O patrimônio documental compõe a espinha dorsal de qualquer sociedade e é essencial para a compreensão da identidade cultural de uma comunidade. A relação entre documento, história e memória confere identificação e continuidade do passado ao presente. Portanto, a preservação e a democratização desse patrimônio são também definidoras do futuro: nada se constrói sem a memória.

Gerir, organizar e preservar o patrimônio documental no Brasil, assim como dar acesso a ele, é um verdadeiro desafio. Por meio de iniciativas como a Enciclopédia Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras e o programa Ocupação, o Itaú Cultural opera nesse campo de batalha da preservação da memória artística nacional. A questão também está presente em alguns dos 117 projetos selecionados pela edição 2015-2016 do Rumos, programa de apoio realizado pelo instituto desde 1997. Esses trabalhos estão indicados a seguir.

Acervo Euvaldo Macedo Filho

Euvaldo Macedo Filho, Rumos

 

Nascido nos anos 1950 em Juazeiro (BA), o fotógrafo e poeta Euvaldo Macedo Filho concebeu um vasto e importante registro da cultura brasileira. Apesar de ter vivido consideravelmente pouco – faleceu quando tinha 30 anos –, criou um universo lírico através de fotografias e textos literários que refletem temas como o tempo, a natureza e a sociedade.

Composto de cerca de 5 mil itens, entre negativos, fotografias e cadernos de poesia, o acervo do artista será organizado e digitalizado. Elson de Assis Rabelo, professor, historiador e especialista no tema, conta que o material será disponibilizado on-line. “A ideia do projeto é tirar do negativo e divulgar, por meio de um banco de dados, a obra de Euvaldo”, explica.

Nos últimos sete anos de sua vida, o artista documentou festas populares, lavadeiras, crianças, pescadores, penitentes, o povo nas ruas do interior da Bahia e nas margens do Rio São Francisco – que, por sinal, teve várias de suas transformações, como a instalação da Barragem de Sobradinho, registradas de maneira poética por Euvaldo. “Quero confessar: o que mais me interessa na foto é a poesia”, escreveu ele.

Bonecos, Dúvidas e Muitas Caixas: a Recuperação da História e do Acervo do Sobrevento

 

 

 

Com 250 apresentações por ano em diversos países, o grupo Sobrevento de Teatro de Bonecos, com sede no bairro do Belenzinho, em São Paulo (SP), completa 30 anos de história. De acordo com Luiz Cherubini, um dos fundadores do teatro, o intuito do projeto de recuperação de acervo é não apenas resgatar o passado e gerir uma memória museológica, mas também entender melhor, a partir do acervo organizado, os processos criativos do grupo, abrindo novas frentes de trabalho. “Ao longo dos anos criamos uma demanda de exposições sobre o trabalho do Sobrevento, mas nunca tivemos condições de fazer isso sem antes recuperar e organizar esse material”, comenta.

E trata-se de um vasto material: bonecos, figurinos, livros, documentos, fotos, vídeos. “Nunca tivemos tempo de parar e organizar as caixas, contar nossa história e recuperar dados com precisão. Todo o material está esparso e desorganizado dentro de muitas caixas”, diz o membro do coletivo. Um dos pontos importantes nesse processo é a recuperação da biblioteca do grupo. “Temos uma grande biblioteca especializada, com acervo importante e selecionado. Só de teatro de boneco são 300 livros, mais os que servem de pesquisa para montar nosso trabalho. Além do acervo documental do grupo e de cadernos de ensaio, temos uma biblioteca auxiliar, de teatro, escultura e pintura”, conta Luiz, entusiasmado.

A recuperação do acervo se dará com a ajuda de muitos colaboradores, pessoas apaixonadas pelo teatro. “Faremos um mutirão para gerir o acervo – por exemplo, um doutorando em trajes cênicos será o responsável por levantar o figurino, higienizá-lo e catalogá-lo. Com isso, conseguiremos montar uma exposição”, diz o fundador do Sobrevento. A biblioteca e o acervo estarão instalados na sede do grupo.

Editor por Editor

Em 2003, Paula Prestes e Juliana Kase filmavam um documentário sobre Massao Ohno – editor, artista gráfico, visionário – e, na ilha de edição, tomaram conhecimento da existência de caixas contendo materiais diversos, as quais, após o falecimento de Ohno, em 2010, haviam ficado com a família dele. As 30 caixas foram doadas à Biblioteca Mário de Andrade. “O conteúdo é um pouco incerto; sabemos que não são livros. Abrimos uma das caixas, tinha bonecos de livros, xerox, outros materiais que estavam no escritório”, lembra Juliana.

Ohno foi um editor atípico, independente, com colaboradores esporádicos e uma grande rede de contatos. Um dos seus grandes objetivos era lançar autores que dificilmente teriam chance de se inserir no mercado editorial: ele imprimia uma tiragem simbólica das obras e apresentava o material a editoras maiores. Sem ter o lucro como finalidade, o editor impulsionou a carreira de várias gerações de poetas, foi amigo de diversos artistas plásticos e chegou a coproduzir filmes como Viagem ao Fim do Mundo (1968), de Fernando Campos, e O Bandido da Luz Vermelha (1968), de Rogério Sganzerla.

“A herança dele está viva, as pessoas se inspiram nele. É uma figura muito importante. Quando comecei a filmar com a Paula, ainda não tinha a noção de que não encontraria outras pessoas como ele na vida. Depois se reconhece o quanto ele foi especial”, emociona-se Juliana.

Com Jiro Takahashi, editor de livros que conheceu Ohno, Juliana vai acompanhar o processo de abertura das caixas, comentando o material encontrado e filmando o processo de documentação da Biblioteca Mário de Andrade. “Abriremos cerca de 15 caixas, que nos darão acesso ao material de escritório, aos bastidores da feitura de livros, e o que encontrarmos lá nos dará motivo para falar sobre o processo criativo em edição de livros, principalmente os de poesia”, revela. Esse processo criativo servirá de base para um filme, que começa a ser rodado em outubro de 2016.

Lívio Abramo Acervo I: de Pioneiro a Mestre da Moderna Gravura Brasileira

 

 

 

Com uma trajetória marcada pelo compromisso de transformação social e pela luta política através de uma linguagem muito sofisticada e inovadora na gravura brasileira, Lívio Abramo criou uma obra crucial para as artes plásticas no Brasil. Sua história se relaciona diretamente com a história do século XX, tendo ele nascido em 1903 e falecido em 1993. Apesar de não haver integrado o movimento antropofágico, Abramo flertou com o grupo e teve influência mútua em Tarsila do Amaral.

LivioAbramo_Paraguay - palmeras y ritmos

 

Influenciado também pelo expressionismo alemão, o jovem artista era vinculado aos movimentos sindicais, anarquistas e trotskistas, e retratou a exploração e a resistência dos trabalhadores de uma São Paulo fabril, além das consequências da guerra civil espanhola. O artista desenvolveu uma sofisticada geometrização do figurativo por meio de gravuras e xilogravuras que retratavam a vida rural no Brasil, os morros e as favelas cariocas – com trabalhos articulados à cultura do candomblé –, além de diferentes aspectos da negritude.

No final dos anos 1950, Abramo se estabeleceu em Assunção, no Paraguai, convidado para criar um centro de cultura vinculado à embaixada brasileira. Lá – onde viveu por 29 anos – seu trabalho transcendeu aspectos locais e estabeleceu um diálogo entre o Brasil e a América Latina, enviesado pela cultura guarani, origem da trajetória histórica, política e social do Paraguai. O artista foi ainda um grande mestre e formador de uma geração de gravadores brasileiros, como Maria Bonomi, Marcelo Grassman e Gilvan Samico.

De acordo com Pedro Abramo, presidente do Instituto Lívio Abramo, pelo fato de o artista ter vivido fora do país e haver mantido uma postura crítica em relação ao mercado de arte, as novas gerações desconhecem seu legado. “As últimas três gerações não conhecem seu trabalho. O projeto de recuperação de acervo é também um projeto de recuperação da memória de um artista comprometido com a transformação social, plástica e estética, e nesse sentido possui importância fundamental na cultura brasileira”, conta. Para isso, será preciso organizar esse acervo, que esteve em condições precárias durante 25 anos. “A primeira fase servirá para fazer um diagnóstico do estado de conservação do acervo, para depois digitalizá-lo e disponibilizá-lo ao grande público, através de uma página na internet.”

O Golpe do Corte

 

 

 

José Francisco Ribeiro Solon, artista cearense conhecido como Solon Ribeiro, herdou, nos anos 1990, uma coleção de mais de 30 mil fotogramas. Iniciada nos anos 1950 por seu avó, Ubaldo Uberaba Solon – que comprava rolos de filme, cortava cada imagem e era dono de uma sala de cinema no interior do Ceará –, essa coleção conta com 6 mil fotogramas catalogados com nome do autor e data da produção. A outra parte da coleção, entretanto, não possui identificação quanto aos filmes de que foi extraída.

Fotograma é cada uma das imagens impressas quimicamente no filme cinematográfico, as quais, projetadas no mesmo ritmo em que foram captadas, geram uma ilusão de movimento. Trata-se de um frame na cultura do vídeo, ou um quadro de um filme. “Comecei a usar esse material nos meus projetos de cinema experimental, instalação e performance, refilando, projetando e criando outras narrativas”, conta Solon Ribeiro, que expôs esse trabalho em 2005 no Centro Cultural Banco do Nordeste, em Fortaleza (CE), sob o título O Golpe do Corte. Em 2008, o artista lançou um livro homônimo, resultado da intimidade com os fotogramas cortados e colecionados por sua família.

Agora, a enorme coleção vai compor um portal on-line com três plataformas: a primeira destinada à pesquisa de informações complementares sobre os filmes; a segunda dedicada aos trabalhos já criados por Solon Ribeiro em cima do material; e a terceira com o objetivo de disponibilizar os fotogramas para que o público possa usá-los em práticas de ateliê, cursos e workshops em que o artista está envolvido. “Não conheço coleções desse porte; aliás, não conheço nenhuma coleção de fotogramas. Esta representa a chegada do cinema de Hollywood ao Brasil, traz imagens do cinema italiano e muitos registros nacionais, de artistas como Nelson Gonçalves, Emilinha Borba, Grande Otelo, Ângela Maria, Lima Barreto e Carmem Miranda”, diz Solon Ribeiro.

De fundamental valor histórico e cultural, a coleção de fotogramas dos Solon, catalogada e digitalizada, servirá tanto para compreender melhor o passado quanto para estimular processos criativos e novos trabalhos.

Pedro Osmar, prá Liberdade que se Conquista

Pedro Osmar (legenda) [site]

 

Produzido de forma independente, o longa-metragem de Rodrigo Marques e Eduardo Consonni – finalizado com o apoio do programa Rumos – apresenta o universo poético do paraibano Pedro Osmar, músico, artista plástico, militante, educador e cineasta. Para Rodrigo, a relação com esse trabalho foi afetiva. “Conhecemos Pedro Osmar no estúdio de Marcos Alma, músico que faz trilhas sonoras para os nossos filmes. Ele estava produzindo um disco de Pedro. Tenho uma relação familiar com a Paraíba e, quando o vimos no estúdio, perguntamos se ele deixaria a gente filmar a gravação do disco”, lembra.

No aniversário de 60 anos do artista, a equipe armou uma festa em João Pessoa (PB), com músicos, poetas e amigos. Lá foram descobertos alguns registros em super 8 – parte do acervo de filmes restaurados pelo projeto Cinema Paraibano: Memória e Preservação – que retratavam o bairro de Jaguaribe e a emblemática banda Jaguaribe Carne, formada por Pedro e seu irmão, Paulo Ró. O material de arquivo deu acesso ao movimento musical dos anos 1980, época de abertura política, quando Pedro se apresentava como “guerrilheiro cultural”.

Cena do documentário documentário "Pedro Osmar, prá Liberdade que se Conquista"
Cena do documentário documentário "Pedro Osmar, prá Liberdade que se Conquista"
Cena do documentário documentário "Pedro Osmar, prá Liberdade que se Conquista"

 

De acordo com Eduardo, Pedro tem papel fundamental na formação de uma geração de artistas. “Grande parte dos músicos dessa região se relaciona com a música do Pedro. Ele exerceu influência sobre artistas como Lenine, Elba Ramalho, Chico César e Zé Ramalho”, diz. “Ele nunca se rendeu a essa cultura de mercado, sempre foi um cara que correu por fora. Isso está no filme e no discurso dele; é um cara que faz à sua maneira, não fica esperando os outros virem ajudar”, acrescenta Rodrigo. “É uma referência nesse sentido também, de libertário, revolucionário em sua luta para sobreviver, em sua postura política.”

O filme, lançado no dia 11 de setembro de 2016 no festival de documentários In-Edit, está atualmente no circuito de festivais. Depois disso, será distribuído em diferentes cidades do país e integrará o Circuito Spcine – que promove exibições em todas as regiões da capital paulista.

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