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  • Maria Ó apresenta disco de estreia

    31 de maio de 2017

    por Victória Pimentel

    Maria Ó – para os mais próximos ela é Maria Fernanda ou Fefê – é cantora, violonista e educadora musical. Passou a infância e a adolescência em São José dos Campos e aos 18 anos, a contragosto dos pais, rumou para a capital, onde aprofundou seus estudos em música. Há dez anos morando em São Paulo, a artista apresenta seu disco de estreia, Dança Três, no palco do Itaú Cultural, no dia 1º de junho de 2017, às 20h.

    foto: André Seitifoto: André Seiti

    Em entrevista para o Fala com Arte, a cantora conta sobre sua trajetória, influências e processo de criação e gravação do primeiro álbum.

    Como surgiu seu interesse pela música?

    Eu estudava numa escola muito pequena, com pouquíssimos alunos. E rolava muita música ali – os pais dos meus colegas eram bem boêmios, sempre organizavam festas, e eu curtia aquilo, curtia tocar, cantar… E meus pais sempre incentivaram esse meu gosto. Quando pedi um violão, na hora eles disseram: “Vamo aí!”. Eu tinha 12 anos quando comecei a estudar violão popular e por volta dos 16 resolvi me apresentar em barzinhos. E aí eu tocava os clássicos: Cássia Eller, Djavan, Lenine, Zeca Baleiro, Paulinho Mosca, coisas que escutávamos lá em São José.

    Já em São Paulo, além de continuar estudando violão na Escola de Música do Estado de São Paulo (Emesp), você integrou o Grêmio Recreativo de Resistência Cultural Kolombolo Diá Piratininga. Como foi essa experiência?

    O Kolombolo foi um lugar importante mesmo. Eles desenvolvem um trabalho muito grande com o samba paulista. Quem me falou de lá foi a Anita Galvão, amiga e cantora que conheci na Emesp. Ela me contou que eles davam uma aula sobre compositores e eu fui. Eu já compunha bastante nessa época, mas não samba. Lá eu me aproximei um pouco mais da percussão: eu tocava um pouquinho de pandeiro, de cavaco, de tambor. Comecei a compor alguns sambas, frequentava sambadas.

    Era massa, ali vivi o samba paulista. Com o Kolombolo, eu me apresentei pela primeira vez em São Paulo. Foram as primeiras experiências de palco, com um grupo, o que era mais confortável. Tudo isso me aproximou muito da cultura popular e influenciou a minha construção musical. A canção “Filho de Ogum” [do disco Dança Três] eu compus quando estava lá.

    Sobre o que você costuma falar em suas composições?

    Normalmente escrevo coisas bem autobiográficas. Acaba que sempre é assim. Vi uma entrevista do Chico César em que ele dizia: “Quando a gente observa, ainda é a gente”. O diálogo que eu vejo, sou eu que estou contando. Eu, com as minhas experiências, com o que eu penso. Eu falo muito de amor, das minhas relações amorosas, de relações afetivas que têm sempre essa temática do “três”. E falo não só de amor, mas de amor dentro de um cotidiano. O disco, especificamente, fala muito disso: de São Paulo, desse cotidiano que eu acho, por vezes, muito perverso. A última música do CD, “Novembro”, fala sobre um desejo de sair disso.

    Como foi o processo de elaboração e de gravação do disco?

    Sempre falaram para eu gravar e essa ideia ficava na minha cabeça, mas nunca com força o suficiente. Mas aí chegou uma hora que não deu mais: existia aquela necessidade de estar para o outro, de tirar aquilo de você – e tirar aquilo de você não é só escrever a música, tocar e deixar em casa, guardado: tirar de você é, de fato, mostrar. Isso é meio contraditório para mim, pois eu gosto de me mostrar e ao mesmo tempo não. Mas aí uma hora virou papo sério. O Igor Caracas, produtor musical do álbum, e o Guilherme Kafé, coprodutor, mais do que toparam – eles disseram: “Vamos fazer o disco?”.

    Gravamos no Klaus Haus Studio, estúdio do Klaus Sena. Ele ouviu o som e gostou, e então começamos. Isso foi há quase três anos. Foi um processo superlongo. Tem a pré-produção, que era eu, o Igor e o Kafé fazendo os primeiros arranjos, dando forma para as músicas. O que já é muito louco porque até então eu sempre conheci minhas músicas “voz e violão” e de repente elas tomaram forma, viraram outra coisa. O processo de gravação é muito duro: é muito profundo em várias questões. É um trabalho coletivo, de troca em todas as esferas, de muita escuta e muita paciência. Processo de desapego total – nem sempre acontece o desapego, e tudo bem também porque são escolhas. Gravar as vozes também foi a maior loucura porque é o meu lugar a ser trabalhado. Tem a ver com eu me assumir cantora, me assumir artista, me assumir Maria Ó.

    Quais músicas você destaca no CD?

    Não é uma questão de gostar mais, mas acho que dentro do processo do disco algumas músicas me chamam atenção. Tem “Milonga de Fim de Festa”, que é uma das que falam bem claramente do cotidiano, da relação afetiva no cotidiano e que está linda. O Igor fez uma percussão fera, o Kafé fez um violão barítono lindo e ainda tem a Mari Corado no violino. É a quarta música do disco e eu gosto muito dela.

    “Filho de Ogum” é uma música massa também, que tem uma força. Contou com a participação das meninas nas cordas: da Rebeca Friedmann, da Mathilde Porto e da Mariana Corado, e arranjo do Kafé. Essas músicas que envolvem mais gente, querendo ou não, são demais. É gostoso de fazer, as pessoas vão topando, vão na camaradagem, vão no amor, na verdade. É muito bom quando as pessoas topam tocar no seu disco, quanto topam te produzir.

    E também “Dança Três”, a música título do disco. O álbum, na verdade, ia se chamar Três, mas pesquisando descobrimos que iam sair uns dois CDs com esse nome, então mudamos. Eu gosto desse nome Dança Três. E é uma história mesmo, um romancezinho que aconteceu, gostosinho, que não rolou e que passou. A letra da música é isso: “Passou, passou, passou, passou…”. Essas três músicas dizem bastante sobre a pluralidade do disco: cada uma é uma coisa diferente.

    Dança Três é recheado de influências regionais. De onde elas vêm?

    O disco, de fato, passa por diferentes geografias, já que os dois produtores, o Igor e o Klaus, são de Fortaleza. Então eles trazem as experiências deles de lá, além das próprias experiências musicais, já que eles vivem na música há muito tempo. O Kafé, coprodutor, é de Osasco e eu trago coisas de São José dos Campos e de São Paulo. A experiência no Kolombolo, de alguma maneira, também acrescenta nesse sentido. E tem ainda as influências daquilo que a gente escuta ao longo da vida, que vem de vários lugares. Acho que o disco tem homogeneidade no tema, mesmo na instrumentação, no arranjo e até no andamento das músicas. Mas ele é um disco bem plural em relação aos ritmos. Tem ijexá, tem samba, tem ciranda, tem milonga, tem coisas que a gente não sabe o que é, e acho que isso vem das nossas experiências todas.

    O que você trouxe de São José dos Campos?

    De São José eu trago uma carga afetiva enorme. Eu passei muitas coisas lá que não estão no disco, exatamente, mas que fazem parte da minha vida e influenciam a maneira como eu olho as coisas. Quando eu morava lá, aos 16 anos, tive um linfoma que voltou depois, quando eu tinha mais ou menos 18 anos. Querendo ou não, isso é um acontecimento na vida e acaba perpassando a minha produção. Está presente na maneira como eu me relaciono, em como me coloco para o outro, nas coisas que escrevo, no que penso da vida. Não sei se é só por isso, mas eu sou meio intensa, meio louca nas relações. Tenho uma urgência em relação à vida, em estar junto.

    Quando eu quis vir para São Paulo, minha mãe não queria. Tinha medo que eu ficasse doente. Quando consegui vir, eu rompi, não com São José, mas com aquele lugar-conforto. Fui criada lá. Foi onde comecei a ouvir música. Lá se escutavam muito Zeca Baleiro, Paulinho Mosca, Chico César. Fora Leandro e Leonardo, quando tudo começou. Com 3 anos de idade eu sabia tudo. Meu primeiro violãozinho vem daí. Faz parte do meu imaginário. Em São José, eu morei em uma chácara. A gente ia muito à roça. Tinha aquela paisagem. São José me deu a conexão com o mar, com a cachoeira, porque fica do lado de Ubatuba, de Caraguá. É um porto seguro. A cidade me permitiu muitos caminhos, apesar de ser conservadora e complicada em diversos aspectos.

    E o que é São Paulo para você?

    São Paulo é um mix. Hoje em dia eu me cuido para não ficar negando a cidade. “Ah, São Paulo é muito ruim. São Paulo é nocivo, faz mal”. De fato, temos que tomar cuidado com o ritmo da cidade. Mas logo que vim aproveitei muito. Ia ao teatro, ao cinema toda segunda-feira, depois comecei a frequentar a noite, a fazer meus vínculos e eu ficava muito encantada com tudo. São Paulo é isso. Aqui também conheci as brigas políticas, aprendi a militar. A gente toma conhecimento das coisas e precisa tomar partidos, se responsabilizar. Em São José eu vivia uma vida meio alheia, não se debatia muito.

    Acho que às vezes vou, me envolvo com São Paulo, depois me afasto. Eu me envolvo, me encanto e me afasto. É uma cidade intensa, as relações são intensas – mesmo que às vezes elas demorem para ser construídas. Eu gosto de São Paulo mas não tenho a pretensão de viver aqui para sempre, não. Acho que falta um horizonte, falta poder olhar para longe. Aqui a paisagem é toda de concreto. Agora estou tentando participar mais da cidade. É cansativo, mas tem muita coisa legal acontecendo. E é importante porque ou a gente se envolve com a cidade ou a gente se afasta.

    Como você define sua música?

    Acho que gênero não cabe muito. Por exemplo: é um samba? Não sei, já não cabe tanto assim. Acho que a música nova, esta música brasileira de agora, Céu, Tulipa Ruiz, Kiko Dinucci, Juçara Marçal, Alessandra Leão, Liniker, As Bahias e a Cozinha Mineira, é tudo: é pop, é samba, é reggae. É música brasileira. Então se fosse para me definir em relação à gênero eu diria que faço música brasileira, porque é isso. Agora, meu som está em construção. Dança Três é o primeiro disco e eu aprendi que meu som pode ser outras coisas. A gente acabou de concluir e às vezes penso que faria várias coisas diferentes. Talvez explorar outros lugares, outras texturas. É tudo supernovo e ainda estou me reconhecendo nisso, achando meu lugar.

  • Contar histórias para educar

    12 de maio de 2017

    por Victória Pimentel

    Zenaide Paludo se tornou contadora de histórias sem querer. “Foi lá em Curitiba”, ela conta. “Durante a faculdade, uma amiga perguntou se eu queria contar a história da cidade para um público de crianças que visitavam o Parque Universidade Livre do Meio Ambiente.” Hoje atriz e educadora, Zenaide via a amiga contando a história de Curitiba para as crianças e ficava encantada com seu jeito de captar a atenção dos ouvintes. Chamada pelo desafio, foi assim que teve sua primeira experiência na contação de histórias e, desde então, a utiliza como recurso fundamental em seus projetos de arte-educação. Nos dias 11 e 12 de março de 2017, Zenaide esteve no Itaú Cultural junto do músico João Jorge e promoveu uma oficina de contação de histórias, misturando brincadeiras, música e cultura popular.

    Zenaide em ação no Itaú Cultural

    Zenaide em ação no Itaú Cultural

    Em roda, as crianças tinham à sua disposição uma série de objetos que ganhavam novas funções e, a partir dessas novas utilidades, o grupo começou a criar uma história. “Foi uma improvisação. As crianças e os adultos iam falando o que parecia tal objeto, e fomos contando uma história e incluindo personagens”, Zenaide conta. O momento de criação foi incrementado com músicas e brincadeiras, como a ciranda. Segundo a artista, a brincadeira é a chave da arte-educação para crianças.

    O brincar na arte-educação

    Durante a faculdade de artes cênicas no Paraná, Zenaide foi convidada para dar aula a um grupo de crianças em situação de risco, em um projeto da prefeitura da cidade de Araucária. “Eu percebi que dar aula de teatro àquele público exigia de mim mais do que apenas dar uma aula. Eu tinha de ser uma contadora de histórias, uma palhaça – e muito mais interessante do que a rua, já que era um projeto que as crianças frequentavam voluntariamente”, explica. Ela passou a estudar e buscar materiais que atraíssem as crianças, percebendo que, quanto mais destas iam para a aula, maior resultado tinha o seu trabalho.

    Zenaide, que já trabalhou com crianças de escolas públicas e particulares, com outros professores, com idosos e até com crianças em Angola, na África, conta que a abordagem varia de público para público, mas defende que não existe uma técnica específica e que, independentemente do método adotado, nada precisa ser forçado. Ela fala sobre a experiência que teve em Diadema, cidade na Grande São Paulo, quando dava aula a crianças de 7 a 12 anos: “Eu sempre utilizava o livro, mas como uma brincadeira: o livro como um brinquedo”. As atividades ocorriam em bibliotecas públicas, lugares que até então não eram frequentados pelas crianças. “Eu não cheguei e falei: ‘Pessoal, vamos pegar o livro?’. Não, eu só utilizei o espaço como cenário. Não peguei nenhum livro na mão, eu dava brincadeiras dentro de uma biblioteca”, explica.

    Segundo a educadora, a ideia é se aproximar dos alunos através de uma abordagem indireta e atípica, que valoriza o lúdico. “Talvez seja muito assustador para a criança que ela tenha de estudar tanta coisa e não possa brincar”, diz. “Mas, se ela entende que brincando também chega ao aprendizado, ninguém sofre. Eu acho que a arte-educação tem essa função, e seria interessante que todas as disciplinas aproveitassem isso. É brincando que a gente chega lá.”

    Com prazer, o retorno do trabalho

    “Quando eu era criança, morava num sítio com os meus pais e a gente sempre ia na casa dos vizinhos à noite. Era uma coisa comum no interior. Eles acendiam uma fogueira e, em volta dela, começávamos a contar histórias. Era sempre muito prazeroso”, conta Zenaide sobre suas primeiras experiências, ainda na infância, como espectadora de histórias contadas. Hoje, ainda que a educadora lance mão de diversos recursos – uso de figurinos e adereços, manipulação de objetos, jogos e brincadeiras –, a contação de histórias é um dos elementos centrais nas atividades que propõe. “Quando você conta uma história, é como se tivesse dando colo à criança. Ela envolve muito”, diz. “E, se você gosta da história que está contando, não tem erro! Você não precisa de nenhum recurso.”

    Com paciência e dedicação, o trabalho tem resultado. Em Salvador, Zenaide ministrou um curso de formação de leitor para pedagogas: “Naquele caso, a gente precisava fazer com que as professoras entendessem que seus alunos só leriam se elas lessem”. Entre os aspectos abordados nas aulas, a partilha de material era essencial. “Eu compartilhava textos que chamavam minha atenção e mostrava a elas: ‘Olha como também é salvador fazer a leitura de algo que mexe com a gente!’. Eu puxava por esse aspecto. Levava pequenos contos, contos de que eu gostava muito. Demorou para que elas também compartilhassem textos dos quais gostavam. Eu não pedia, mas eventualmente aconteceu.”

    Em Diadema acontecia uma situação semelhante. “Eu não pedia lição de casa às crianças, não pedia que elas escrevessem nada. Mas então uma criança chegou com uma poesia para mim, dizendo: ‘Olha o que eu escrevi!’. Isso pra mim é o reflexo do meu trabalho. Se o aluno faz uma poesia espontaneamente, é porque chegou a mensagem.” Zenaide ressalta ainda que o processo tem de ser prazeroso: “Eu mostrava o meu prazer por aquilo. Se você não tem prazer no que está fazendo, dificilmente a criança vai te ouvir”.

  • Garotas Suecas vive novo momento

    11 de maio de 2017

    por Jullyanna Salles

    A banda paulista Garotas Suecas foi formada em 2005 e, atualmente, se apresenta no formato de um quarteto. Após a saída do então vocalista e compositor do grupo, Guilherme Saldanha, os outros integrantes dividem o vocal, colocando em prática o conceito de horizontalidade com o qual simpatizam.

    Garotas Suecas

    foto: Fausto Chermont

    Um dos destaques da banda são os clipes com produção cuidadosa. Atualmente formada por Tomaz Paoliello, Fernando Freire, Irina Bertolucci e Nico Paoliello, a Garotas Suecas está em processo de desenvolvimento do seu terceiro disco e se apresenta no Itaú Cultural em 25 de maio. O guitarrista Tomaz conversou com o Fala com Arte sobre a nova dinâmica e o amadurecimento do grupo, além de aspectos preciosos para o processo de criação do quarteto.

    Vocês já trabalharam com muita gente ao longo da carreira. Há alguém que vocês gostam de destacar como fundamental para a banda?

    Tivemos muitos excelentes parceiros, sem os quais não teríamos feito tudo o que fizemos. Para encarar esse formato de banda é necessário gostar de trabalhar junto e compartilhar. Nesse caminho tivemos produtores, técnicos de som, de luz, figurinistas, diretores, músicos convidados, bandas parceiras, assessores de imprensa, empresários, todos que nos ajudaram e ajudam muito.

    Como foi a reformulação da banda? Ela trouxe alguma mudança na dinâmica do grupo?

    A banda é um sistema que funciona de certa maneira, é uma conversa constante. A saída de um membro sempre traz mudanças na forma como interagimos nessa conversa. Musicalmente mudamos, principalmente porque agora todos nós cantamos. Resolvemos radicalizar essa ideia de horizontalidade, de ausência de protagonismo, que já era importante para a banda. Agora todos nós somos cantores principais e de apoio, e instrumentistas base e solo.

    Como está sendo o processo criativo do novo disco?

    Está sendo o mais tranquilo dos nossos discos até agora. É o nosso trabalho menos referente, nos baseamos muito na nossa própria experiência como instrumentistas e compositores. Sempre trabalhamos muito “estudando” outros artistas e sons. Agora resolvemos deixar que todo esse repertório flua mais naturalmente. Nós mesmos estamos produzindo o disco e gravando no Estúdio Freak, do Nico Paoliello, membro da banda. Isso dá também uma tranquilidade para criarmos muito mais em estúdio. Essa tranquilidade de processo contrasta com a fase difícil que estamos vivendo no Brasil e no mundo. Alguns dos temas que chamam nossa atenção aparecem nas músicas, certamente mais políticas que as outras. Acho que esses dois lados vão aparecer de forma bem clara no disco.

    Uma das marcas registradas do grupo são os clipes, sempre bem produzidos. Por que vocês consideram importante essa valorização do trabalho audiovisual?

    O rock, e a música pop de maneira mais geral, é baseado em mais do que a camada sonora. O que dizemos, o que vestimos, tudo que mostramos faz parte do trabalho artístico. Nós todos [membros da banda] nos formamos descobrindo músicas pelos clipes na TV. Desde o começo valorizamos esse formato exatamente porque foi importante para nós. Tivemos a sorte também de encontrar excelentes parceiros para fazer nossos clipes, amigos que compartilhavam da nossa visão. Gostamos de pensar representações visuais para o que fazemos junto com essas pessoas, e o clipe é um veículo excelente para isso. Finalmente, sempre gostamos de atuar, mesmo não tendo nenhum preparo para isso. A gravação é sempre divertida.

    Há algum fator além da música que o grupo goste de acompanhar? Como redes sociais e cenografia do palco?

    Como disse, o processo artístico e conceitual de uma banda vai além da execução das músicas. Gostamos de controlar todas as partes do processo. O legal de ser uma banda independente é ter controle total sobre tudo, chamar apenas as pessoas de que gostamos para trabalhar conosco e mexer em tudo. Figurino, luz, cenografia, som, clipe etc.

    Como vocês se enxergam hoje em comparação ao início da carreira?

    Muito mais seguros do que queremos fazer. Quando começamos, éramos muito despretensiosos, também por ingenuidade. Ficávamos felizes em conseguir marcar um show e tocar bem nele. Conforme a banda cresceu, o nível das nossas próprias expectativas também cresceu, o que logicamente gera tensão e ansiedade. Hoje sabemos muito bem o que queremos e do que somos capazes, o que nos devolveu um pouco daquela despretensão sem a dose de ingenuidade. Estamos tocando e cantando melhor do que nunca por causa disso. Acho que também temos nossas melhores composições, adultas pero sin perder la ternura.

  • Erica Mizutani, artista responsável pela obra que ilustra a fachada do Itaú Cultural

    26 de abril de 2017

    por Amanda Rigamonti

    Nos dias 10 e 11 de abril o banco de entrada do Itaú Cultural ganhou cara nova: a artista Erica Mizutani encheu o espaço com suas cores e formas. Durante dois dias a artista pintou o banco com a ajuda de seus irmãos, Camila e Arthur Mizutani. O trabalho faz parte de uma ação do instituto que pretende trazer diferentes artistas para ilustrar o espaço.

    Erica posa junto à sua obra, finalizada após dois dias de trabalho. Foto: André Seiti

    Erica posa junto à sua obra, finalizada após dois dias de trabalho. Foto: André Seiti

    Desde o design gráfico e a edição de arte até diferentes técnicas de ilustração – no papel, na parede, em objetos etc. –, Erica conta que foi desenvolvendo seu trabalho de maneira muito espontânea, sem ter feito cursos, e comenta o quanto isso foi importante na formação de seu estilo de arte. Em entrevista, a artista fala sobre sua carreira, seus personagens, como a vida pessoal interfere no trabalho e, por fim, como foi pensada a obra que colore a fachada do Itaú Cultural.

    Como começou esse seu trabalho de arte urbana? O que a influenciou?
    Eu não considero muito o meu trabalho como arte urbana ou grafite, porque há várias vertentes desse tipo de trabalho de arte urbana. O meu se encaixa em algum lugar que eu ainda não sei; está meio entre o design e a arte, arte misturada com ilustração, mas o começo mesmo da minha carreira foi muito ligado à ilustração e à editoração. Trabalhava com diagramação de revistas e livros, e depois trabalhei com uma editora de arte. Nesse tempo comecei a ilustrar para as revistas e os livros que eu fazia, e às vezes o borderô era baixo e não tinha como pagar um ilustrador, aí acabava criando as artes para essas mídias.

    Por outro lado, eu também tinha sempre em casa alguma arte pintada numa parede, porque gostava muito de plataformas gigantes, maiores do que uma tela, só que o mercado ainda não conhecia esse tipo de trabalho; não era muito comercial, era mais a arte de rua. Então eu fazia em casa mesmo e, tendo esses dois tipos de trabalho – tanto como ilustradora quanto como editora de arte –, acabei partindo para esse tipo de trabalho com mais facilidade, de murais e telas. Foi quando comecei a pintar e acabei deixando um pouco o trabalho digital, fui largando devagarzinho.

    E você tem desejo de passar para outras pessoas essas suas técnicas de trabalho?
    Na verdade, eu sempre tive um pouco de receio em oferecer oficinas ou cursos, porque nunca fiz curso nenhum – desde pequena até hoje, o que aprendi foi espontâneo, convivendo com os materiais em casa. Acabei optando por não fazer nenhum tipo de curso. Inclusive, saí da faculdade nos primeiros seis meses. Como eu cheguei a conquistar algumas coisas mesmo não sabendo a parte técnica acadêmica, acho que acabei alcançando um resultado legal, e talvez essa coisa do espontâneo tenha gerado o meu estilo, que é um pouco mais orgânico, uma coisa muito minha.

    O curso que penso em dar não é exatamente um curso, mas um bate-papo, e é mais sobre essa parte da espontaneidade mesmo, porque eu acho que você consegue estimular pessoas que não estão com vontade de seguir alguma linha ou algum curso específico, sabe? Mas que queiram vivenciar os materiais e começar a criar dentro de casa.

    Como os diferentes lugares em que você morou ou que visitou influenciaram o seu trabalho?
    Eu nunca morei no Japão, mas já fui umas três vezes para lá; já mudei de casa também umas 15 vezes, de casa, cidade, bairro… Acredito que essas referências da minha vida influenciam bastante no meu trabalho. Não muito esteticamente falando, mas na parte de não se apegar demais às coisas. Então estou fazendo um estilo de que gosto, mas consigo logo na sequência fazer outra coisa, mesmo tendo de desapegar do estilo que estava usando antes. É diferente de antigamente, quando os artistas queriam muito abraçar um estilo e seguir nele a vida inteira. Acho legal – pensando no momento em que vivemos hoje, da internet, de as coisas serem muito rápidas – o artista ousar mais e experimentar mais.

    Então essa coisa do desapego, de sair de um bairro, de uma cidade, mudar de amigos e mudar de escola o tempo inteiro, acho que isso enriqueceu minha atitude na hora de desapegar de um estilo, me apegar a outros, mudar, e a coragem de querer conhecer novos materiais, entende? Acho que influenciou mais na atitude do meu trabalho do que esteticamente falando. Inclusive tenho um amigo que é um street artista superlegal, e ele sempre fala que detesta artista que tem fórmula e que a repete sempre. Eu também, porque, apesar de eu ter uma linha que você olha e sabe que é meu trabalho quando o enxerga no todo, é um trabalho que percorre várias plataformas. Pinto no papel, na tela, na parede e em objetos.

    Você tem personagens que se repetem em determinadas situações. Eles têm alguma história?
    Eu tenho uma bonequinha chamada Mizulina. Ela aparecia mais algum tempo atrás; agora de vez em quando eu a desenho, mas uso muito para passar alguma mensagem, quando quero passar alguma ideia… Então, por exemplo, usei a Mizulina na época em que houve o desastre de Mariana, e é como se ela representasse uma esperança ou algo de bom por vir. Isso porque ela nasceu com rabiscos que fui fazendo quando meu filho mais velho ficou doente. Descobrimos que ele tinha uma doença incurável, uma doença autoimune, e foi no hospital em que fiquei com ele por uma semana que ela nasceu. O mais interessante é que não é um desenho depressivo ou uma coisa que represente a dor ou um momento ruim, mas é um desenho que representa a passagem do ruim para algo melhor.

    Existem também umas minhocas listradas. Na maioria das vezes em que pinto na rua, eu uso as minhocas. Esteticamente falando, elas meio que nasceram das pernas da Mizulina – parece engraçado, mas a Mizulina tem as pernas listradinhas e eu achei legal imaginar que é uma minhoca amiga dela, e poderia ter uma conexão visual bacana –, mas o conceito da minhoca também vem da procura de oxigênio. A maioria das artes nas ruas é feita em grandes cidades, onde tem muito concreto, e a frase principal que segue quando eu faço as minhocas – que chamo de Mizunhocas – é “Não sobrevivo no concreto”, porque é uma espécie de crítica, mas leve, porque não é uma escolha minha criticar com agressividade.

    Como ser mãe influencia no seu trabalho? Como seus filhos se relacionam com a sua arte?
    Um dos motivos para eu ter escolhido ser autônoma foi porque tenho três filhos, que já são até grandes, mas a trajetória toda foi em busca de estar mais em casa. Por mais que eu viaje e saia bastante por causa do meu trabalho, quem está sempre com eles em casa sou eu, e não uma terceira pessoa. Então, isso influenciou muito na escolha, para eu poder passar mais tempo com eles.

    E eles têm orgulho do meu trabalho, sabe? Por exemplo, eu participei do Arte Rua, o maior evento de grafite no Brasil. Foi no Rio de Janeiro e nesse dia fui a primeira mulher e a primeira pessoa a subir numa caixa-d’água enorme que tinha ali no bairro, que era na zona portuária, era toda enferrujada, um trabalho superperigoso, e meu filho do meio ficou muito orgulhoso, mais do que de qualquer outro trabalho que fiz, e repostou no Facebook dele, esse tipo de coisa.

    Como é ser mulher e estar nesse meio da arte de rua?
    É um meio bem machista. Você percebe que a maioria dos grupos/coletivos, senão os eventos de grafite, é formada 90% por artistas homens, e quando as mulheres são aceitas em algum evento geralmente é um evento que no título tem “mulheres” alguma coisa, como se estivessem dando lugar para a minoria. Eu participo muito de eventos/coletivos quando têm o título voltado para artistas japoneses, orientais ou mulheres, mas acho que devagarzinho a gente vai conquistando espaço, porque é mostrando mesmo que vamos conquistar, então é importante a gente mostrar nosso trabalho.

    Sobre o trabalho que você fez no Itaú Cultural, como foi esse processo, desde o convite até o resultado?
    Eu já tinha feito alguns trabalhos no Itaú Cultural e acredito que isso também foi um dos motivos para o pessoal ter me chamado, porque já rolou uma empatia, e aí a gente teve essa mesma conexão nesta vez. Eles me chamaram e me deram uma liberdade de criação que não encontramos em qualquer lugar. É muito louco, porque, quando você tem essa coisa do desapego que a gente comentou agora há pouco, quando alguém lhe dá uma liberdade total de criação, você consegue evoluir, e ainda numa plataforma como essa, que é um lugar de passagem, por onde passa muita gente, numa avenida importante, e o espaço também é importante. É gratificante conseguir fazer uma coisa que você quer, e você sente também que evoluiu esteticamente.

    O trabalho teve antes um estudo de cores e com formas mais voltadas para a natureza; isso não tem como desapegar porque é uma parte que está dentro de mim, e não é nenhum apego – na verdade, é a personalidade do traço. Acho que num visual completamente de concreto, cinza, uma arte colorida e que tivesse a ver com a natureza daria um impacto legal. As sobreposições, o fato de estar no meio da avenida, acho isso muito legal.

    Outra coisa muito legal é que existe uma parte abstrata também, e é o que estou buscando no meu trabalho. O abstrato vira formas diferentes, dependendo da pessoa que enxerga. Passou um senhor que viu um coração em uma folha preta que eu fiz com galhos brancos dentro. Ele falou para mim: “Isso é um coração, não é?”. E me mostrou que tinha acabado de fazer uma cirurgia no coração nesse hospital aí na frente [do instituto], o Santa Catarina, e isso foi muito legal. Tem também essa relação do abstrato, que é uma coisa que estou tentando buscar e que consegui colocar no banco do Itaú Cultural porque me foi dada essa liberdade e me trouxe essa surpresa.

    Como você entende a importância de a arte ocupar esses espaços públicos?
    Além do que já disse, tenho a sensação de que a poluição visual pode gerar uma organização em alguns pontos de onde você olha e, quando a plataforma do artista é grande, tipo um muro de 10 por 4 metros, ou mesmo esse banco, que tem quase 20 metros, ele agrada aos olhos no meio de tantos pedaços de informação. Não é apenas uma parede enorme cinza. Existiram naquele pedaço grande um estudo e uma organização visual. Acho que agrada porque a pessoa passa e vê aquilo como uma surpresa – porque a arte de rua surpreende, você não escolheu estar lá, você não escolheu ver aquilo como numa galeria, em que você entra e escolhe; então ela surpreende, ela pode passar uma imagem boa, ruim, triste… Mas, enfim, ela foi pensada.

  • Conheça a PretaLab, plataforma de mapeamento de mulheres negras e indígenas na tecnologia

    11 de abril de 2017

    por Amanda Rigamonti

    No dia 17 de março de 2017 o Olabi – organização social dirigida por mulheres que visa democratizar o acesso às ferramentas de inovação – lançou a PretaLab, iniciativa que pretende mapear o envolvimento de meninas e mulheres negras e indígenas nos campos da tecnologia.

    Lançamento do PretaLab

    Lançamento da PretaLab (Foto: Ian de Farias/Mídia NINJA)

     

    A ideia surgiu em 2016, segundo Silvana Bahia, diretora de projetos do Olabi. Ela conta que, ao frequentar eventos e espaços voltados para discussões relacionadas à área de tecnologia, percebeu a ausência de mulheres, especialmente negras e indígenas – fato que Silvana associa à falta de referências e de acesso. “A gente normalmente não tem muito esse acesso, essa condição de experimentar. A gente sempre tem de arrasar, ser o melhor e agarrar aquela única oportunidade que existe como se fosse a única coisa da sua vida”, diz.

    Assim, a PretaLab veio para encontrar essas mulheres e reuni-las para trocas nessa área. A diretora de projetos conta ainda que, entre as ações previstas após o mapeamento, pretende-se realizar uma série de vídeos com essas mulheres, buscando inspirar outras a ingressar na área, além de fazer a ponte entre elas e os espaços de formação que já existem.

    O mapeamento é constante, sem prazo de encerramento. No entanto, em três meses será feito um levantamento parcial sobre os dados coletados, para dar início às ações. É possível acessar o formulário neste link.

    Em entrevista, Silvana fala sobre o Olabi, a PretaLab e a importância de as mulheres ocuparem esses espaços e se apropriarem desses conhecimentos.

    Como surgiu o Olabi e qual é o objetivo da organização?
    A Gabi [Gabriela Augustina, fundadora do Olabi] costuma dizer que ela já estava trabalhando há algum tempo nessas caixinhas de inovação e tecnologia, mas sempre tinha percebido que esse mundo era – e ainda é – muito masculino, branco. E pensava em fazer um espaço para mulheres como ela, que não tinham muita sapiência nesse campo, e que aumentasse a representatividade e estimulasse outras mulheres a pensar em trabalhar com isso também ou que já estivessem nesse meio, mas se sentissem muito solitárias, porque isso é muito comum, infelizmente.

    A atividade principal do Olabi, atualmente, é o Clube Maker. São encontros e atividades que pretendem expandir as discussões referentes à tecnologia para além de onde já estão, nos grandes centros. A ideia é ser um lugar de experimentação, onde as pessoas compartilham ferramentas, marcas e conhecimento na área de manufatura digital. A nossa missão, na realidade, é trabalhar para a diversidade na produção dessas novas tecnologias, e para isso a gente tenta não trabalhar apenas com a linguagem conhecida nesse mundo geek, como o “arduíno”, mas sim entender um pouco o que pode ser interessante para as pessoas que são iniciantes e que não têm o menor contato com esse mundo.

    Além disso, atuamos com consultoria para projetos de inovação e cada vez mais temos trabalhado com conteúdo para espaços, sejam eles makers ou não. Por exemplo, temos uma sede no Cantagalo, uma favela no Rio de Janeiro, onde tentamos trabalhar alguns conteúdos entendendo a demanda da galera da comunidade. Recentemente a gente fez uma oficina de marcenaria, design de joias, focada em mulheres, e o público foram várias senhoras da comunidade, foi bem legal. Enfim, a gente tem atuado em algumas frentes, e agora estamos com essa iniciativa nova que é a PretaLab.

    Nessas outras iniciativas vocês têm um público definido? Ou vocês mudam de acordo com a proposta?
    Na verdade, na atividade do nosso espaço, que é o Clube Maker, o público é realmente muito diverso – vai desde pesquisadores até curiosos de “makerzões”, passando por pessoas que nunca ouviram falar disso, e também de lugares diferentes do Rio e de idades diferentes.

    No entanto, desde que surgimos, em 2014, temos como foco estimular mais mulheres na tecnologia, então a gente oferece bolsas a meninas e mulheres e também a pessoas oriundas de espaços populares e periferias. Assim, é uma forma que encontramos para trabalhar também essa diversidade que está muito ligada ao nosso discurso.

    Como a PretaLab surgiu e qual é a proposta da iniciativa?
    Na verdade nós estamos pensando essa ideia desde o meio de 2016. Quando eu comecei a trabalhar no Olabi e passei a circular bastante nesse meio tec, percebi que, além de ser pouca a quantidade de mulheres nesses espaços, nunca havia nenhuma mulher negra. Fiquei pensando no porquê de isso acontecer. Na verdade eu tenho dois achismos em relação a isso: a falta de referência e a falta de acesso.

    Então eu quis fazer um projeto, algo que estimulasse mais meninas a entrar nesse mundo. Porque, quando a gente pensa no Brasil e no povo negro, não tem uma memória de boas referências; sempre é uma memória subalterna ou o período da escravidão, e eu acho que a questão da autoestima é muito forte para o povo negro, e isso está totalmente ligado ao fato – e aí já faço um link com a cultura da experimentação, dessa ideia da cultura maker – de que a gente normalmente não tem muito esse acesso, essa condição de experimentar. A gente sempre tem de arrasar, ser o melhor e agarrar aquela única oportunidade que existe como se fosse a única coisa da sua vida. Isso é o que penso no geral sobre essa questão da negritude e das possibilidades para nós no Brasil.

    Eu comecei a pensar que gostaria de fazer um projeto que estimulasse essas meninas, só que na época eu imaginava um negócio um pouco mais ligado à formação, tentar criar um coletivo, um grupo, em que as mulheres pudessem trocar entre nós mesmas esses conhecimentos. Mas quando comecei a pensar na viabilidade disso foi um pouco difícil, porque eu não conhecia tantas meninas no Rio que estivessem nessa pegada, nesse mundo. Pelo menos dentro da minha bolha, eu nunca tinha conseguido contar nem dez meninas – não que não houvesse interesse… Estou falando de meninas que poderiam ser tutoras, porque eu acho que o interesse sempre teve.

    E aí pensei que teria de mudar a estratégia e comecei a procurar dados sobre mulheres negras nesse campo. Porque dados sobre meninas até existem, mas nunca os dados com recorte racial. Tem o recorte só de gênero, e eu acredito que, assim como outras questões, a gente tenta olhar de forma mais interseccional. Foi então que pensei que precisávamos primeiro entender se há mulheres negras nesse mundo – acredito que sim, mas acho que elas são invisibilizadas, então elas não aparecem, não estão no mainstream, não sei nem se conseguem se enxergar nesse lugar.

    Então eu me perguntei: nós somos poucas, mas somos quantas? A gente não tem a menor noção desse número, por isso lancei a ideia do mapeamento e a gente criou um projeto que tem apoio da Fundação Ford, a PretaLab. Neste primeiro momento – queremos crescer muito mais com ele, mas hoje temos muito mais perguntas do que respostas – estamos mapeando essas mulheres com um questionário aberto na internet chamando meninas negras e indígenas que atuam nesse campo. Inclusive ampliando um pouco essa noção de tecnologia, que não está ligada apenas a programar ou desenvolver um site ou às engenharias e às ciências exatas, mas também pensando nas produtoras de conteúdo – falando de youtubers, blogueiras, tentando ampliar esse leque, porque no Olabi a gente sempre entendeu tecnologia de forma mais ampla, então a tecnologia vai desde o crochê até a impressão 3D.

    O mapeamento serve para nos ajudar a entender onde estão essas mulheres e tentar levantar quais são as suas demandas, qual é o interesse delas nesse mundo, no que pretendem se aprofundar em termos de conhecimento, se isso tem a ver com uma oportunidade para novos trabalhos, com novas possibilidades para o mundo profissional. E na sequência queremos criar referências sobre essas meninas, inspirar outras meninas negras e indígenas para que elas possam ter isso no horizonte como uma possibilidade – e para isso faremos uma série de dez vídeos com essas meninas que vamos mapear.

    A ideia é com esses vídeos tentar atingi-las para influenciar, mas existe também a ideia de fazer algum tipo de curso?
    Por enquanto, quando entendermos mais ou menos as demandas que estão dadas ali pelas meninas a partir do formulário, gostaríamos de conectar essas meninas a espaços que já oferecem formação, entendendo que existem muitos desses espaços funcionando e acontecendo, mas que não trabalham com diversidade. Então a ideia é mais ser uma ponte e fomentar uma rede de outras mulheres, e aí sim criar espaços para que a gente possa trocar entre nós.

    O que também motiva muito a gente é pensar que este mundo está cada vez mais digital e que, se não conseguirmos entender o que são essas novas aplicações e este mundo que se apresenta, teremos pouquíssimas chances de intervir de fato no mundo, então é necessário demais que a gente olhe para as tecnologias como um fator de transformação social. Por isso, acho que a PretaLab, muito mais que um lugar de formação, é um dedo na ferida de falar que temos de olhar para isso e não mais deixar que só os homens brancos do norte dominem essas técnicas, mas sim que as mulheres negras do sul consigam entender e produzir, porque isso é protagonismo e só acontece se a gente forçar um pouco essa entrada e conseguir estimular outras mulheres para que também tenham interesse em entender mais esse mundo e ter acesso a ele.

    Ainda sobre o que você está dizendo, qual é a importância de as mulheres, especialmente negras e indígenas, se apropriarem desses espaços?
    Partindo um pouco dessa ideia de que as tecnologias não são neutras e estão cada vez mais permeando a nossa vida em tudo o que a gente faz, e se a gente não entender melhor como essas coisas funcionam, se as mulheres negras não estiverem nesse processo, se não existirem políticas para que elas estejam nesse processo, vamos perder totalmente nosso poder de integração no mundo. Então, se partirmos desse lugar em que as tecnologias não são neutras e estão carregadas de visões políticas, econômicas e culturais de quem as cria – e em que esse poder hoje está centrado mais nas mãos de homens, brancos, heterossexuais, classe média/ricos –, a gente já potencializa uma grande desigualdade se não faz nada em relação a isso, porque o mundo é cada vez mais digital… Se você não tem essa sapiência, se não consegue intervir nesse mundo, sempre vai estar à margem das decisões da sociedade.

    O projeto surgiu voltado para mulheres negras e vocês agregaram as indígenas?
    Na verdade, desde o início a ideia já nasceu com esse recorte, e isso tem muito a ver comigo, porque sou uma mulher afro-indígena, sou filha de negro com índio e, por dialogar muito pouco inclusive com a minha identidade indígena, quando a gente começou a pensar a PretaLab, eu até me perguntei se seria ruim o nome ser PretaLab tendo o recorte também para mulheres indígenas, mas depois preferi assumir isso pensando que é uma cultura que está cada vez mais, aparentemente, invisibilizada – e a gente sabe que é uma cultura riquíssima, sobretudo em conhecimentos técnicos, porque quando penso em tecnologia penso num conhecimento técnico aplicado. Então cadê essas mulheres?

    Há outros exemplos por aí de projetos superinteressantes de indígenas ligados à inovação, como a rádio Yandê, que é uma rádio indígena, então pensei que provavelmente pode haver outras mulheres indígenas nesse campo e também na ideia de visibilizar essa identidade que é muitas vezes apagada. O projeto nasce já com esse recorte muito porque eu demorei bastante tempo para entender que eu não era só negra, que eu também tinha sangue indígena. E mais do que entender, dialogar com essa identidade. Acho importante trazer isso para a cena também.