por Duanne Ribeiro

Celebra-se em 11 de novembro de 2017 os 100 anos da morte da escritora Maria Firmina dos Reis – a primeira romancista do país, marco da literatura afro-brasileira. Nascida em 11 de março de 1822, em São Luís, no Maranhão, Maria Firmina é autora de Ursula (1859), o primeiro romance abolicionista do Brasil. Para comemorar a data, trazemos um trecho do livro, com as grafias da época, que pode ser lido na íntegra neste site.

Filha de João Pedro Esteves, homem negro, e Leonor Felipe dos Reis, mulher branca de origem portuguesa, Maria Firmina é prima do também escritor Sotero dos Reis. Foi professora em Guimarães, no Maranhão, e escreveu outras obras, como Gupeva (1861), romance com temática indígena, o conto “A Escrava” e textos poéticos, como o “Hino da Libertação dos Escravos”, sobre a abolição de 13 de março de 1888, em que canta:

Salve Pátria do Progresso!
Salve! Salve Deus a Igualdade!
Salve! Salve o Sol que raiou hoje,
Difundindo a Liberdade!
Quebrou-se enfim a cadeia
Da nefanda Escravidão!
Aqueles que antes oprimias,
Hoje terás como irmão!

Pode-se hoje, às vésperas do aniversário de 130 anos do ato da princesa Isabel – fim de um longo processo de luta política –, dizer que o clamor de Maria Firmina foi realizado? Segundo o depoimento de alguns criadores abordados pelo Itaú Cultural, o embate por igualdade não terminou: em Abdias Nascimento e Conceição Evaristo, ambos escritores, vê-se como a luta contra o racismo continua ao longo dos séculos XX e XXI.

Pelos debates da série Diálogos Ausentes – sobre a presença de artistas negros na arte brasileira –, também é possível avaliar como, desde o pioneirismo de Maria Firmina até hoje, a literatura feita por escritores negros prosseguiu. Assista no nosso canal do YouTube às mesas com Cidinha da Silva; com Elisa Lucinda e Tatiana Nascimento; e com Mariana de Matos e Oswaldo de Camargo. Acesse a playlist completa aqui.

Abaixo, segue um trecho de Ursula, extraído do primeiro capítulo do livro, páginas 16 a 19. Um homem branco a cavalo sofre um acidente – o animal tomba de cansaço sobre ele – e é resgatado por um negro. Maria Firmina descreverá como a escravidão desgasta, limita e constrange a pessoa, mas ressaltará como a virtude, apesar disso, permanece.

Ademais, sigamos o pedido da escritora: “Deixai pois que a minha URSULA, timida e acanhada, sem dotes de naturesa, nem enfeites e louçanias d’arte, caminhe entre vós”.

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N’esse comenos alguem despontou longe, e como se fora um ponto negro no extremo horisonte. Esse alguem, que pouco e pouco avultava, era um homem, e mais tarde suas formas ja melhor se destinguiam. Trasia elle um quer que era de longe mal se conhecia, e que descançando sobre um dos ombros, obrigava-o a reclinar a cabeça para o lado opesto. Todavia essa carga era bastante leve — um cantaro ou uma bilha; o homem hia sem duvida em demanda de alguma fonte.

Caminhava com cuidado, e parecia bastante familiarisado com o lugar cheio de barrocaes, e ainda mais com o calor do dia em pino, porque caminhava tranquillo.

E mais e mais se aproximava elle do cavalleiro desmaiado; porque seos passos para ali se dirigiam, como se a Providencia os guiasse. Ao indireitar-se para um bosque á cala sem duvida da fonte que procurava, seos olhos se xaram sobre aquelle triste espectaculo.

— Deos meo! — exclamou correndo para o desconhecido.

E ao coração tocou-lhe piedoso interesse, vendo esse homem lançado por terra, tinto em seu próprio sangue, e ainda opprimido pelo animal já morto. E ao aproximar-se contemplou em silencio o rosto desfigurado do mancebo; curvou-se, e poz-lhe a mão sobre o peito, e sentio la no fundo frouxas e espaçadas pulsações, e assomou-lhe ao rosto riso fagueiro de completo enlevo; da mais intima satisfação. O mancebo respirava ainda.

— Que ventura! —“então disse elle, erguendo as mãos ao ceo”— que ventura, podel-o salvar!

O homem que assim fallava era um pobre rapaz, que ao muito parecia contar vinte e cinco annos, e que ria franca expressão de sua physionomia deixava adivinhar toda a nobresa de um coração bem formado. O sangue africano fervia-lhe nas veias; o misero ligava-se á odiosa cadeia da escravidão; e embalde o sangue ardente que herdara de seus paes, e que o nosso clima e a servidão não poderam resfriar, embalde — disemos — se revoltava; porque se lhe erguia como barreira — o poder do forte contra o fraco!. . .

Elle entanto resignava-se; e se uma lagrima a desesperação lhe arrancava, escondia-a no fundo da sua miseria.

Assim é que o triste escravo arrasta a vida de desgostos e de martyrios, sem esperança e sem gozos!

Oh! esperança! Só a tem os desgraçados no refugio que a todos oferece a sepultura!.. Gózos!.. só na eternidade os antevem elles!

Coitado do escravo! nem o direito de arrancar do imo peito um queixume de amargurada dôr!!. . .

Senhor Deos! quando calará no peito do homem a tua sublime maxima — ama a teu proximo como a ti mesmo —, e deixará de opprimir com tam reprehensivel injustiça ao seu simelhante!.. a aquelle que é seu irmão?!

E o misero sorria; porque era escravo, e a escravidão não lhe embrutecera a alma; porque os sentimentos generosos, que Deos lhe implantou no coração, permaneciam intactos, e puros como a sua alma. Era infeliz; mas era virtuoso; e por isso seo coração interneceo-se em presença da dolorosa scena, que se lhe ofereceo á vista.

Reunindo todas as suas forças o joven escravo arrancou de sob o pé ulcerado do desconhecido o cavallo morto, e deixando-o por um momento, correo á fonte para onde uma hora antes se dirigia, encheo o cantaro, e com extrema velocidade voltou para junto do enfermo, que com desvelado interesse procurou reanimar. Banhou-lhe a fronte com agua fresca, depois de ter com piedosa bondade collocado-lhe a cabeça sobre seos joelhos. Só Deos testemunhava aquella scena tocante e admiravel, tam cheia de unção e de caridoso desvelo! E elle continuava a sua obra de piedade, esperando ancioso a resurreição do desconhecido, que tanto o interessava.

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