Por Cassiano Viana

No futuro, a memória oral do mundo será a imagem. "A história será contada através das fotografias. O Instagram e o Facebook serão o gossip; e o fotolivro, o romance", vislumbra Iatã Cannabrava, idealizador e coordenador do Fórum-Latino Americano de Fotografia de São Paulo, realizado pelo Itaú Cultural.

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"Em um mundo em que todos fotografam, quem edita é rei", afirma o fotógrafo. "Daí a necessidade de uma fotografia como pensamento, de um ato fotográfico que pense antes de existir, que tenha um roteiro, que parta de uma ideia, que provoque uma reflexão e que sirva de documento para o futuro."

Um dos mais importantes curadores e gestores culturais da América Latina – e, principalmente, um dos grandes divulgadores da fotografia e incentivadores do pensar fotográfico no Brasil –, Iatã é filho de exilados políticos. Seu primeiro contato com a fotografia se deu aos 15 anos, em Cuba, quando ganhou de um professor e amigo uma câmera russa de plástico, que acabou derretida pelo sol na traseira de um carro.

"Nasci militante", costuma dizer. "Vivi minha infância e minha adolescência percorrendo a América Latina e acompanhando o exílio político dos meus pais, que fugiam da ditadura militar no Brasil."

E, se essa vivência contaminou sua maneira de ver o mundo e de se comunicar com ele, ainda explica a missão de Iatã de materializar, por meio do fórum, um legado consistente para a fotografia na América Latina. Um legado de resistência e continuidade.

"O fórum materializou uma rede latino-americana de fotografia que não existia. Uma teia, hoje, cada vez mais densa, eficiente, orgânica e que une profissionais da região e do mundo", comemora, acrescentando que o objetivo do evento neste ano é consolidar uma instituição que reúna os profissionais ligados ao fazer cultural da fotografia na América Latina.

Iatã Cannabrava (Foto: Ekaterina Kholmogorova)
Iatã Cannabrava (Foto: Ekaterina Kholmogorova)

 

 

Qual é o papel da fotografia hoje?

A fotografia tem uma origem marginal, de ofício. Não faz muito tempo, ela não entrava nos museus nem frequentava as galerias de arte. Hoje ela tem esse espaço, mas sofre dois grandes movimentos, com o boom de imagens nas mídias sociais e com a transformação da fotografia em suporte para artistas visuais.

Além disso, é preciso diferenciar o fotógrafo profissional – o fotógrafo de ofício – do fotógrafo contador de histórias. As histórias do futuro serão todas contadas por imagens. No futuro, a grande memória oral do mundo será a imagem. O Instagram e o Facebook serão o gossip; e o fotolivro, o romance.

Daí a necessidade de uma fotografia como pensamento, de um ato fotográfico que pense antes de existir, que tenha um roteiro, que parta de uma ideia, que provoque uma reflexão e que sirva de documento para o futuro. Em um mundo em que todos fotografam, quem edita é rei.

O tema do fórum neste ano é A Fotografia como Pensamento, com uma reflexão sobre o conceito de arquivo. A que se deve esse maior interesse pelas imagens de arquivo?

No momento em que os artistas começaram a produzir suas visões com um olhar contemporâneo, reciclando fotografias de arquivo, buscando no passado uma ressignificação, eles livraram as imagens de arquivo de uma morte anunciada. Infelizmente, o arquivo fotográfico não é uma prioridade dos governos, pois se trata, muitas vezes, de indícios de atrocidades cometidas, erros históricos, absurdos políticos. É da maior importância que a imagem de arquivo ganhe vida através da ressignificação dos artistas.

Qual é o balanço que você faz do Fórum-Latino Americano de Fotografia de São Paulo?

O principal papel do evento sempre foi romper fronteiras. O fórum materializou uma rede latino-americana de fotografia que não existia. Uma teia, hoje, cada vez mais densa, eficiente, orgânica e que une profissionais da região e do mundo. Ao longo dos anos, consolidamos uma rede de relacionamentos, colocando os protagonistas da fotografia latino-americana em contato com outros autores, autores com editores, curadores, instituições.

O objetivo neste ano é consolidar uma instituição, uma associação de classes internacional de profissionais ligados ao fazer cultural da fotografia na América Latina, reunindo fotógrafos, curadores, editores, printers, cenógrafos, produtores culturais e gestores da fotografia e da imagem. Queremos que o fórum materialize um legado consistente para a fotografia na América Latina. Um legado de resistência e continuidade.

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