chovem histórias do céu”

Adupé. Obrigada.

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