por Zema Ribeiro

“A saída é o aeroporto”, dizia Tom Jobim, o maestro soberano, certamente se referindo ao “enorme passado pela frente” que tem o Brasil, no dizer de outro gênio, o saudoso Millôr Fernandes. Se ainda entre nós, ambos teriam muito a disparar sobre o atual estado das coisas.

A única saída (e entrada) de São Luís por via terrestre são as pontes sobre o Estreito dos Mosquitos, braço de mar que separa a ilha do continente. Chega-se pela BR-135, que termina em Belo Horizonte/MG. O quilômetro 0 fica na capital maranhense, justamente em frente ao... aeroporto!

BR 135 foi o nome escolhido por Luciana Simões e Alê Muniz, o casal/duo Criolina, para o festival que produzem há seis anos e que colocou definitivamente o Maranhão no mapa dos grandes festivais brasileiros. “Nós, depois de circular nos festivais do Brasil, voltávamos sempre para São Luís e não nos conformávamos em ver a ausência de artistas do Maranhão nesses eventos. A cidade era isolada geograficamente e o Brasil desconhecia a nossa cultura. O delay que isso gerava em São Luís e no Estado era gritante. Daí, reunimos alguns artistas incomodados com a situação e iniciamos o projeto no extinto Circo da Cidade, cobrando portaria. Já nessa época, usávamos esse nome, que faz referência à única rota por terra de entrada e saída da cidade, a BR-135, o caminho de entrada e saída do som”, revela Luciana Simões, enfatizando o slogan.

Alê Muniz e Luciana Simões produzem o festival BR-135 há seis anos - foto: Márcio VasconcelosLuciana Simões e Alê Muniz forma o duo Criolina - foto: Márcio VasconcelosO Boi da Fé em Deus está entre as atrações locais - foto: divulgaçãoPinduca também vai se apresentar no BR-135 de 2017 - foto: divulgação

Se antigamente a chamada “era dos festivais” – competitivos e televisados, no nascedouro e na consolidação da máquina de fazer e amansar doido, no dizer de outro gênio, Sérgio Porto, vulgo Stanislaw Ponte Preta – ajudou a moldar a própria música popular brasileira (e a sigla advinda dessa diversidade), festivais como o BR 135 e similares que ocorrem em todo o país ajudam a circular quem faz a cena alternativa, mais ou menos à margem do mercado.

“Estamos sendo convidados para representar o festival em algumas feiras, encontros e outros festivais. Acabamos de chegar do Imesur [Encuentro de Industria Musical Latinoamericana Chile + Brasil] no Chile, onde participamos das rodadas de negócios, recebendo material de bandas do Chile, e fomos convidados para o Circulart [plataforma cultural para músicas latino-americanas, conforme o site], na Colômbia. Também iremos como convidados para a roda de conversa no festival Se Rasgum, em Belém, e no Sim São Paulo [Semana Internacional de Música de São Paulo], importante convenção de música do Brasil. Essa é a nossa agenda até o final do ano. Assim foi na Feira da Música [Ceará], na Maloca Dragão [no Dragão do Mar, em Fortaleza/CE], no Coma [Convenção de Música e Arte/DF] e outros. Percebemos que esses encontros nos festivais vão além de entretenimento. Mais que tocar, essas trocas são muito importantes, por isso o BR 135/Conecta Música [evento diurno de formação e intercâmbio paralelo ao festival] faz o movimento de trazer programadores de festivais e casas independentes que abrigam a música para participar anualmente. Isso constrói um espaço de troca que é fundamental para fortalecer o relacionamento entre quem produz arte e quem abre espaço para a música se apresentar. O grande desafio é mobilizar a galera local para participar do Conecta, por isso convidamos os artistas que estão tocando e os que não estão tocando para aproveitar e fazer contato com esses convidados que passam os três dias de festival conhecendo a dinâmica cultural da cidade e a cena em si – as bandas, os compositores, os ambientes etc.”, prossegue Luciana.

Neste ano, o BR-135 dobra sua programação: serão seis dias (23, 24, 25 e 30 de novembro e 1º e 2 de dezembro), sendo as três primeiras noites de programação musical dedicadas à música instrumental, linguagem que tem consolidado São Luís como importante praça no Brasil, a partir das faculdades de música da universidades federal [UFMA] e estadual do Maranhão [Uema], além da tradicional Escola de Música do Estado do Maranhão – Lilah Lisboa de Araújo [Emem], da reestruturação do Clube do Choro do Maranhão e de projetos como o Clube do Choro Recebe [2007-2010] e RicoChoro ComVida na Praça [em cartaz]. Entre os nomes confirmados para as três noites inaugurais do festival deste ano estão Funk Como Le Gusta, Quartabê e o Trítono Trio.

O cardápio do festival vai do local ao nacional e aponta as antenas atentas para novidades sem deixar de prestar as devidas reverências a artistas já com algum tempo de estrada. Já passaram pelo palco do BR-135 nomes como Arnaldo Antunes, Nação Zumbi e Di Melo, além de Pinduca (uma das atrações confirmadas para este ano). Luciana Simões explica a seleção: “Temos os convidados do Festival e os selecionados por edital através de uma curadoria que muda ano a ano. Alguns critérios são utilizados, como convidar bandas que estão fora dos grandes circuitos comerciais, geralmente conhecidas pelo público que as segue pela internet. Normalmente misturamos uma novidade da cena do ano com um artista das antigas que tem a cara do festival: ou dançante, ou cabeça, ou caliente... ou tudo ao mesmo tempo agora”.

Criolina participa da programação do festival – o duo se apresenta na Praça Nauro Machado no dia 2 de dezembro, às 22h. Curioso notar a opção de Alê Muniz e Luciana Simões em viver no Maranhão e produzir a partir daqui. No início do ano lançaram seu terceiro disco, o elogiado Radiola em Transe, dialogando com a cena reggae, fortíssima na ilha e merecedora do epíteto “Jamaica Brasileira”. Sobre a escolha do casal, ela finaliza: “Isso nos estimula, aqui é nossa terra, é aqui que queremos viver e colaborar do jeito que podemos, acertando e errando. É um desafio como em qualquer lugar. Acreditamos que o festival seja importante para tentar romper com o isolamento da arte produzida por aqui. O resultado já está sendo bom para todos nós. Por outro lado, como artistas, o nosso trabalho sofre um pouquinho com o tempo que dedicamos ao festival, essa divisão de funções tem seus prós e contras. Tentamos conciliar as duas funções e está sendo bacana”.

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