por Heloísa Iaconis

Não raro há ainda quem reproduza a mácula sisuda: moda é pedaço de futilidade, asneira de gente rasa. Raciocínio torto, o qual muitas vezes amplia o erro ao se aliar a afirmações machistas e outras tantas que defendem dado padrão de beleza. O campo de tecidos e modelos, porém, não deve ser preso a velhos estereótipos. Deve ser espaço democrático e de invenção: vivências e ideias vestidas, carregadas como escudo ou abre-alas. O ensaio fotográfico aqui posto é resultado dessa torrente de questões, com o objetivo de propor novas formas de perceber peças, cortes e cores.

O projeto faz parte do quinto número do Entreolhares, ciclo que, desde 2014, arma encontros de profissionais com estudantes e demais interessados em veredas distintas da chamada produção artística. Organizada pelo Núcleo de Artes Visuais do Itaú Cultural, a iniciativa já abordou, em anos anteriores, temas como edição de vídeo em tempo real, construção fotográfica e relações entre arte e arquitetura. Em 2018, o mastro se volta para a formação de afetividades, exercício imprescindível para que seja construída uma sociedade mais empática.

A fagulha para tal assunto se deu a partir de um convite do Explode!, grupo que pesquisa e experimenta noções de gênero, raça e classe, além de mobilizar falas e práticas em torno de corpos fora da dita norma hegemônica. Sob a batuta dos curadores Cláudio Bueno e João Simões, o coletivo promove debates por intermédio de performances culturais, baseados em um filamento essencial de toda arte: refletir acerca dos laços do eu com o próximo.

No caso da parceria com o Entreolhares, a proposta foi um workshop de customização de roupas para shows e trabalhos no meio audiovisual. Comandada pelo estilista Fábio Kawallys (profissional que já foi responsável por figurinos de Ivete Sangalo, Pabllo Vittar, Anitta, As Bahias e a Cozinha Mineira, entre outros nomes), a atividade ocorreu nos dias 10, 11 e 12 de abril de 2018. Nesse período, no Itaú Cultural, o multiartista compartilhou conhecimentos e prezou pela troca coletiva a fim de que os participantes criassem vestimentas que os refletissem.

O público da oficina foi constituído por aqueles que se inscreveram previamente e por meninas da Casa Florescer, centro de acolhida de mulheres trans e travestis localizado na cidade de São Paulo. A instituição, aliás, uniu o Entreolhares à programação de Todos os Gêneros: Mostra de Arte e Diversidade, cuja quinta edição traz como mote a vida soropositiva.

A cooperação entre as áreas de Artes Visuais e Artes Cênicas costurou os dois eventos, e dessa maneira o espetáculo Divas Florescer, de Márcio Telles, passou a fazer parte das ações da mostra. A apresentação é resultado de uma aula de teatro ministrada às moradoras da Casa Florescer. Trechos dessa montagem serão levados por elas ao Teatro de Contêiner, sede da Cia. Mungunzá, palco do Cabaré Todos os Gêneros. A festa, no dia 19 de maio, às 23h, brindará o elo entre todos os envolvidos em ambos os projetos.

Cliques e mais cliques

A sessão de fotos, estrelada pelas moças da Casa Florescer, coroa uma trajetória de sinergia, na qual vários foram os agentes: Entreolhares, Todos os Gêneros, Explode! e Teatro de Contêiner, fora a ONG-lar. Alianças que, no fundo, são fortes por carregarem princípios comuns: o respeito à pluralidade e a propagação da importância de ter, no íntimo e no âmbito social, afeto.

Para as poses em frente à câmera, as modelos vestiram as roupas que customizaram no workshop com Fábio Kawallys. No intervalo entre uma imagem e outra, elas também falaram sobre o impacto causado por esse conjunto de vivências até então inéditas. Conheça as protagonistas dos cliques e confira, logo abaixo, os seus relatos.

De chapéu e tudo

Em seus 29 anos, Rafaella Ferreira nunca pensou que teria um rebatedor de luz em sua direção. “Eu me senti ainda mais importante”, afirma ao se referir às imagens produzidas. A blusa que criou durante a oficina traz pilares firmes: música e conforto. A primeira por ser gosto antigo; o segundo, elemento indispensável quando se há de escolher o que vestir. “Participar do workshop me abriu a visão: aprendi a construir, a refazer, a reciclar, a ter atenção ao processo de descarte de peças. Essa oportunidade serviu para tirar escamas dos meus olhos”, reflete Rafaella. “Acredito que devemos usar o que nos agrada, não o que agrada aos outros.”

“Sim, claro!”

Esse é o bordão que, vire e mexe, ganha a boca de Byanka Rios. “Descobri um dom, aos 38 anos, que não sabia que existia dentro de mim: o dom de enfeitar roupas”, diz com entusiasmo. Devido a tamanho achado, o sentimento de gratidão é enorme: “Todas as criações ficaram maravilhosas! Não tenho palavras para agradecer”. A energia e a disposição, empreendidas desde a colagem de lantejoulas até as caras e bocas nos enquadramentos, mantêm-se na luta contra a discriminação: “Muitos pensam que travesti só serve para ficar na beira da estrada. Você nunca vê na mídia travesti na posição de estudante ou tirando fotos. Por isso que, para mim, é incrível poder me envolver nesse projeto”. E será que Byanka aproveitou cada minuto desses dias? A resposta é certa: “Sim, claro!”.

Strike a pose!

Ela e as lentes parecem possuir namoro de longa data. Isadora Messias, de 24 anos, esbanja tanta desenvoltura que colaborou em dois ensaios: neste, porção do Entreolhares, e no que integra a publicação impressa da mostra Todos os Gêneros. “Foi enriquecedor e divertido”, resume. Amante da moda, valeu-se dessas chances para aprender técnicas e trabalhar conceitos, ferramentas dirigidas à representação do que foge do comum. “Gosto daquilo que é diferente. A minha blusa sintetiza esta preferência: corte diferente, mais colorida. O Fábio sempre alertou que moda é ser livre. Guardei isto: a liberdade. Liberdade de inovar para si mesmo”, afirma. Além de sustentar o próprio invento, a jovem usou ainda a camiseta de Paloma, amiga que atuou no workshop, mas não foi fotografada por motivos pessoais.

Combinação de cores

De acordo com o RG, Victoria Assis é a mais nova da equipe: a chegada dos 18 anos trouxe consciência substancial de alguns dos lados perversos da realidade. “Quem é trans se acostuma aos olhares nas ruas: olhares de fetiche, de ódio, de curiosidade”, analisa. Habituada ao que existe de ruim no humano, a garota viu com alegria a recepção no Itaú Cultural e nos arredores: “Fui tratada com olhar natural”, comemora. Alerta aos jeitos de ver, garante que usaria a peça que produziu para estimular a sociedade a tirá-la da invisibilidade: a estampa junta a bandeira trans às flores, símbolo da sua casa atual. Para os registros, contudo, optou pela sobreposição do branco ao vermelho. Vermelho que casa com a bolsa e o batom. E a sede por um mundo que abrace todas as cores.

Medo? Não!

Receio é um termo que não assusta Dielly Cassimiro. Se bobear, nela nem cócegas faz. A moça de 24 anos é valente: equilibrou-se no muro de um terraço como se caminhasse em chão sólido. A coragem alinha-se ao teor mágico da experiência. “Fantástica em cada detalhe: desde a ida à lanchonete até as fotografias”, enfatiza. “Eu só conhecia a feiura de São Paulo. Tive problemas com drogas e, por essa razão, a cidade para mim era onde havia fluxos de entorpecentes. Estou tão feliz por conhecer outra São Paulo, por morar na Casa Florescer, por estar aqui. Foi a primeira vez que vim à Avenida Paulista”, celebra. A vestimenta que concebeu reúne os seus esteios: amor e fé. Corações, crucifixo e o vocábulo dão o tom do recado. Nessa empreitada, Dielly dançou bastante, engrossou o caldo do público GLS e teve contato com pessoas ricas, ricas em perspectivas.

Ultrapassar o papel

Escreve versos, pinta aquarelas, desenha tirinhas: a paixão por arte é, em Suzy Muniz, evidente. Mas aos 26 anos ela não se contenta com o registro carimbado no papel: há de ir além. “Tenho um amigo querido que repete uma frase que ficou em mim e que assinalei na blusa: ‘Palavras não salvam vidas; ações, sim’. Atitudes, enormes ou pequenas, modificam o mundo”, sentencia. A seu ver, como transexual, ocupar espaços artísticos é um dos modos de sair do mero palavrório. “É um posicionamento fundamental para que eu siga as minhas ideologias, baseadas no fato de que todos devem ter direitos iguais”, afirma. A camiseta acompanha uma jaqueta que por pouco não foi parar no lixo: durante a oficina, Suzy começou a questionar a sua faceta consumidora e percebeu não compactuar com o consumismo exagerado.

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O espetáculo aborda a violenta realidade das mulheres trans e travestis da década de 1980 aos dias atuais
onde: Itaú Cultural