Quilombo de palavras Saiba mais

1. Orixás não tomam chás de academias Saiba mais


Carolina Maria de Jesus
com Audálio Dantas, 1960.
Acervo Audálio Dantas. Referência

Há muito tempo, a literatura brasileira é cheia de negros. Escritores ou personagens, negras e negros povoam nossas letras. De pele menos ou mais escura, só muito raramente, no entanto, os escritores se identificavam ou eram identificados como negros.

E isso num país em que boa parte da população sempre foi, assumida ou disfarçadamente, não branca! A situação de escravidão a que eram reduzidos os povos africanos para cá trazidos, sua condição de vida no Brasil, a vergonha com que se cobria o país pelo fato de ser uma nação escravocrata podem ser alguns dos motivos que explicam o apagamento da negritude, muito visível, por exemplo, nos estudos literários. Exemplos disso são o poeta Domingos Caldas Barbosa Biografia e o escritor Machado de Assis Biografia. Ambos eram negros, mas as histórias literárias e os livros didáticos raramente mencionam esse fato ao apresentar esses autores (e todos os demais escritores e intelectuais negros brasileiros).


Domingos Caldas Barbosa
Aut. desc., 1798
Biblioteca José Mindin

Machado de Assis
Aut. desc., 1896
(c) AE

Cruz e Sousa
A. Ducasble, s.d.
Fundação Casa de
Rui Barbosa

Itamar Assumpção
Juan Esteves, 1994

Benedita da Silva
Senadora (1995-1999)
Referência

Cartola
Carlos Namba, s.d.


Ismael Ivo
Madalena Schwartz, s.d.
Acervo Instituto Moreira Salles

Clementina de Jesus
Madalena Schwartz, s.d.
Acervo Instituto Moreira Salles

Luiz Paulo Lima
Juan Esteves, s.d.

Esse apagamento da negritude tem conseqüências sociais da maior gravidade. Como, por exemplo, os resultados da pesquisa da professora Rita de Cássia Souza Pierini Biografia. Sua tese conclui que o ensino no Brasil toma por referência a cultura européia, raramente considerando o papel que o negro teve e tem na cultura brasileira. Diz a professora que

 

Nas disciplinas escolares, o negro é sempre retratado de forma inferior, e a sua cultura é esquecida. Além da perda de sua identidade, o negro perde seu espaço dentro da sociedade. Ele não se identifica com o que aprende, e acaba perdendo o interesse pelas aulas. (...). A ideologia vigente faz com que o negro se torne invisível na sociedade. Isto gera um processo de branqueamento, pois ele absorve os valores dos brancos. Há negros que são mais brancos do que os próprios brancos Referência.

Talvez as coisas fossem diferentes se aprendêssemos na escola que um dos maiores escritores da literatura brasileira erudita, Machado de Assis, era um negro.

Exercício 1

Enquanto a história literária branqueia os escritores negros, ela consagra, por outro lado, personagens negros criados por autores brancos, registrando uma visão particular do papel dos negros: a visão filtrada por um olhar branco. Assim é que ganharam os aplausos da crítica e o coração de alguns leitores os sofridos escravos defendidos na poesia de Castro Alves Biografia; a mais branca filha que uma negra jamais teve, a escrava Isaura, criada por Bernardo Guimarães Biografia; ou ainda as sensualíssimas morenas de Jorge Amado Biografia.


Raul Pompéia. Gravura de propaganda abolicionista
publicada logo após a morte de Luiz Gama, 1882 Referência

Mas a tentativa de branquear o país e abafar a voz dos negros sempre encontrou resistência. Só recentemente, no entanto, os estudos literários se deram conta disso, começando, por exemplo, a olhar para figuras como Luiz Gama Biografia que escreveu e batalhou por sua condição há mais de um século. Negro e escravo, o poeta perguntava-se nas suas Primeiras Trovas Burlescas de Getulino:

 

Que mundo? que mundo é este?
Do fundo seio dest'alma
Eu vejo... que fria calma
Dos humanos na fereza! Referência

A mudança de paradigma por parte de um segmento da crítica literária brasileira fez com que se começasse a buscar (e a encontrar) a identidade negra e os traços de negritude de nossa literatura. A percepção deles torna-se essencial para a compreensão do caráter mestiço e plural da cultura brasileira. Na esteira do fortalecimento de movimentos sociais populares e do desenvolvimento de estudos debruçados sobre escritores e obras até então desconsiderados pela história oficial, a literatura negra começa a ganhar espaço. Saiba mais consultando a cronologia.

E um desses espaços é exatamente esta vertente do curso Brasil/Brasis: Literatura e Pluralidade Cultural. Aqui vamos mergulhar de cabeça no assunto. Existe um jeito negro de escrever? Este jeito é afro ou afro-brasileiro? E que imagens de negro circulam na literatura? Que relação estas imagens mantêm com a história dos negros e negras no Brasil?

São muitas as questões, e todas da maior importância. Com certeza, as atividades e leituras propostas vão permitir que você pense sobre o assunto com mais desenvoltura.


Mario Cravo Neto. África I, 1991