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O que você aprendeu com a sua avó? As respostas que aqui cabem são tantas que número exato não há. Uma certeza, porém, une leque tão extenso: avó é caixinha de entendimentos e causos. Muitos causos. É um tal de “Porque no meu tempo...” e pronto: mais um relato começa. Nos dias 26 e 27 de maio, uma roda assim, repleta de tricôs de língua e prosa, chega ao Itaú Cultural. Célia Gomes e Mauricio Maas trazem histórias de uma velhinha e uma garota, dupla que passeia por provérbios e ditados populares para celebrar o encontro de gerações. A contação baseia-se no livro Saberes da Vovó, conjunto de narrativas que tocam, concomitantemente, no folclore brasileiro e nas lembranças particulares do leitor.

Capa do livro Saberes da Vovó | foto: divulgação

Do sensível ao sublime

O encanto pelo fabular é, para Célia, tema antigo: antes mesmo de aprender a ler ou transmitir enredos, o ouvido de menina já se colocava atento a (e apaixonado por) tudo que fosse matéria de ficção. “Brinco que esse universo é o meu guia, o meu mapa, aquilo que me sensibiliza”, define. Cresceu, tornou-se atriz e, como boa operária do teatro, aproximou-se, cada vez mais, de tramas várias – até que, 15 anos atrás, assumiu: “Sou uma contadora de histórias”. Fincado o alicerce, ela fundou, há 12 anos, a Cia. Palavras Andantes, na qual estrutura projetos dedicados ao narrar, os quais se arvoram em suas mil e outras profissões: diretora, escritora, arteterapeuta, pedagoga, professora de mitologia – faces de quem ama um fiar de letras.

Esses vários caminhos, iguais no cerne, levaram a pesquisadora de cantos, mitos e lendas a lugares como abrigos, comunidades com crianças e jovens vulneráveis, grupos de mulheres vítimas de violência, gente em situação de rua. Tal lista, que requer delicadeza extra, abarca ainda esferas hospitalares, espaços onde um pequeno baú se tornou um companheiro da profissional do dito. “Faz uma década que trabalho em hospitais. Nesses ambientes, levo um baú com cartões em que anoto provérbios e os atribuo a uma avó”, comenta Célia. Do gancho da prática falada surgiu o registro escrito: em 2017, a mediadora de causos publicou o livro Saberes da Vovó, o seu primeiro título infantojuvenil, conjunto-símbolo daquilo que é a sua substância maior.

 

Célia Gomes e Mauricio Maas | foto: Aline Dill

Engana-se, todavia, quem julgar que o conteúdo é biográfico. O único elo real é o gosto pelos ditados, adereços sempre presentes na boca materna. A separação da vida própria dá-se logo no princípio: “Mal convivi com a minha avó. Mas, por meio das histórias e da escrita, recriei a minha relação com ela. Esse é um dos poderes das histórias: permitir que você sublime lacunas. Perceba, a avó, em momento nenhum, é nomeada: a personagem é um arquétipo, a avó de qualquer um que transpuser esse laço para as páginas”, explica a idealizadora.

A perda também é discutida na atividade, posto que é uma situação inevitável do viver e acomete, inclusive, as crianças. Os pequenos, nos risos e nas passagens mais sérias, enfim, acabam por assimilar o vital: o respeito aos ancestrais e a valorização do vínculo e da troca com aqueles que os receberam na vida.

Homenageada do Cantinho

O Fim de Semana em Família oferece também o Cantinho da Leitura, que em maio homenageia a escritora Ana Maria Machado. No espaço, as crianças têm acesso à Feirinha de Troca – onde os visitantes podem trocar um livro, um gibi ou um DVD em bom estado por outro da nossa estante – e a obras infantojuvenis. Neste mês, metade delas é da autora homenageada, com destaque para O Elfo e a Sereia e O Gato Massamê e Aquilo que Ele Vê. Os dois espaços ficam no piso térreo do Itaú Cultural e funcionam das 11h às 16h30.


Cantinho da Leitura e Feirinha de Troca
sábado 26 e domingo 27 de maio de 2018
11h
 às 16h30
piso térreo

Entrada gratuita

Contação de Histórias – Livro Saberes da Vovó [acessível em Libras]
sábado 26 e domingo 27 de maio de 2018
às 12h
piso térreo

Entrada gratuita
[livre para todos os públicos]

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