No final da década de 1990, o Itaú Cultural organizou sua programação em torno de eixos curatoriais. O de 1998 versava sobre descobrir, conhecer, reconhecer e tomar posse de territórios geográficos, culturais e artísticos brasileiros. O primeiro evento do ano, Viagens, levou em consideração "o fato de que o país vem sendo conhecido e inventado por iniciativas diversas há muito tempo, sempre com o sentido de desbravamento e identificação. Expedições científicas e artísticas, projetos civilizadores, necessidades sócio-políticas, investimentos econômicos e iniciativas de indivíduos fascinados pela imensidão e riquezas do país".

A pesquisa feita para a produção de Viagens se debruçou sobre 406 expedições históricas que, ao longo de cinco séculos de história do Brasil, percorreram nosso território. Dessas, aproximadamente cem tinham como alvo a Região Norte, o que deu ensejo ao segundo evento daquele ano, Amazônicas. Para esse projeto foram escolhidas três chaves de abordagem: Amazônia Fascínio – sobre o deslumbramento que a flora e a fauna da região produzem nos seus visitantes –, Amazônia Riqueza Cultural – que tratava da diversidade cultural dessas localidades, marcadas pela presença indígena – e Amazônia Estratégia – que abrangia as explorações econômicas ocorridas nesses espaços desde a década de 1950.

Amazônicas propunha-se a discutir "o espaço territorial e seus ocupantes, o jogo entre os vazios e os processos de ocupação, o equilíbrio das paisagens humana e natural”. Tais aspectos eram “revelados por meio de vários suportes de linguagem, como fotografia, obras tridimensionais, livros, vídeos, artes cênicas, música e informática".

Entre essa variedade de suportes de linguagem, a mostra teve como veio central a fotografia. Sob curadoria do fotógrafo Eduardo Castanho, reuniu mais de 200 imagens feitas por importantes profissionais, incluindo nomes consagrados, como Claudia Andujar, Maureen Bisilliat, Pedro Martinelli, George Love e Miguel Rio Branco.

O percurso da exposição fotográfica foi dividido em sete núcleos, começando com Superfícies, que buscava tanto uma aproximação visual à "pele amazônica" – com imagens aéreas de George Love, em que predominavam formas abstratas, cores e texturas – quanto um olhar sobre a floresta em escala humana, presente na obra de Maureen Bisilliat, que retrata as pinturas corporais dos povos originários.

Outro núcleo, Interferências, partia de uma ótica da época segundo a qual as etnias indígenas se diluíam após o contato com a civilização – “contaminadas”, perderiam as suas características próprias e seriam integradas ao grosso da população. Hoje, ouvindo o que dizem de si próprios esses cidadãos, tal visão tem passado por uma revisão, que percebe que esses povos não são passivos, mas protagonistas das suas histórias.

Em Ocupações exploravam-se o cotidiano e a rotina de sobrevivência dos diversos agentes humanos na região, originários da terra e oriundos da migração. Já Passagens trazia imagens de Claudia Andujar sobre o imaginário indígena e seus ritos de expressão; e de Elza Lima sobre o sincretismo religioso dos habitantes das cidades. O núcleo Deslocamentos, por sua vez, mostrou a vida ribeirinha e a própria síntese da sobrevivência amazônica – o rio.

Utopias, que abordou projetos implantados na região, e Ressonâncias, sala com painéis fotográficos de Frans Krajcberg que mostravam queimadas, fechavam a exposição. Cabia também a Krajcberg o primeiro impacto causado no público que frequentou a mostra, com um conjunto de obras tridimensionais exposto na entrada do Itaú Cultural – feitas de madeira tirada das queimadas da região, traduziam, de maneira muito particular, a denúncia e o alerta que o artista realizava quanto às questões ambientais.

O eixo curatorial de 1998, com as exposições Viagens e, principalmente, Amazônicas, foi uma das primeiras incursões do Itaú Cultural na Região Norte brasileira e nas questões ambiental e indígena que hoje continuam, mais do que nunca, em pauta no nosso país. Ao longo dos anos esses foram temas recorrentes, e, novamente, buscando cada vez mais o protagonismo das populações originárias do território que o Brasil hoje ocupa, o instituto se debruça sobre esse conteúdo, por meio de parcerias que respeitam o fazer das etnias convidadas, como é o caso da exposição Una Shubu Hiwea – Livro Escola Viva do Povo Huni Kuĩ do Rio Jordão, que abre suas portas ao público no dia 6 de dezembro.

Referências

Dossiê Amazônicas – Itaú Cultural foca olhar sobre a Amazônia, Centro de Memória Itaú Cultural

Dossiê Exposição Amazônicas, Centro de Memória Itaú Cultural

Dossiê Amazônicas – Eixo curatorial 1998, Centro de Memória Itaú Cultural

Veja também

Direto do Arquivo - A arte ecoativista de Frans Krajcberg

Em 1998, o Itaú Cultural promoveu o evento multidisciplinar Amazônicas, que contou com painéis fotográficos que mostravam as imagens de queimadas capturadas por Krajcberg e também com um conjunto de obras tridimensionais feitas de madeira retirada das queimadas da região.