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Árvore imensa de cem anos: Manoel de Barros

20 de dezembro de 2016

por Duanne Ribeiro

O poeta Manoel de Barros (1916-2014), que completaria um século neste 2016, já é árvore: passarinhos constroem casa na palha do seu chapéu, brisas carregam borboletas para o seu paletó e cachorros fazem de poste as suas pernas.

Em homenagem ao seu centenário, convidamos artistas para falar sobre ele e a sua obra. Conversaram com a gente o cineasta Joel Pizzini, que conta como foi filmar alguém que não gostava “de falar com ferro”; o músico Márcio de Camillo, que acrescentou voz e violão aos versos de Manoel; o coreógrafo João Andreazzi, que se identificou com o poeta a ponto de ter o seu estilo na ponta da língua; e o poeta Arthur Moura Campos, que viu no colega escritor um jeito de ser livre.

Assim, esta é uma reportagem sobre os frutos da árvore-Manoel. Por isso, quem sabe nos desse um pito o poeta, que – como veremos daqui a pouco – não queria saber disso de matéria jornalística sobre ele.

“Não sirvo nem pra uma anedota”

Escritor natural de Mato Grosso, Manoel de Barros estudou durante a infância e a juventude no Rio de Janeiro, onde atuou na Juventude Comunista entre os anos de 1935 e 1937 e se formou em direito em 1941. Cursou cinema e pintura, em 1947, no Museu de Arte Moderna de Nova York (MoMA). Em 1960, assumiu uma fazenda de gado da família no Mato Grosso do Sul. Lançou o seu primeiro livro, Poemas Concebidos sem Pecado, em 1937. Continuou publicando ao longo dos anos, sem maior alcance. A partir de 1980, porém, a sua obra recebeu grande atenção de crítica e público.

Joel Pizzini, autor do curta CaramujoFlor (1988), que bebe da poesia de Manoel, o conheceu antes da aclamação. O encontro foi ocasionado pelo trabalho de Joel em um suplemento cultural. “Descubro aquela figura que estava num completo anonimato. Com a morte do pai, teve de assumir as terras e abandonou a carreira no Rio de Janeiro e em Campo Grande, e ficava isolado, desconhecido”, conta.

A poesia de Manoel lhe chamou a atenção: “Quis tomar contato com a obra e não tinha nenhum livro, tive de fazer fotocópia. Fiquei movido pela vontade de fazer um filme. Ele disse: ‘Desde que você não faça uma reportagem, porque a minha vida não serve nem pra anedota. Se você quiser fazer um trabalho sobre a minha obra, eu aceito’”. Um aceite que era só 10% recusa – e que se tornou um desafio.

“Como fazer um filme sobre um poeta sem que ele aparecesse? Isso pra mim foi uma loucura”, diz Joel. Lendo os livros, ele encontrou um caminho: “Ao mergulhar na obra, descobri uma poesia fragmentada, que me permitia fazer uma espécie de colagem, recriações, extrair uma palavra, uma frase. Construir outro olhar. É uma poesia muito apropriada pro cinema, que trabalha com a noção de corte. Transformei aquilo num corpo cinematográfico porque a poesia permitiu”.

Joel narra que, depois de assistir ao curta, Manoel comentou: “O filme me deixou quieto. Não é a minha poesia, mas tem toda a ambiência dela”. Foi um “gostei” só com 10% de “achei esquisito”? De todo modo, deu alívio ao cineasta. “Meu medo era ficar na sombra, fazer algo reverente, abdicar da minha visão de autor. Criei o diálogo de um diretor com um poeta que produziu um terceiro sentido”, lembra.

“Foi um caminho sem volta”, define Joel, “nunca mais consegui produzir um filme que não quisesse transfigurar” – no sentido de extrapolar referências. Autor de, entre outras obras, Mr. Sganzerla – os Signos da Luz (2011), ele pretende recuperar as entrevistas que filmou com Manoel, além de outros materiais, e “desconstruir a sua recusa”, criando um documentário: Coisal – Retrato do Poeta Enquanto Prosa.

A música fez o encanto

O músico sul-mato-grossense Márcio de Camillo também conviveu com o poeta, desde 1990, quando lhe foi apresentado por um amigo. “Ele estava começando a se tornar conhecido nacional e internacionalmente”, diz Márcio. “Manoel era muito generoso, e assim surgiu uma amizade de um menino com um senhor.”

Márcio teve a ideia de musicar a obra de Manoel. O resultado seria um dos discos da série Crianceiras, que foi apresentado no Auditório Ibirapuera em 2015. Teve a ideia, mas esperou 17 anos para, em 2007, pedir permissão ao poeta. “Quando eu falei que ia dedicar uma obra a ele, não entendeu muito. Nunca alguém tinha feito isso, ainda mais pra crianças. A premissa era jamais desrespeitar o trabalho dele. Um dia, ele me disse que nós estávamos trabalhando juntos”, conta.


Márcio também foi entrevistado pelo nosso ratinho Bartô

Foram cinco anos de leitura para criar o disco. Mostrá-lo feito ao escritor, lembra Márcio, “foi um momento muito feliz. Quando conseguiu falar comigo, ele estava chorando. Disse que tinha feito a poesia e que Crianceiras era o encanto”. O músico conclui: “A obra nunca mais me abandonou. A poesia do Manoel permeou a minha vida. Ela é uma ginástica para um compositor, inspira qualquer escritor. Cada frase é um filme, é um livro inteiro”.

Helicópteros em forma de libélula

Para João Andreazzi, “um jeito simples de ir colocando memórias inventadas” – um “bordado sobre a pele” – é próprio de Manoel de Barros. Essa simplicidade criativa é uma “peraltice” que renova experiências, por exemplo a velhice. “O que ele passa na distribuição de palavras é tão singelo; você vê a terceira idade como uma terceira infância. O abandono visto como uma aventura, como um ‘aprendimento’…”, diz o coreógrafo.

Membro da Cia. Corpos Nômades, que estreou em 2006 a peça Gramática Expositiva do Chão, inspirada em Manoel, João ressalta também os tratamentos peraltas que o poeta mato-grossense dá à linguagem. “Esse jeito de frasear as coisas cria nas junções das palavras essas imagens, transforma as lembranças em pinturas. Uma coisa simples, um caso de amor, e mistura com uma rã. Pega um homem de lata e inventa uma fairy tale. Cria uma gramática de quem cresceu com quintal”, explica.

O artista conta que é habitual que a Corpos Nômades trabalhe com poetas – o grupo já se dedicou, por exemplo, a Paulo Leminski em Hyperbolikós, realizado com apoio do programa Rumos Dança 2003-2004. Há em Manoel, porém, uma relação forte com os fundamentos da companhia: “Vejo nele uma maneira própria de produzir nomadismo, de um modo tão natural, parece que voa, pedala com uma bicicleta com pedais de nuvens, abrindo na cerca de arame farpado trilhos para rodovias e espaços para pousos de helicópteros em forma de libélula”.

O último trecho, se você está se perguntando, é de João mesmo. Pelo que parece, Manoel já pegou raiz funda no bailarino: “Sempre que escolho um trabalho tem de haver de fato essa identidade, senão eu não consigo…”.

Uma seriedade despretensiosa

O convite do escritor Marcelino Freire para que participasse do Autores em Cena – projeto do Itaú Cultural que convida literatos para subir ao palco do teatro – deu ao poeta Arthur Moura Campos a oportunidade de mergulhar no trabalho do poeta mato-grossense. A peça 100 Anos de Manoel de Barros teve direção de Laís Doria e contou também com Fino Dflow e Mel Duarte.

Sobre o processo de criação, Arthur fala: “Encontrei pessoas muito especiais. Criou-se ali uma minifamília. A gente foi se conhecendo mais e entrando mais no universo do Manoel”. A imersão o fez encontrar afinidades. “Ele era migrante como eu – sou de Goiânia e vim para São Paulo. Tenho familiaridade com esse lado prosaico, de elogiar essas coisas de roça mesmo”, diz.

imagem: Ivson Miranda

Arthur Moura Campos, Fino Dflow e Mel Duarte em 100 Anos de Manoel de Barros, espetáculo do Autores em Cena | imagem: Ivson Miranda

“É uma poesia muito bonita, tudo que passa perto dele ganha um brilho”, comenta Arthur. Contudo, o aspecto com que mais se identificou foi a liberdade criativa do poeta: “Ele não tinha pudor de falar o que era importante para ele, de ter o estilo dele”. Acima de tudo, “ele tem uma seriedade despretensiosa – é brincalhão ao mesmo tempo que fala de coisas muito importantes. Tem a liberdade de rir, de brincar com o que você é, consegue brincar sem ser simplista”.

Ao telefone, Arthur declamou um poema que o marcou em particular durante o período de criação do espetáculo. Não há meio melhor de terminar este texto:

Há um cio vegetal na voz do artista.
Ele vai ter que envesgar seu idioma ao ponto
de alcançar o murmúrio das águas nas folhas
das árvores.
Não terá mais o condão de refletir sobre as coisas
Mas terá o condão de sê-las.
Não terá mais ideias: terá chuvas, tardes, ventos,
passarinhos…
Nos restos de comida onde as moscas governam
ele achará solidão.
Será arrancado de dentro dele pelas palavras
a torquês.
Sairá entorpecido de haver-se.
Sairá entorpecido e escuro.
Ver sambixuga entorpecida gorda pregada na
barriga do cavalo –
Vai o menino e fura de canivete a sambixuga:
Escorre sangue escuro do cavalo.
Palavra de um artista tem que escorrer
substantivo escuro dele.
Tem que chegar enferma de suas cores, de seus
limites, de suas derrotas.
Ele terá que envesgar seu idioma ao ponto de
enxergar no olho de uma garça os perfumes do
sol.

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