Por Cassiano Viana

Diferenças e semelhanças entre cidades são uma grande potência para pensar, revelar e inventar significados para a vida doméstica e as formas de habitar nos dias de hoje. Essa é a premissa fundamental de Domesticidades, workshop que será ministrado, durante o IV Fórum Latino-Americano de Fotografia de São Paulo, por Renata Marquez e Wellington Cançado, professores de design e arquitetura na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e pesquisadores do grupo Cosmópolis.

Em 2010, a dupla publicou Domesticidades: Guia de Bolso, livro que apresenta imagens de espaços domésticos encontradas em websites de corretoras de imóveis de Belo Horizonte. Seguindo a mesma proposta da publicação, a ideia é investigar coletivamente, durante o workshop, as intimidades anônimas de São Paulo por meio do exercício de uma etnografia remota, no limite entre o público e o privado, entre a realidade e a ficção.

Registro do workshop Golpe de Luz, parte da 3ª edição do Fórum Latino-Americano de Fotografia de São Paulo (2013)

"Queremos descobrir, conhecer e pensar uma São Paulo que ainda não sabemos existir. Nem nós, que vivemos em outra cidade, nem mesmo os participantes, [que podem ser] moradores da capital paulista", diz Wellington Cançado. Para o pesquisador, São Paulo – assim como qualquer outra cidade – se revela em seus aspectos mínimos, em suas idiossincrasias, em seus detalhes e suas particularidades tornadas públicas voluntariamente pelos interessados na venda ou no aluguel de espaços, em plataformas digitais que só existem pela sua finalidade comercial.

"Nesse sentido, os limites entre o público e o privado já estão dados e são tensionados o tempo todo. As próprias palavras que usamos já nos lembram disso, e não somente porque temos a vida íntima e a privacidade publicizadas com interesse privado, mas porque passamos a cada momento, a cada clique e a cada novo imóvel pesquisado na internet – aquilo que chamamos de etnografia remota –, de reações subjetivas, afetivas e pessoais para o âmbito da objetividade fria, instrumental e anônima do '.com'", explica Cançado.

Segundo ele, não somente coexistem a cidade pública (da propriedade, do lote para fora) e a cidade privada, doméstica, como também coexistem espaços, significantes e imagens que oscilam constantemente entre o real e o imaginário, entre a verdade e a ficção. "Ficção altamente explorada pelas empresas, não só nos conceitos dos imóveis negociados, mas também na publicidade altamente desvinculada do contexto e da realidade local", afirma.

Voltando à diferença entre as cidades, Cançado lembra que, comparando-se Belo Horizonte a São Paulo, enquanto a primeira é uma cidade jovem (com pouco mais de cem anos), planejada e muito homogênea, a capital paulista acumula camadas históricas espaciais que se refletem em uma diversidade enorme de formas de habitar. "Além disso, temos em São Paulo a condição de uma megalópole com sua escala monstruosa, contradições, rupturas e superposições entre o urbanizado, as periferias, os subúrbios militarizados, as pequenas cidades e as áreas rurais fagocitadas pelo avanço da cidade", observa.

O workshop Domesticidades acontece durante o IV Fórum Latino-Americano de Fotografia de São Paulo, entre os dias 16 e 19 de junho, na Sala Vermelha e no piso -2 do Itaú Cultural. As inscrições estão abertas até o dia 3 de abril, pelo site www.itaucultural.org.br/forumfoto2016.

 

Workshop Domesticidades – IV Fórum Latino-Americano de Fotografia de São Paulo
quinta 16 a domingo 19 de junho de 2016
9h30 às 12h30 e 14h às 17h (16 a 18 de junho) | 10h às 13h (19 de junho)
Sala Vermelha (piso 3) e piso -2

Entrada gratuita – inscrições pelo site www.itaucultural.org.br/forumfoto2016, até o dia 3 de abril