Em parceria com o Itaú Cultural, o Teatrojornal – Leituras de Cena promove o Encontro com o Espectador como parte da programação formativa de artes cênicas. A conversa, triangulada entre artistas, críticos e espectadores, se propõe a analisar um espetáculo teatral. Em setembro, a peça em pauta é Navalha na Carne Negra, do diretor José Fernando Peixoto de Azevedo, que participa do debate com o ator Rodrigo dos Santos. A mediação é do crítico teatral Kil Abreu. A peça será exibida no Itaú Cultural em 27 de setembro.

Navalha na Carne Negra é uma montagem de Navalha na Carne, texto de Plínio Marcos que em 2017 completou 50 anos. A peça conta a história da prostituta Neusa, do cafetão Vado e do camareiro Veludo, que se envolvem em disputas de poder. O olhar de Azevedo, com Santos e os demais atores, Lucelia Sergio e Raphael Garcia, ressalta na dramaturgia a problemática do corpo negro, do racismo. Para o crítico Luis Carlos Merten, a versão é um “novo paradigma” para a obra de Marcos.

Em entrevista, Santos comentou o que pretendem trazer: “Creio que seja interessante apresentar um breve histórico de nossas pesquisas e concepções estéticas sobre a presença do negro na cena e na sociedade contemporâneas, para que se demonstre, por um lado, a existência de uma ‘tradição’ histórica do teatro preto no Brasil e no mundo; e, por outro, as características de nossos desejos de criação artística”.

Ainda mais, tratarão de “alguns pontos relativos à escolha de Navalha na Carne e como esse texto coincide com nossas pesquisas; assim como um relato sobre aspectos significativos de nossa montagem, como a performance, o conceito da encenação, a economia na direção de arte e a utilização do aparato técnico do audiovisual”.

Leia mais abaixo o depoimento de Santos sobre a primeira temporada da peça, que ocorreu no Teatro da Universidade de São Paulo (Tusp).

José Fernando Peixoto de Azevedo é diretor, dramaturgo e pesquisador. É doutor em estética e filosofia contemporânea pela Universidade de São Paulo (USP), tendo tratado da obra de Bertolt Brecht (1898-1956) na sua tese. Criou o grupo Teatro de Narradores, que atuou até 2017. Colabora com Os Crespos e é professor da Escola de Arte Dramática da USP. Também atua como curador de festivais, seminários e encontros.

Rodrigo dos Santos é ator, diretor, pesquisador, contramestre da Escola de Capoeira Angola Marrom e Alunos, na cidade do Rio de Janeiro, e ogã do terreiro Ilè Omiojúàró, em Nova Iguaçu, no estado do Rio. É bacharel e mestre em filosofia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). É também diretor artístico da Cia. dos Atores, tendo atuado em mais de 40 espetáculos, além de trabalhos audiovisuais.

O Encontro com o Espectador é uma série de conversas entre críticos, artistas e o público sobre um espetáculo, realizado em parceria com o site de crítica teatral Teatrojornal – Leituras de Cena, criado em 2010.

Rodrigo dos Santos: Sobre a primeira montagem de Navalha na Carne Negra

Considero que tenha sido ótima sob diversos aspectos. Em primeiro lugar, o texto é rico de humanidade. E, ao confrontar essa riqueza com o problema da hierarquia de classes em nossa sociedade, por si mesmo ele já gera um impacto, cujo sentido mais contundente talvez seja o de nos levar a crer ou a ter a triste certeza de que vivemos o processo de um estigma social irreversível, dado o estado de indigência econômica, psíquica e moral em que se encontram as figuras da peça. Esse impacto que o texto causa se apoia na composição de situações de agressão, seja ela física ou psicológica, de caráter machista e homofóbico. Sendo assim, é incontestável o fato de sua atualidade – o texto fala para nossa época –; e a recrudescência da moral reacionária que observamos como um fenômeno mundial indica que esse texto não deixará de ser contemporâneo tão cedo.

Quando levamos essa potência para o palco, não poderíamos deixar de fazer um espetáculo igualmente impactante. Para fazer jus ao texto, ao nosso tempo e a nós mesmos. Talvez tenhamos corrido algum risco. Apostamos, contudo. E me sinto à vontade para dizer que fomos bem-sucedidos, apesar de ter a plena certeza de que, se não houver, daqui para a frente, empenho, compromisso, concentração, criatividade, sabedoria, estratégia, responsabilidade e os caminhos abertos, dificilmente manteremos o nível, a qualidade e o alcance do nosso trabalho.

Em segundo lugar, preciso falar do encontro que tornou possível essa criação. Quando reunimos direção e elenco, a Navalha de Plínio só poderia cortar mesmo – e necessariamente – a nossa carne negra. Cada um e uma traz consigo a experiência de uma formação teatral que se ocupa eminentemente do problema negro. Isto é, da questão que pergunta pelo sentido do que é ser negro – para nós, como indivíduos e coletividade, para o teatro e para a sociedade hegemônica. Cada um de nós, a partir de sua respectiva trajetória, vem há mais de dez anos elaborando essa questão. Imbuídos de afinidades e diferenças no tocante às linhas de pesquisa e aos processos de criação, logramos alinhar nossas diversas perspectivas, movidos pelo desejo de realizar um trabalho próspero, potente, sedutor, inovador e de qualidade.

Para realizar esse trabalho, o que gostaria de citar como terceiro ponto, tivemos, por um lado, o precioso respaldo de uma equipe técnica amiga e competente, que apostou e investiu no projeto tanto quanto nós, elenco e direção. Posso dizer que todos nós, técnicos e artistas do projeto, estamos muito envolvidos com nosso trabalho, por termos a convicção de sua qualidade artística e de sua pertinência sociopolítica. Por outro lado, a parceria com o Tusp foi providencial. Veio no tempo certo, porque foi a disponibilidade de uma pauta no Tusp que serviu de estímulo principal ao agenciamento de nossa montagem. Além disso, a equipe de lá foi bastante solícita e nos deixou bem à vontade no espaço.

Em quarto e último lugar, preciso falar das respostas de público e crítica. Tivemos a boa sorte, o privilégio e a graça de receber na plateia, espontaneamente, o crítico Luiz Carlos Merten, afirmando no Estadão que nosso trabalho “cria novo paradigma para o texto de Plínio Marcos”. Tivemos também a crítica de Paulo Bio Toledo dizendo na Folha que o “elenco excelente marca adaptação de peça de Plínio Marcos sob viés racial”. Além dessas, recebemos outras críticas igualmente generosas. E o público, generoso e interessado, que lotou nossa temporada no Tusp, sempre demonstrou sair das sessões profundamente impactado.

Esse é o motivo da maior alegria com nosso trabalho. Perceber que foi desse jeito que ele reverberou no público. Esse impacto significa que gestos, ação e encenação passaram beleza e repugnância e que as palavras reverberaram em toda a sua espessura e densidade. Creio que uma das provas desse impacto se encontre nos números de nossos borderôs. Posso dizer que em média lotamos todas as sessões (a capacidade máxima de cada uma era de 72 cadeiras). Ao longo de 17 apresentações, tivemos um público de 1.264 pessoas, o que dá em média 74 pessoas por apresentação. Por tudo isso, eu acho que nossa experiência no Tusp foi ótima.

Encontro com o Espectador [com interpretação em Libras]
domingo 30 de setembro de 2018
às 15h
[duração aproximada: 120 minutos]
Sala Vermelha (piso 3) – 70 lugares

Entrada gratuita

distribuição de ingressos
público preferencial: uma hora antes do evento, com direito a um acompanhante – ingressos liberados apenas na presença do preferencial e do acompanhante | público não-preferencial: uma hora antes do evento, um ingresso por pessoa

[livre para todos os públicos]

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