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A redescoberta de um aviador e de uma jornalista

16 de novembro de 2016

Por Jullyanna Salles

Luciana Garbin é editora no jornal O Estado de S. Paulo, colunista da Rádio Estadão e coautora do livro Álbum de Retratos – Protographias Brazileiras. Além disso, é curadora da exposição Santos-Dumont na Coleção Brasiliana Itaú.

Luciana Garbin é editora no jornal O Estado de S. Paulo, além de curadora da exposição Santos-Dumont na Coleção Brasiliana Itaú. (foto: Amanda Perobelli/ Estadão)

Luciana Garbin (foto: Amanda Perobelli/ Estadão)

Em 2015, O Estado publicou o especial A Redescoberta de Santos-Dumont, reportagem multimídia com recursos audiovisuais e de interação digital realizada por Luciana. O trabalho ganhou a categoria multimídia do Grande Prêmio Abear de Jornalismo 2015, concedido pela Associação Brasileira de Empresas Aéreas.

Abaixo, a jornalista conta mais sobre o processo de elaboração da reportagem, que tem direção de arte de Fabio Sales.


Como surgiu a ideia da reportagem?
Numa conversa em casa, meu marido comentou: “Sabe quem merecia um filme de Hollywood? Santos-Dumont. Ele fez coisas incríveis, foi um cara à frente de seu tempo etc. etc.” Eu estava no computador e aproveitei para pesquisar sobre ele na internet. Foi quando achei a notícia de que a família de Santos-Dumont tinha encontrado recentemente um livro inédito escrito por ele. Encontrei no Facebook o sobrinho-bisneto que estava com a obra, mandei uma mensagem e ele me passou o contato dele. Quando liguei, ele não quis dar nenhum detalhe sobre o livro, mas vendo meu interesse no assunto falou de vários documentos e fotos de Santos-Dumont que haviam ficado décadas esquecidos num porão do Rio de Janeiro, depois outras décadas guardado com a família e agora estão sob a guarda da FAB.

Fiquei fascinada com a história e fui atrás da Força Aérea para ver o material. Passei três dias no Campo dos Afonsos, no Rio, e resolvi ampliar a apuração para outros acervos de/sobre Santos-Dumont espalhados pelo país, como o de Cabangu, onde ele nasceu, o de Petrópolis, na casa que construiu e batizou de Encantada, no Museu Paulista, aqui em São Paulo, e em casas de familiares. Uma informação foi puxando outra e a apuração foi crescendo.

Também tentei abordar os casos polêmicos envolvendo a história de Santos-Dumont a partir de fontes originais. Meu plano era ver o que era mito e o que era verdade em temas como a fraude sobre o suicídio, por exemplo. A morte dele foi registrada como colapso cardíaco em vez de suicídio.

No final da apuração, o especial acabou incluindo trechos do livro inédito que haviam sido minha primeira demanda.

Como foi o processo de redescoberta da figura de Santos-Dumont ao longo da apuração?
Acho que como a maioria dos brasileiros eu associava Santos-Dumont à figura de “pai da aviação” e de inventor do 14-Bis. Na apuração, cheguei à conclusão de que ele foi muito mais do que a gente aprende na escola e essa identificação com o herói acaba afastando mais do que aproximando Santos-Dumont dos brasileiros. Fica uma coisa inacessível, chata, empoeirada. Santos-Dumont foi um designer, um cientista e um empreendedor numa época em que não se falava sobre esses conceitos. Isso é superatual!

Na internet, a reportagem saiu em um formato multimídia, bastante diferenciado e com recursos de interatividade. Como foi o processo de criação desse layout, você participou dele?
Nesse plano de “desempoeirar” Santos-Dumont, uma das estratégias foi usar ferramentas digitais modernas para mostrar um personagem histórico. Por isso, investimos em simulador de voo, projeções 3D dos aviões, linha do tempo interativa. Tive um apoio valiosíssimo do diretor de arte do Estadão, Fabio Sales, e da equipe dele. Eu ia passando as informações e a gente discutia como apresentá-las de maneira multimídia e digital.

Algo sobre Santos-Dumont a impactou de forma diferente do que em outros trabalhos?
Sim. Eu tinha voltado havia alguns meses da licença maternidade, tinha mudado de área no jornal e ainda estava buscando um equilíbrio entre vida de mãe, em casa, e vida de editora, na redação. Fazer esse especial foi fundamental para eu “retomar a mão” como jornalista.

Como foi fazer a curadoria de uma exposição depois de ter realizado a reportagem? São trabalhos extremamente distintos ou há alguma relação entre eles?
Acho que a exposição me ajudou a consolidar o trabalho sobre Santos-Dumont que começou com a reportagem. A edição do material me pareceu semelhante à de um especial jornalístico, mas a exposição demanda várias outras preocupações, como com produção e cenografia. Fiquei superfeliz com o convite para a curadoria da exposição e tenho aprendido muito com toda a equipe do Itaú Cultural nesses três meses.

A exposição Santos-Dumont na Coleção Brasiliana Itaú fica aberta de 26 de novembro a 29 de janeiro. Saiba mais aqui.

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