Quilombo de palavras

3. Na escola da vida

Observe que o texto que você acaba de ler não tem nome: ele é fragmento de uma obra de cunho autobiográfico, intitulada Minha Vida Saiba mais.

Exercício 3

Embora, no início, o texto não mencione explicitamente a palavra "escola", você deve ter percebido que o cenário é escolar. Observe que, até a menção a D. Lanita Salvina, você poderia imaginar diferentes hipóteses quanto ao ambiente da história que estava lendo. Até o quinto parágrafo, as ações narradas por Carolina poderiam transcorrer em outros lugares: um cenário doméstico ou em espaços abertos, ao ar livre.

O leitor que, no quinto parágrafo, confirmou a hipótese de que o espaço da história era escolar, daí em diante encontra outros elementos textuais que reforçam sua hipótese. Observe como a partir daí acumulam-se palavras ou expressões relativas ao ambiente escolar: "as alunas", "aprender a ler e escrever", "preparar as lições", "professora", "primeiro dia de aula".

As questões propostas no exercício acima têm a função de mostrar uma coisa muito importante: como se desenrola o processo da leitura. Sabe-se hoje que o leitor não é uma figura passiva. Muito pelo contrário, ele interage constantemente com o texto que está lendo. Ele levanta e testa hipóteses de significados, reformula as hipóteses que o prosseguimento da leitura mostrou serem inconsistentes, refina-as a partir de novos dados que o texto fornece, numa interação constante e progressiva.

Por meio destas estratégias, o leitor vai entendendo e interpretando os textos que lê, inclusive os literários. Como está acontecendo aqui: você foi aprimorando sua interpretação do texto de Carolina por meio de releituras atentas e interessadas. Você tem agora, na cabeça, um quadro razoavelmente nítido da situação que Carolina narra, das emoções e sentimentos que ela descreve e sugere. Agora que você já pensou sobre a situação vivida pela personagem principal, você pode ir especificando melhor o papel que as outras personagens desempenham.

Exercício 4

Exercício 5


Luiz Paulo Lima. Manifestação
Organizada pelo Movimento
Negro Unificado
, São Paulo
SP, 1978

Uma interessante pesquisa realizada em 1995 e 1996 pela psicóloga Irene Sales de Souza Biografia, entrevistando 200 professores de 34 escolas de ensino fundamental de Franca, buscava verificar, entre outras coisas, como os professores reagiam quando presenciavam uma situação de racismo em sala de aula. O resultado da pesquisa mostrou que há ainda muito racismo nas escolas e que os professores não sabem como lidar com a discriminação, tentando contornar o problema pelo lado sentimental:

 

Muitos tentam resolver o problema enaltecendo as qualidades do aluno negro ou fazendo com que a criança receba desculpas de quem a discriminou (...). Poucos discutem a questão racial de forma didática, mostrando as diferenças de raças e etnias, sua história, seus valores e manifestações culturais Referência.

Não é de admirar, portanto, que a pequena Carolina e sua professora não conseguissem se entender. As expectativas da menina eram profundamente diferentes das da professora e, segundo algumas leituras, ela não parecia contar com solidariedade da parte das colegas. Assim, a história de sua passagem do mundo da infância para o mundo das responsabilidades institucionais foi cheia de desencontros, que se agravam pela assimetria na relação aluna / professora.

Exercício 6

Ao sugerir que querer mamar é um desejo do qual a menina deve envergonhar-se, a professora está propondo que ela interiorize os valores do mundo adulto, segundo os quais se espera que, aos sete anos, uma criança esteja, literalmente, desmamada. D. Lanita também fala em "ficar mocinha", o que remete ao mesmo universo semântico pois significa deixar de ser criança, começar a pertencer ao mundo adulto.

No duelo entre a aluna que queria ir para casa mamar e a professora que pretende mantê-la na escola, há várias oposições: o universo da infância e o do mundo adulto, a informalidade da casa e a formalidade da escola, a cultura popular e a cultura institucional escolar.


Celso Oliveira. Quem Somos Nós, Juazeiro do Norte
CE, c.1990

Se nos lembrarmos do recorte autobiográfico do texto, perceberemos que a história tem como protagonista e narradora uma negra: uma negra adulta que evoca seu primeiro dia de escola. É talvez na identidade étnica que os sucessivos desencontros registrados e sugeridos pelo texto ganham uma outra oposição: a oposição entre o mundo dos brancos e o dos negros.

Exercício 7

Curiosamente, é apenas na última linha do texto, e pela voz da tia, que há uma alusão direta à identidade étnica da menina. Quando você pensou sobre a atitude das colegas de Bitita (interpretando se elas sorriram para a protagonista ou sorriram da protagonista), você começou a perceber o grau de solidão que o texto atribui à protagonista no ambiente escolar.

Exercício 8

O final da história parece reforçar o conflito entre o mundo adulto e o infantil, conflito que não se limita à escola e que explode também no ambiente familiar da menina depois que ela foi à escola.

O texto permite olhar para dentro da personagem central desta história, a menina que conta sua iniciação escolar.

Exercício 9

Varia de pessoa para pessoa a impressão final que a narradora deixa nos leitores. Mas todos concordam que a reação da menina à situação de conflito altera-se ao longo da história. Ela começa relatando seus medos e sua fragilidade, mas aos poucos reage: fica com raiva e ganha forças para responder. A reação surge no momento em que a professora dirige-se a ela chamando-a pelo seu nome completo - nome e sobrenome -, antecedendo-os, inclusive, de uma forma de tratamento curiosa para a situação, chamando-a de "D. Carolina Maria de Jesus".

Exercício 10


Antônio Gaudério. Crianças
durante a festa do Reinado
de Nossa Senhora
-
Quilombo dos Kalungos,
Vão de Almas GO, 1995

Numa cultura como a nossa, o nome de uma pessoa é muito importante. É uma marca forte de identidade. Reforça-se, assim, na oposição entre apelido e nome completo, a perda de identidade que o ingresso na escola custa para Carolina. Habituada a identificar-se com o nome "Bitita" com o qual provavelmente a chamavam no ambiente familiar, a menina não se reconhece e, conseqüentemente, revolta-se quando a professora a chama de maneira formal, invocando sua identidade social, empregando nome e sobrenome constantes em documentos, inclusive os escolares.

O texto possibilita também uma interpretação das atitudes da professora. Seu comportamento parece manifestar um crescendo de antagonismo e violência contra Carolina, atingindo o ápice quando, segundo a menina:

 

A professora deu-me umas reguadas nas pernas, parei de chorar. Quando cheguei na minha casa tive nojo de mamar na minha mãe.

A cena é terrível. Parece que com as lágrimas que engole, a menina também põe para dentro os valores da professora, os valores do mundo adulto: Carolina fica com "nojo" do leite materno. A confessada sensação de asco pelo peito da mãe pode representar a primeira vitória do mundo escolar, formal e adulto sobre uma criança que até então conhecia apenas o mundo da família. Indo para a escola, a primeira coisa que a menina aprende é a se envergonhar de ser como é. Carolina, ao adotar os valores da professora, diz:

 

Compreendi que eu ainda mamava porque era ignorante, ingênua. E a escola esclareceu-me um pouco.

Entre os valores que a escola pretende inculcar em seus alunos, além de formas de sociabilidade, hábitos de higiene e comportamentos, inclui-se um certo modelo de língua. A escola, em sua função de difundir e manter certos padrões de fala e de escrita (sobretudo a norma padrão), muitas vezes estigmatiza o modo de falar dos alunos. Lendo a história de Carolina Maria de Jesus, você deve ter percebido que o português dela é muito particular e, às vezes, bem distante da língua escrita preconizada pela escola.

Exercício 11

Um grande número de leitores deste texto de Carolina entende que ele conta um episódio de extrema violência contra uma criança negra. Se a violência contra negros marca um longo período de nossa história, nem sempre ela foi documentada pela literatura. Ou, melhor dizendo, nem sempre os leitores estão de acordo com a forma pela qual os textos literários representam a posição do negro na sociedade brasileira.


Manuel Bandeira. Rosa,
sua ama-seca
, 1928 Referência

O poema Irene no Céu, um dos mais famosos da obra de Manuel Bandeira Biografia pode ser exemplar da polêmica.

 

Irene no Céu

Irene preta
Irene boa
Irene sempre de bom humor.

Imagino Irene entrando no céu:
- Licença, meu branco!
E São Pedro bonachão:
- Entra, Irene. Você não precisa pedir licença. Referência

Exercício 12

Muitos leitores de Manuel Bandeira parecem considerar Irene no Céu como uma homenagem à mulher negra, talvez mesmo um texto que redime a velha figura da mãe preta, tão presente na vida social brasileira no tempo da escravidão e nos anos seguintes. Esses leitores entendem que o poema enaltece Irene ao representar a deferência de São Pedro, porteiro do céu, em relação a ela.

No entanto, para outros leitores, a caracterização de Irene como uma preta "boa" e "sempre de bom humor" incomoda. Para estes, talvez o preço da deferência com que Irene é tratada por São Pedro seja seu "eterno bom humor", isto é, sua falta de reação diante da situação opressiva vivida pelos negros no Brasil. Mesmo depois da morte, Irene trata São Pedro de forma subserviente, como provavelmente tratava os brancos enquanto era viva: "- Licença, meu branco!" Segundo os preceitos do cristianismo, só vão para o céu as pessoas boas que, nesse contexto, seriam aquelas que foram passivas e mantiveram-se no seu devido lugar. Ou seja, alguns leitores de Bandeira sentem que este poema põe em circulação a imagem do negro conformado...

Se assim for, esta Irene "sempre de bom humor" pode ser entendida como uma espécie de irmã de Bitita. A menina que, depois das reguadas nas pernas, deixa de ser "ingênua" e aceita o ponto de vista da escola (considerando-se, inclusive, esclarecida pela escola, independentemente da violência que sofreu), aprende a engolir as lágrimas e... a agradecer. Seria este o embrião da "preta boa e sempre de bom humor"?

Um dos que entraram na discussão do significado do poema de Bandeira foi o poeta Márcio Barbosa Biografia que o retoma, numa espécie de paródia:

 

O que não dizia o poeminha do Manuel:

Irene preta!
Boa Irene um amor
mas nem sempre Irene
está de bom humor

Se existisse mesmo o Céu
imagino Irene à porta:
- Pela entrada de serviço - diz S. Pedro
dedo em riste
- Pro inferno, seu racista - ela corta.

Irene não dá bandeira
ela não é de brincadeira Referência



Logotipo do grupo Quilombhoje,
que edita literatura de autores
negros Referência.

Exercício 13

Este poema de Márcio Barbosa é um exemplo muito sugestivo da intertextualidade que marca a literatura. Pois escritores são, antes de mais nada, grandes leitores, e o que escrevem está em constante diálogo com o que lêem. Como você viu, o texto de Márcio Barbosa, ao dialogar com o poema de Bandeira constrói uma outra imagem de negro: a de um ser humano nada passivo, muito pelo contrário. A Irene de Márcio Barbosa é uma personagem que, provocada, retruca imediatamente.

Exercício 14

Bitita, curiosamente tem um pouco de cada uma das duas Irenes. Como a Irene de Bandeira, ela incorpora valores que não são seus, vendo-se como "ignorante, ingênua", tendo nojo daquilo que antes lhe dava satisfação. Ao mesmo tempo, como a Irene de Barbosa, ainda que apenas momentaneamente, ela fica furiosa, reage contra a opressão respondendo com insolência e recusando-se a ser tratada como "D. Carolina Maria de Jesus".

Além de semelhanças, entretanto, há também diferenças importantes entre as personagens: Bitita é uma criança e, como tal, além da questão étnica tem de haver-se, como vimos, com a assimetria da relação adulto / criança, o que pode, eventualmente, explicar sua submissão final aos desígnios da escola e da família.


Juvenal Pereira. Interiores, Alcântara MA, 1979