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  • Erica Mizutani, artista responsável pela obra que ilustra a fachada do Itaú Cultural

    26 de abril de 2017

    por Amanda Rigamonti

    Erica posa junto à sua obra, finalizada após dois dias de trabalho. Foto: André Seiti

    Erica posa junto à sua obra, finalizada após dois dias de trabalho. Foto: André Seiti

    Nos dias 10 e 11 de abril o banco de entrada do Itaú Cultural ganhou cara nova: a artista Erica Mizutani encheu o espaço com suas cores e formas. Durante dois dias a artista pintou o banco com a ajuda de seus irmãos, Camila e Arthur Mizutani. O trabalho faz parte de uma ação do instituto que pretende trazer diferentes artistas para ilustrar o espaço.

    Desde o design gráfico e a edição de arte até diferentes técnicas de ilustração – no papel, na parede, em objetos etc. –, Erica conta que foi desenvolvendo seu trabalho de maneira muito espontânea, sem ter feito cursos, e comenta o quanto isso foi importante na formação de seu estilo de arte. Em entrevista, a artista fala sobre sua carreira, seus personagens, como a vida pessoal interfere no trabalho e, por fim, como foi pensada a obra que colore a fachada do Itaú Cultural.

    Como começou esse seu trabalho de arte urbana? O que a influenciou?
    Eu não considero muito o meu trabalho como arte urbana ou grafite, porque há várias vertentes desse tipo de trabalho de arte urbana. O meu se encaixa em algum lugar que eu ainda não sei; está meio entre o design e a arte, arte misturada com ilustração, mas o começo mesmo da minha carreira foi muito ligado à ilustração e à editoração. Trabalhava com diagramação de revistas e livros, e depois trabalhei com uma editora de arte. Nesse tempo comecei a ilustrar para as revistas e os livros que eu fazia, e às vezes o borderô era baixo e não tinha como pagar um ilustrador, aí acabava criando as artes para essas mídias.

    Por outro lado, eu também tinha sempre em casa alguma arte pintada numa parede, porque gostava muito de plataformas gigantes, maiores do que uma tela, só que o mercado ainda não conhecia esse tipo de trabalho; não era muito comercial, era mais a arte de rua. Então eu fazia em casa mesmo e, tendo esses dois tipos de trabalho – tanto como ilustradora quanto como editora de arte –, acabei partindo para esse tipo de trabalho com mais facilidade, de murais e telas. Foi quando comecei a pintar e acabei deixando um pouco o trabalho digital, fui largando devagarzinho.

    E você tem desejo de passar para outras pessoas essas suas técnicas de trabalho?
    Na verdade, eu sempre tive um pouco de receio em oferecer oficinas ou cursos, porque nunca fiz curso nenhum – desde pequena até hoje, o que aprendi foi espontâneo, convivendo com os materiais em casa. Acabei optando por não fazer nenhum tipo de curso. Inclusive, saí da faculdade nos primeiros seis meses. Como eu cheguei a conquistar algumas coisas mesmo não sabendo a parte técnica acadêmica, acho que acabei alcançando um resultado legal, e talvez essa coisa do espontâneo tenha gerado o meu estilo, que é um pouco mais orgânico, uma coisa muito minha.

    O curso que penso em dar não é exatamente um curso, mas um bate-papo, e é mais sobre essa parte da espontaneidade mesmo, porque eu acho que você consegue estimular pessoas que não estão com vontade de seguir alguma linha ou algum curso específico, sabe? Mas que queiram vivenciar os materiais e começar a criar dentro de casa.

    Como os diferentes lugares em que você morou ou que visitou influenciaram o seu trabalho?
    Eu nunca morei no Japão, mas já fui umas três vezes para lá; já mudei de casa também umas 15 vezes, de casa, cidade, bairro… Acredito que essas referências da minha vida influenciam bastante no meu trabalho. Não muito esteticamente falando, mas na parte de não se apegar demais às coisas. Então estou fazendo um estilo de que gosto, mas consigo logo na sequência fazer outra coisa, mesmo tendo de desapegar do estilo que estava usando antes. É diferente de antigamente, quando os artistas queriam muito abraçar um estilo e seguir nele a vida inteira. Acho legal – pensando no momento em que vivemos hoje, da internet, de as coisas serem muito rápidas – o artista ousar mais e experimentar mais.

    Então essa coisa do desapego, de sair de um bairro, de uma cidade, mudar de amigos e mudar de escola o tempo inteiro, acho que isso enriqueceu minha atitude na hora de desapegar de um estilo, me apegar a outros, mudar, e a coragem de querer conhecer novos materiais, entende? Acho que influenciou mais na atitude do meu trabalho do que esteticamente falando. Inclusive tenho um amigo que é um street artista superlegal, e ele sempre fala que detesta artista que tem fórmula e que a repete sempre. Eu também, porque, apesar de eu ter uma linha que você olha e sabe que é meu trabalho quando o enxerga no todo, é um trabalho que percorre várias plataformas. Pinto no papel, na tela, na parede e em objetos.

    Você tem personagens que se repetem em determinadas situações. Eles têm alguma história?
    Eu tenho uma bonequinha chamada Mizulina. Ela aparecia mais algum tempo atrás; agora de vez em quando eu a desenho, mas uso muito para passar alguma mensagem, quando quero passar alguma ideia… Então, por exemplo, usei a Mizulina na época em que houve o desastre de Mariana, e é como se ela representasse uma esperança ou algo de bom por vir. Isso porque ela nasceu com rabiscos que fui fazendo quando meu filho mais velho ficou doente. Descobrimos que ele tinha uma doença incurável, uma doença autoimune, e foi no hospital em que fiquei com ele por uma semana que ela nasceu. O mais interessante é que não é um desenho depressivo ou uma coisa que represente a dor ou um momento ruim, mas é um desenho que representa a passagem do ruim para algo melhor.

    Existem também umas minhocas listradas. Na maioria das vezes em que pinto na rua, eu uso as minhocas. Esteticamente falando, elas meio que nasceram das pernas da Mizulina – parece engraçado, mas a Mizulina tem as pernas listradinhas e eu achei legal imaginar que é uma minhoca amiga dela, e poderia ter uma conexão visual bacana –, mas o conceito da minhoca também vem da procura de oxigênio. A maioria das artes nas ruas é feita em grandes cidades, onde tem muito concreto, e a frase principal que segue quando eu faço as minhocas – que chamo de Mizunhocas – é “Não sobrevivo no concreto”, porque é uma espécie de crítica, mas leve, porque não é uma escolha minha criticar com agressividade.

    Como ser mãe influencia no seu trabalho? Como seus filhos se relacionam com a sua arte?
    Um dos motivos para eu ter escolhido ser autônoma foi porque tenho três filhos, que já são até grandes, mas a trajetória toda foi em busca de estar mais em casa. Por mais que eu viaje e saia bastante por causa do meu trabalho, quem está sempre com eles em casa sou eu, e não uma terceira pessoa. Então, isso influenciou muito na escolha, para eu poder passar mais tempo com eles.

    E eles têm orgulho do meu trabalho, sabe? Por exemplo, eu participei do Arte Rua, o maior evento de grafite no Brasil. Foi no Rio de Janeiro e nesse dia fui a primeira mulher e a primeira pessoa a subir numa caixa-d’água enorme que tinha ali no bairro, que era na zona portuária, era toda enferrujada, um trabalho superperigoso, e meu filho do meio ficou muito orgulhoso, mais do que de qualquer outro trabalho que fiz, e repostou no Facebook dele, esse tipo de coisa.

    Como é ser mulher e estar nesse meio da arte de rua?
    É um meio bem machista. Você percebe que a maioria dos grupos/coletivos, senão os eventos de grafite, é formada 90% por artistas homens, e quando as mulheres são aceitas em algum evento geralmente é um evento que no título tem “mulheres” alguma coisa, como se estivessem dando lugar para a minoria. Eu participo muito de eventos/coletivos quando têm o título voltado para artistas japoneses, orientais ou mulheres, mas acho que devagarzinho a gente vai conquistando espaço, porque é mostrando mesmo que vamos conquistar, então é importante a gente mostrar nosso trabalho.

    Sobre o trabalho que você fez no Itaú Cultural, como foi esse processo, desde o convite até o resultado?
    Eu já tinha feito alguns trabalhos no Itaú Cultural e acredito que isso também foi um dos motivos para o pessoal ter me chamado, porque já rolou uma empatia, e aí a gente teve essa mesma conexão nesta vez. Eles me chamaram e me deram uma liberdade de criação que não encontramos em qualquer lugar. É muito louco, porque, quando você tem essa coisa do desapego que a gente comentou agora há pouco, quando alguém lhe dá uma liberdade total de criação, você consegue evoluir, e ainda numa plataforma como essa, que é um lugar de passagem, por onde passa muita gente, numa avenida importante, e o espaço também é importante. É gratificante conseguir fazer uma coisa que você quer, e você sente também que evoluiu esteticamente.

    O trabalho teve antes um estudo de cores e com formas mais voltadas para a natureza; isso não tem como desapegar porque é uma parte que está dentro de mim, e não é nenhum apego – na verdade, é a personalidade do traço. Acho que num visual completamente de concreto, cinza, uma arte colorida e que tivesse a ver com a natureza daria um impacto legal. As sobreposições, o fato de estar no meio da avenida, acho isso muito legal.

    Outra coisa muito legal é que existe uma parte abstrata também, e é o que estou buscando no meu trabalho. O abstrato vira formas diferentes, dependendo da pessoa que enxerga. Passou um senhor que viu um coração em uma folha preta que eu fiz com galhos brancos dentro. Ele falou para mim: “Isso é um coração, não é?”. E me mostrou que tinha acabado de fazer uma cirurgia no coração nesse hospital aí na frente [do instituto], o Santa Catarina, e isso foi muito legal. Tem também essa relação do abstrato, que é uma coisa que estou tentando buscar e que consegui colocar no banco do Itaú Cultural porque me foi dada essa liberdade e me trouxe essa surpresa.

    Como você entende a importância de a arte ocupar esses espaços públicos?
    Além do que já disse, tenho a sensação de que a poluição visual pode gerar uma organização em alguns pontos de onde você olha e, quando a plataforma do artista é grande, tipo um muro de 10 por 4 metros, ou mesmo esse banco, que tem quase 20 metros, ele agrada aos olhos no meio de tantos pedaços de informação. Não é apenas uma parede enorme cinza. Existiram naquele pedaço grande um estudo e uma organização visual. Acho que agrada porque a pessoa passa e vê aquilo como uma surpresa – porque a arte de rua surpreende, você não escolheu estar lá, você não escolheu ver aquilo como numa galeria, em que você entra e escolhe; então ela surpreende, ela pode passar uma imagem boa, ruim, triste… Mas, enfim, ela foi pensada.

  • Conheça a PretaLab, plataforma de mapeamento de mulheres negras e indígenas na tecnologia

    11 de abril de 2017

    por Amanda Rigamonti

    No dia 17 de março de 2017 o Olabi – organização social dirigida por mulheres que visa democratizar o acesso às ferramentas de inovação – lançou a PretaLab, iniciativa que pretende mapear o envolvimento de meninas e mulheres negras e indígenas nos campos da tecnologia.

    Lançamento do PretaLab

    Lançamento da PretaLab (Foto: Ian de Farias/Mídia NINJA)

     

    A ideia surgiu em 2016, segundo Silvana Bahia, diretora de projetos do Olabi. Ela conta que, ao frequentar eventos e espaços voltados para discussões relacionadas à área de tecnologia, percebeu a ausência de mulheres, especialmente negras e indígenas – fato que Silvana associa à falta de referências e de acesso. “A gente normalmente não tem muito esse acesso, essa condição de experimentar. A gente sempre tem de arrasar, ser o melhor e agarrar aquela única oportunidade que existe como se fosse a única coisa da sua vida”, diz.

    Assim, a PretaLab veio para encontrar essas mulheres e reuni-las para trocas nessa área. A diretora de projetos conta ainda que, entre as ações previstas após o mapeamento, pretende-se realizar uma série de vídeos com essas mulheres, buscando inspirar outras a ingressar na área, além de fazer a ponte entre elas e os espaços de formação que já existem.

    O mapeamento é constante, sem prazo de encerramento. No entanto, em três meses será feito um levantamento parcial sobre os dados coletados, para dar início às ações. É possível acessar o formulário neste link.

    Em entrevista, Silvana fala sobre o Olabi, a PretaLab e a importância de as mulheres ocuparem esses espaços e se apropriarem desses conhecimentos.

    Como surgiu o Olabi e qual é o objetivo da organização?
    A Gabi [Gabriela Augustina, fundadora do Olabi] costuma dizer que ela já estava trabalhando há algum tempo nessas caixinhas de inovação e tecnologia, mas sempre tinha percebido que esse mundo era – e ainda é – muito masculino, branco. E pensava em fazer um espaço para mulheres como ela, que não tinham muita sapiência nesse campo, e que aumentasse a representatividade e estimulasse outras mulheres a pensar em trabalhar com isso também ou que já estivessem nesse meio, mas se sentissem muito solitárias, porque isso é muito comum, infelizmente.

    A atividade principal do Olabi, atualmente, é o Clube Maker. São encontros e atividades que pretendem expandir as discussões referentes à tecnologia para além de onde já estão, nos grandes centros. A ideia é ser um lugar de experimentação, onde as pessoas compartilham ferramentas, marcas e conhecimento na área de manufatura digital. A nossa missão, na realidade, é trabalhar para a diversidade na produção dessas novas tecnologias, e para isso a gente tenta não trabalhar apenas com a linguagem conhecida nesse mundo geek, como o “arduíno”, mas sim entender um pouco o que pode ser interessante para as pessoas que são iniciantes e que não têm o menor contato com esse mundo.

    Além disso, atuamos com consultoria para projetos de inovação e cada vez mais temos trabalhado com conteúdo para espaços, sejam eles makers ou não. Por exemplo, temos uma sede no Cantagalo, uma favela no Rio de Janeiro, onde tentamos trabalhar alguns conteúdos entendendo a demanda da galera da comunidade. Recentemente a gente fez uma oficina de marcenaria, design de joias, focada em mulheres, e o público foram várias senhoras da comunidade, foi bem legal. Enfim, a gente tem atuado em algumas frentes, e agora estamos com essa iniciativa nova que é a PretaLab.

    Nessas outras iniciativas vocês têm um público definido? Ou vocês mudam de acordo com a proposta?
    Na verdade, na atividade do nosso espaço, que é o Clube Maker, o público é realmente muito diverso – vai desde pesquisadores até curiosos de “makerzões”, passando por pessoas que nunca ouviram falar disso, e também de lugares diferentes do Rio e de idades diferentes.

    No entanto, desde que surgimos, em 2014, temos como foco estimular mais mulheres na tecnologia, então a gente oferece bolsas a meninas e mulheres e também a pessoas oriundas de espaços populares e periferias. Assim, é uma forma que encontramos para trabalhar também essa diversidade que está muito ligada ao nosso discurso.

    Como a PretaLab surgiu e qual é a proposta da iniciativa?
    Na verdade nós estamos pensando essa ideia desde o meio de 2016. Quando eu comecei a trabalhar no Olabi e passei a circular bastante nesse meio tec, percebi que, além de ser pouca a quantidade de mulheres nesses espaços, nunca havia nenhuma mulher negra. Fiquei pensando no porquê de isso acontecer. Na verdade eu tenho dois achismos em relação a isso: a falta de referência e a falta de acesso.

    Então eu quis fazer um projeto, algo que estimulasse mais meninas a entrar nesse mundo. Porque, quando a gente pensa no Brasil e no povo negro, não tem uma memória de boas referências; sempre é uma memória subalterna ou o período da escravidão, e eu acho que a questão da autoestima é muito forte para o povo negro, e isso está totalmente ligado ao fato – e aí já faço um link com a cultura da experimentação, dessa ideia da cultura maker – de que a gente normalmente não tem muito esse acesso, essa condição de experimentar. A gente sempre tem de arrasar, ser o melhor e agarrar aquela única oportunidade que existe como se fosse a única coisa da sua vida. Isso é o que penso no geral sobre essa questão da negritude e das possibilidades para nós no Brasil.

    Eu comecei a pensar que gostaria de fazer um projeto que estimulasse essas meninas, só que na época eu imaginava um negócio um pouco mais ligado à formação, tentar criar um coletivo, um grupo, em que as mulheres pudessem trocar entre nós mesmas esses conhecimentos. Mas quando comecei a pensar na viabilidade disso foi um pouco difícil, porque eu não conhecia tantas meninas no Rio que estivessem nessa pegada, nesse mundo. Pelo menos dentro da minha bolha, eu nunca tinha conseguido contar nem dez meninas – não que não houvesse interesse… Estou falando de meninas que poderiam ser tutoras, porque eu acho que o interesse sempre teve.

    E aí pensei que teria de mudar a estratégia e comecei a procurar dados sobre mulheres negras nesse campo. Porque dados sobre meninas até existem, mas nunca os dados com recorte racial. Tem o recorte só de gênero, e eu acredito que, assim como outras questões, a gente tenta olhar de forma mais interseccional. Foi então que pensei que precisávamos primeiro entender se há mulheres negras nesse mundo – acredito que sim, mas acho que elas são invisibilizadas, então elas não aparecem, não estão no mainstream, não sei nem se conseguem se enxergar nesse lugar.

    Então eu me perguntei: nós somos poucas, mas somos quantas? A gente não tem a menor noção desse número, por isso lancei a ideia do mapeamento e a gente criou um projeto que tem apoio da Fundação Ford, a PretaLab. Neste primeiro momento – queremos crescer muito mais com ele, mas hoje temos muito mais perguntas do que respostas – estamos mapeando essas mulheres com um questionário aberto na internet chamando meninas negras e indígenas que atuam nesse campo. Inclusive ampliando um pouco essa noção de tecnologia, que não está ligada apenas a programar ou desenvolver um site ou às engenharias e às ciências exatas, mas também pensando nas produtoras de conteúdo – falando de youtubers, blogueiras, tentando ampliar esse leque, porque no Olabi a gente sempre entendeu tecnologia de forma mais ampla, então a tecnologia vai desde o crochê até a impressão 3D.

    O mapeamento serve para nos ajudar a entender onde estão essas mulheres e tentar levantar quais são as suas demandas, qual é o interesse delas nesse mundo, no que pretendem se aprofundar em termos de conhecimento, se isso tem a ver com uma oportunidade para novos trabalhos, com novas possibilidades para o mundo profissional. E na sequência queremos criar referências sobre essas meninas, inspirar outras meninas negras e indígenas para que elas possam ter isso no horizonte como uma possibilidade – e para isso faremos uma série de dez vídeos com essas meninas que vamos mapear.

    A ideia é com esses vídeos tentar atingi-las para influenciar, mas existe também a ideia de fazer algum tipo de curso?
    Por enquanto, quando entendermos mais ou menos as demandas que estão dadas ali pelas meninas a partir do formulário, gostaríamos de conectar essas meninas a espaços que já oferecem formação, entendendo que existem muitos desses espaços funcionando e acontecendo, mas que não trabalham com diversidade. Então a ideia é mais ser uma ponte e fomentar uma rede de outras mulheres, e aí sim criar espaços para que a gente possa trocar entre nós.

    O que também motiva muito a gente é pensar que este mundo está cada vez mais digital e que, se não conseguirmos entender o que são essas novas aplicações e este mundo que se apresenta, teremos pouquíssimas chances de intervir de fato no mundo, então é necessário demais que a gente olhe para as tecnologias como um fator de transformação social. Por isso, acho que a PretaLab, muito mais que um lugar de formação, é um dedo na ferida de falar que temos de olhar para isso e não mais deixar que só os homens brancos do norte dominem essas técnicas, mas sim que as mulheres negras do sul consigam entender e produzir, porque isso é protagonismo e só acontece se a gente forçar um pouco essa entrada e conseguir estimular outras mulheres para que também tenham interesse em entender mais esse mundo e ter acesso a ele.

    Ainda sobre o que você está dizendo, qual é a importância de as mulheres, especialmente negras e indígenas, se apropriarem desses espaços?
    Partindo um pouco dessa ideia de que as tecnologias não são neutras e estão cada vez mais permeando a nossa vida em tudo o que a gente faz, e se a gente não entender melhor como essas coisas funcionam, se as mulheres negras não estiverem nesse processo, se não existirem políticas para que elas estejam nesse processo, vamos perder totalmente nosso poder de integração no mundo. Então, se partirmos desse lugar em que as tecnologias não são neutras e estão carregadas de visões políticas, econômicas e culturais de quem as cria – e em que esse poder hoje está centrado mais nas mãos de homens, brancos, heterossexuais, classe média/ricos –, a gente já potencializa uma grande desigualdade se não faz nada em relação a isso, porque o mundo é cada vez mais digital… Se você não tem essa sapiência, se não consegue intervir nesse mundo, sempre vai estar à margem das decisões da sociedade.

    O projeto surgiu voltado para mulheres negras e vocês agregaram as indígenas?
    Na verdade, desde o início a ideia já nasceu com esse recorte, e isso tem muito a ver comigo, porque sou uma mulher afro-indígena, sou filha de negro com índio e, por dialogar muito pouco inclusive com a minha identidade indígena, quando a gente começou a pensar a PretaLab, eu até me perguntei se seria ruim o nome ser PretaLab tendo o recorte também para mulheres indígenas, mas depois preferi assumir isso pensando que é uma cultura que está cada vez mais, aparentemente, invisibilizada – e a gente sabe que é uma cultura riquíssima, sobretudo em conhecimentos técnicos, porque quando penso em tecnologia penso num conhecimento técnico aplicado. Então cadê essas mulheres?

    Há outros exemplos por aí de projetos superinteressantes de indígenas ligados à inovação, como a rádio Yandê, que é uma rádio indígena, então pensei que provavelmente pode haver outras mulheres indígenas nesse campo e também na ideia de visibilizar essa identidade que é muitas vezes apagada. O projeto nasce já com esse recorte muito porque eu demorei bastante tempo para entender que eu não era só negra, que eu também tinha sangue indígena. E mais do que entender, dialogar com essa identidade. Acho importante trazer isso para a cena também.

  • “Precisamos conhecer as variadas realidades negras”, defende O Menelick – 2º Ato

    4 de janeiro de 2017

    O legado de Abdias Nascimento é forte e ecoa. Para muitos, ele é visto como a personificação da luta antirracista no século XX no Brasil. A seguir, entenda como grupos que pensam questões raciais nos dias de hoje reverberam as principais ideias de Abdias sobre essa luta constante. Nesta entrevista, fala Nabor Jr., da revista O Menelick – 2º Ato.

    Logo - O Menelick

    Como você vê a luta atual contra o racismo e pela afirmação da identidade negra? O que tem mudado, o que ainda precisa mudar?

    Vejo que estamos em constante progresso no que tange ao protagonismo de novos atores e às formas de combater o racismo no Brasil, apesar da morosidade das nossas conquistas e da discreta adesão de não negros às nossas legítimas reivindicações.

    Observo também que muitas pautas que há tempos ocupam os debates dentro das comunidades negras mais combativas seguem em voga, uma vez que continuam mal resolvidas. Por outro lado, travam nossos avanços para outras discussões mais contemporâneas, igualmente urgentes, mas que dizem mais respeito aos anseios das novas gerações. Como exemplo, cito as discussões sobre as relações afetivas inter-raciais, as cotas raciais e a obrigatoriedade do ensino da cultura afro-brasileira em sala de aula, entre outras, que deveriam estar postas e solucionadas. Mas vejo que, para os detentores do poder e para aqueles que usufruem de algum tipo de privilégio por serem não negros, essas são discussões que nunca devem sair da pauta, pois mantêm os negros andando em círculos.

    É com otimismo que acompanho as criativas e espontâneas estratégias de luta pela afirmação da identidade negra protagonizadas nas periferias brasileiras, por jovens meninos e meninas, por mulheres e por atores que não se enquadram nos padrões heteronormativos estabelecidos por uma sociedade que cotidianamente os agride. Esses grupos têm dado novo vigor à nossa luta, iluminando novos caminhos de atuação no combate ao racismo na afirmação da nossa identidade negra. Eles também utilizam com desenvoltura as ferramentas digitais de que dispomos para ampliar o alcance dos nossos discursos, ao mesmo tempo que não encerram suas atividades na internet, ocupando espaços que lhes pertencem por direito, fazendo manifestações em ruas, escolas, eventos públicos, enfim, oxigenando a centenária luta que travamos.

    Hoje, a maioria do nosso povo já consegue se aceitar como é, ou seja, enquanto homens e mulheres negras com dignidade, passado, presente e futuro, com nossos cabelos enrolados, com nossos quadris largos. Reconhecem a beleza da nossa constituição física e da nossa capacidade intelectual. Aliás, chama a atenção o volume cada vez maior de homens e mulheres negras com mestrado, doutorado, com destacada capacidade intelectual de produzir e compartilhar discursos de empoderamento, assim como de construir novas possibilidades para as nossas reivindicações. Esse protagonismo na construção das nossas próprias narrativas tem sido determinante para nos entendermos enquanto sujeitos das nossas próprias falas e para ocuparmos os espaços sociais que nos são de direito.

    Ainda precisamos de mais unidade em nossas reivindicações e lutas. Mas precisamos também respeitar e reconhecer a diversidade que nos compõe, e a imensidão territorial em que vivemos, onde as realidades negras são variadas em suas extremidades.

    Como as atividades de O Menelick se encaixam nessa luta? O que vocês conseguiram transformar com seu trabalho?

    Com O Menelick 2º Ato, fazemos uma luta mais silenciosa – digo isso pois a leitura é uma arma silenciosa –, mas necessária, que se destaca por circular em diversas camadas sociais e por expandir a compreensão das pessoas quanto às inúmeras competências que acompanham o fazer negro ao longo dos anos.

    Nós nos orgulhamos muito de possuir uma produção de conhecimento cuja engrenagem, do começo ao fim, tem o negro como sujeito da sua própria história. Das definições das pautas, passando pelos colaboradores, até chegar ao leitor. Costumamos dizer que damos voz, vez, nome, número e CEP à vanguarda da produção cultural e intelectual do negro brasileiro, bem como jogamos luz nas histórias dos nossos que propositadamente foram deixadas pelo caminho. Ao colocar em circulação conteúdos que nos dignificam, acreditamos contribuir em diversos aspectos para o nosso povo. Por exemplo, despertamos em nossos pares as conquistas da nossa vida cotidiana ao revelarmos, sob a óptica negra, histórias do negro no Brasil e até mesmo ao propormos uma revisão da história oficial do país, que insiste em negligenciar a contribuição negra ao longo de todo o seu desenvolvimento.

    Quem lê a revista O Menelick 2° Ato, assim como quem teve a oportunidade ao longo da história de ter contato com a produção da imprensa negra, se transforma e observa o mundo de outra maneira. Diria até que descobre um novo mundo, ou novas maneiras de ver o mundo em que vivemos.

    Como lutar contra o racismo, seja na cultura, seja na política, seja no cotidiano? O que cada um de nós pode fazer?

    Essa luta se faz de inúmeras formas, na postura e no comportamento cotidiano, nas relações familiares, com nossos amigos, no ambiente de trabalho. Uma roupa, uma resposta, uma fotografia, um discurso são atos de luta contra o racismo dependendo da forma como são utilizados ou proferidos.

    O que cada um de nós pode fazer é lutar à sua maneira, não importa como ela seja, desde que seja.

    Como veem o legado de Abdias Nascimento? Conhecem seu trabalho, ele os influenciou de alguma maneira, traz algo que lhes interessa?

    Abdias Nascimento é um ícone para a comunidade negra mundial. Sua incansável trajetória de luta e sua produção intelectual são exemplos a serem seguidos. E olha que ele fez tudo o que fez em uma época muito mais difícil para os negros brasileiros. É difícil mensurar a contribuição dele para a população negra brasileira, tanto no teatro quanto nas artes visuais, na literatura, na política. Ele dignificou a figura do negro brasileiro ao redor do mundo, revelando nossa capacidade intelectual, nossas inquietações, nossa competência, e nos colocando na vanguarda do pensamento negro ocidental. Abdias Nascimento foi um dos grandes pensadores das relações raciais do século XX em todo o mundo.

    Nós, da revista O Menelick 2° Ato, somos filhos do Teatro Experimental do Negro, do Museu de Arte Negra, do Instituto de Pesquisas e Estudos Afro-Brasileiros (Ipeafro) e das demais realizações de Abdias, pois nos beneficiamos diretamente das ações que ele protagonizou, seja na formação de público negro para as artes, seja nas lutas que travou para tivéssemos reconhecidos nossos direitos, assim como por espalhar pelos quatro cantos do planeta a capacidade do negro brasileiro de estar na vanguarda da produção intelectual ocidental.

  • “O racismo no Brasil é escancarado, só não vê quem não quer”, afirma Afreaka

    28 de dezembro de 2016

    por Duanne Ribeiro

    O legado de Abdias Nascimento é forte e ecoa. Para muitos, ele é visto como a personificação da luta antirracista no século XX no Brasil. A seguir, entenda como grupos que pensam questões raciais nos dias de hoje reverberam as principais ideias de Abdias sobre essa luta constante. Nesta entrevista, falam Flora Pereira e Natan Aquino, da agência Afreaka.

    Afreaka

    Como você vê a luta atual contra o racismo e pela afirmação da identidade negra? O que tem mudado, o que ainda precisa mudar?

    A resistência negra continua forte, como sempre esteve. Ao longo da história foram muitos os homens e as mulheres negras que resistiram, como Dandara, Carolina Maria de Jesus, Zumbi e o capoeirista baiano Besouro Mangangá, entre outros. Nos tempos atuais, a luta ganhou outros contornos, inspirados em mais nomes, como Luiza Bairros, Sueli Carneiro, Hélio Santos, Carlos Moore, Djamila Ribeiro, o professor nigeriano e Nobel de Literatura Wole Soyinka e a escritora moçambicana Paulina Chiziane. O acesso de parte da população negra às universidades, à informação e às artes aumentou de forma considerável. Primeiro pela determinação de sempre, que levou à implementação de ações afirmativas. Não como um ato de bondade de governos, mas como o resultado de uma briga incansável por direitos e pelo mínimo de igualdade.

    Mas ainda há muito o que mudar. A sociedade branca ainda precisa entender e abrir mão de seus privilégios, precisa entender que ela protagoniza sim o racismo e que deve refletir e alterar sua postura. A violência policial ainda mata nossos jovens, especialmente os homens, e a violência de gênero mata sobretudo as mulheres negras. As cadeias e as camadas sociais menos favorecidas ainda são formadas por uma maioria negra. E o racismo está solto e bem perceptível. Dizer que o racismo é velado no Brasil é absurdo. Ele é muito escancarado, só não vê quem não quer.

    Como as atividades da Afreaka se encaixam nessa luta? O que vocês conseguiram transformar com seu trabalho?

    Nosso grande objetivo é e sempre foi a quebra do estereótipo negativo sobre a África, que se formou como reflexo de uma sociedade racista. Procuramos quebrar esse preconceito em várias camadas: educacional, social, midiática. Assim, tentamos atuar em diferentes áreas, trabalhando para que o conteúdo do projeto seja cada vez mais acessível, não apenas no mundo das mídias sociais, mas também em escolas, bibliotecas, exposições e festivais. Com isso, procuramos a valorização da cultura africana e que as pessoas se conscientizem sobre a forte influência que ela tem em nossas vidas. A ideia não é discutir apenas o continente africano, mas sobretudo a sua produção cultural e intelectual, enxergando-o como um espaço ativo, protagonista. Ao desmistificar a imagem estereotipada do continente, rompe-se um fluxo de informação negativa que permeia o conteúdo hoje disposto em parte das redes de ensino e das grandes mídias brasileiras. Tentamos falar do outro lado da história, muito menos abordado: uma África proativa, inovadora, positiva e que, ao nos indicar muitos exemplos a serem seguidos, quebra uma linha pejorativa atribuída à cultura africana e afro-brasileira.

    A proposta também é reforçar de maneira extracurricular a Lei nº 10.639/03 – que obriga o ensino da história e da cultura afro-brasileira nas escolas e ainda não foi implementada de maneira integral –, ao trazer um conteúdo inédito no Brasil. A linha editorial procura trabalhar o olhar do brasileiro sobre si mesmo e a ligação do país com o continente africano. Somente no nosso vocabulário são mais de 1.500 palavras de origem africana. Além de nossos costumes, linha de pensamento, higiene, tradições, culinária etc., que são intrinsecamente ligados à cultura do continente irmão. O Afreaka tenta suprimir parte dessa falta de conteúdo, principalmente sobre a contribuição histórico-social e cultural dos descendentes de africanos ao país, e desmitificar para o jovem a imagem passiva do negro e da sua história no Brasil – abordagem que constrói uma percepção problemática e racista no imaginário coletivo do próprio brasileiro, que deveria, desde o começo do seu processo de educação, enxergar a cultura negra como protagonista e formadora da sociedade atual.

    Como lutar contra o racismo, seja na cultura, seja na política, seja no cotidiano? O que cada um de nós pode fazer?

    É necessário que se admita a existência do racismo e o quão feroz ele é. Depois disso, é obrigatória a aplicação de medidas sociais de afirmação que busquem o mínimo de igualdade. Como indivíduos, é importante a pressão. A pressão para que mídia, empresas, governos e instituições educacionais trabalhem imprescindivelmente o tema, para que sejam mais representativos e dialoguem mais com a realidade brasileira, expondo o racismo existente, quebrando o mito da democracia racial e promovendo as culturas africanas e afrodescendentes.

    Como veem o legado de Abdias Nascimento? Conhecem seu trabalho, ele os influenciou de alguma maneira, traz algo que lhes interessa?

    Abdias Nascimento deixou um legado muito importante tanto para o movimento negro no Brasil quanto para a visibilidade da participação negra nas artes visuais e da cena. Para o Afreaka, ele foi uma das referências iniciais, sendo a primeira instituição visitada em busca de conhecimentos e parcerias o Ipeafro, fundado por Abdias com sede no Rio de Janeiro e que trabalha nas áreas de ensino, pesquisa, cultura e documentação. Temos grande admiração pelas lutas e pelas conquistas alcançadas ao longo de sua vida. Ocupamos nosso ambiente de trabalho com algumas de suas obras como forma de homenagem e referência.

  • “Colhemos os frutos deixados pelo Teatro Experimental do Negro”, diz Coletivo Negro

    26 de dezembro de 2016

    por Duanne Ribeiro

    O legado de Abdias Nascimento é forte e ecoa. Para muitos, ele é visto como a personificação da luta antirracista no século XX no Brasil. A seguir, entenda como grupos que pensam questões raciais nos dias de hoje reverberam as principais ideias de Abdias sobre essa luta constante. Nesta entrevista, fala Jé Oliveira, fundador do Coletivo Negro.

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    Cena de ‘Farinha com Açúcar ou Sobre a Sustança de Meninos e Homens’, com o Coletivo Negro | imagem: Ivson Miranda

    Como você vê a luta atual contra o racismo e pela afirmação da identidade negra? O que tem mudado, o que ainda precisa mudar?

    A luta está avançando aos poucos. Precisamos fazer a lei ser cumprida. Racismo é crime, e isso ainda precisa ser efetivado. É de se estranhar que em um país racista como nosso não haja casos de prisões por racismo, o que demonstra certo entendimento permissivo e despreocupado por parte das autoridades do país.

    Hoje temos um pouco mais de representatividade em áreas que contribuem para a formação de um novo imaginário, o nosso teatro está forte, a presença de negros e de questões negras nesses ambientes vem trazendo novas possibilidades de pluralização e invenção de mundos. Há 15 anos, isso não existia na cidade de São Paulo. Não temos público, temos irmãos e irmãs que compartilham proposições, dores, saberes e sonhos. Mas, de toda forma, ainda precisamos ocupar alguns lugares que nos são caros: lugares onde acontecem as tomadas de decisões.

    Como as atividades do Coletivo Negro se encaixam nessa luta? O que vocês conseguiram transformar com seu trabalho?

     As obras do Coletivo Negro atuam na instância do simbólico, na intenção de transbordar para o concreto. Nossa presença nos palcos da cidade contribui efetivamente para a democratização das possibilidades de representação e destitui um pouco o monopólio sobre a subjetividade e as representações teatrais. Isso é mudança efetiva feita com muito empenho coletivo por grupos como: Os Crespos, Capulanas Cia. de Arte Negra, Bando de Teatro Olodum, Grupo Quizumba, Caixa Preta, etc. Fazemos parte disso e estamos todos aliançados com esse avanço.

    Como lutar contra o racismo, seja na cultura, seja na política, seja no cotidiano? O que cada um de nós pode fazer?

    Lutar contra o racismo é algo cotidiano, é se impor na rua, não tolerar algumas ações, não achar natural ser seguido no mercado, por exemplo. É lutarmos pela efetivação da Lei nº 10.639/03, que versa sobre a obrigatoriedade do ensino de questões sobre a história e a cultura afro-brasileira. É efetivarmos e ampliarmos o direito a cotas. Existem muitos modos, desde os mais amplos e coletivos até os mais ligados às subjetividades. O racismo devastou todos os campos da nossa vida social e afetiva, então, descolonizar o olhar sobre si mesmo, sobre as suas características físicas, por exemplo, é combater o racismo assim que se olha no espelho, antes de se olhar no e pelo olho de alguém. É tudo muito complexo e profundo.

    Como veem o legado de Abdias Nascimento? Conhecem seu trabalho, ele os influenciou de alguma maneira, traz algo que lhes interessa?

    Sim, o Abdias foi e é importante para nós. Por meio do Teatro Experimental do Negro foi possível começar a pensar sobre a necessidade de se arquitetar um discurso em primeira pessoa, que nos tirasse da condição de objeto e da superficialidade com que o negro era representado em cena até a primeira metade do século XX. Estamos todos colhendo os frutos dessas pegadas deixadas por eles. As nossas preocupações iniciais ainda são muito próximas às do TEN.