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Quilombo de palavras 2. A voz da favela (ou nas margens da Marginal)
Você vai ler
uma história escrita por Carolina Maria de Jesus O episódio
por meio do qual conseguiu publicar seu primeiro livro e tornar-se escritora
já parece história de romance: Audálio Dantas
O jornalista ficou
impressionado com a quantidade e com a qualidade do material e conseguiu
editor para o diário de Carolina, efetivamente publicado em 1960
pela Editora Francisco Alves, com o sugestivo título Quarto
de Despejo: Diário de uma Favelada Fazia tempo que Carolina queria publicar um livro. Na favela em que morava, a divulgação desta sua intenção funcionava como uma espécie de "ameaça": Carolina dizia a todos que de alguma forma a agrediam que "ia botar no livro" o que estavam fazendo com ela. O livro, quando publicado, efetivamente chocou e assustou muita gente, caindo como bomba no cenário brasileiro da época. Quem era aquela negra que, na linguagem dos despossuídos e dos desescolarizados, trazia para um livro o testemunho da vida nas ruas, o depoimento do dia-a-dia de uma mãe solteira? Pela qualidade de
seu texto e pela inovação que representava no mundo das
letras, Carolina foi uma das autoras brasileiras mais traduzidas nos anos
sessenta e setenta. Sua história correu mundo em várias
línguas Os textos publicados
no livro, no entanto, eram apenas uma pequena parte de seus escritos.
Depois da estréia, Carolina publicou outros livros, todos de recorte
documental e autobiográfico. Sua ficção e seu teatro,
registrados nas mais de 4.500 páginas manuscritas que ocupam 37
cadernos, continuam praticamente inéditos. Uma seleção
de sua poesia foi publicada, em 1996, pela Editora da Universidade Federal
do Rio de Janeiro
Quarto de Despejo
antecipou o gênero "depoimento" e "testemunho"
que, no final do século XX, tanto encanta leitores e estudiosos
da literatura. No caso dos diários de Carolina, no entanto, ao
desejo de conhecer a vida alheia soma-se um outro fator de interesse:
o cotidiano que seu livro devassa é muito distinto daquele em que
vivem seus leitores. Já pelo título da obra de estréia,
o leitor percebe que vai adentrar lugares aos quais não está
habituado. Quarto de Despejo promete e traça uma cartografia
de espaços degradados, relacionados a restos, a desordem, a coisas
que ninguém mais quer. A própria Carolina desvela a metáfora
que serve de título ao seu livro: A vontade de conhecer
e entender o outro, na busca por um mundo mais justo manifesta-se com
freqüência nos anos sessenta, talvez na esteira da vitoriosa
revolução socialista cubana Clique aqui para acessar
o trecho
autobiográfico. Ouça a oralização do trecho
pela atriz Dirce
Thomaz dos Santos. |