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Em primeira pessoa, diante da obra

17 de agosto de 2016

Por Duanne Ribeiro

“Todo mundo é capaz de criar”, diz a documentarista Renata Druck ao descrever o workshop Projeções, que aconteceu em agosto no Itaú Cultural, em São Paulo/SP. A oficina, desenvolvida por ela e pela diretora Moira Toledo, tinha a intenção de estimular atos de criação narrativa, por meio de dois recursos: o primeiro é a série de 15 minidocumentários também chamada Projeções – uma produção do instituto com direção de Renata, em que realizadores brasileiros falam da sua trajetória e comentam trechos das suas obras – e o segundo é a metodologia de criação Caixa de Jogos, criada por Moira, que procura driblar as travas de imaginação.

Still da série Projeções

Still da série Projeções

Renata conversou com o Fala com Arte sobre o processo criativo do workshop e da série, destacando momentos marcantes das gravações dos episódios de Projeções e comentando a recepção da oficina por parte dos alunos.

A história começa com o Rumos Itaú Cultural. Selecionada na edição 2001-2002 do programa, a cineasta realizou o documentário Nasceu o Bebê Diabo em São Paulo, que fala da repercussão de uma lenda urbana (este trecho do filme é o vídeo mais visto no nosso canal do YouTube). Pela sua experiência com a instituição, Renata foi chamada, em 2012, para realizar um workshop, um dos eventos de lançamento de uma nova edição do Rumos.

O contato com os participantes da atividade indicou meios de aperfeiçoar o curso: “Às vezes perguntavam: ‘O que o artista quis dizer com aquilo?’. Eu até falei com alguns realizadores: ‘Quando você fez isso, o que estava pensando, o que estava querendo atingir?’. E as respostas eram superlegais de discutir com os alunos”.

“Seria tão rico”, projetou ela, se pudessem gravar depoimentos dos realizadores que trouxessem esses bastidores da criação. Primeiramente concebida como um workshop mesmo, a ideia foi apresentada ao Itaú Cultural e acabou se ampliando para uma série, que deve ser exibida na televisão e na internet.

A vida lá fora e a importância do fracasso

“A ideia era ter realizadores brasileiros falando em primeira pessoa sobre os seus processos criativos e analisando trechos dos próprios trabalhos, que a gente exibiria na hora da projeção”, explica Renata. O processo era especulativo: não se tinha certeza se apresentar aos entrevistados partes dos seus trabalhos daria certo. “Era um pouco uma incógnita, a gente não sabia se o dispositivo da projeção iria estimular, e foi muito legal. Deu para ter uma profundidade, uma coisa mais íntima. Do jeito como a gente gravou, parece que eles estão falando a eles mesmos. As pessoas ficam muito instigadas assistindo a isso”, diz a documentarista.

Ela destaca momentos da série: “Por exemplo, o Paulo Sacramento comentando O Prisioneiro da Grade de Ferro: tem uma cena em que ele deu a câmera para que os prisioneiros filmassem uma noite na cadeia; ele imaginava que iriam ficar filmando a vida deles ali na cela, e de repente trouxeram imagens lindas do que estava fora da janela. O dia amanhecendo, o trem passando. Um olhar para fora, não para dentro, porque eles estavam olhando para a vida que queriam ter…”.

Outro destaque: uma afirmação do documentarista Marcelo Pedroso. “Ele fala da importância de fracassar: não adianta você pegar um caminho já sabendo aonde vai chegar. Se não se permitir no meio do caminho descobrir outra coisa, para que você vai fazer?”, conta Renata. “São realizadores que têm muita acuidade nos seus processos – eles vão muito fundo nas questões formal e estética. Para mim foi intenso pra caramba, porque sou formada em cinema, trabalho na área.”

“Meu namorado precisa ver esta série!”

No workshop, Renata afirma que Projeções “introduz bem questões de linguagem que a gente segue discutindo e aprofundando”. Diante do contato do criador com a sua obra, o aluno podia perceber que, em relação a certa questão, determinado criador “resolveu dessa forma”. Para a documentarista, conhecer a perspectiva do artista em pessoa “é muito diferente da análise de um especialista, um acadêmico – que também é superimportante, mas é para outra finalidade”. “Tive um retorno muito positivo dos alunos sobre os episódios”, conta ela. “Uma aluna falou: ‘Posso trazer o meu namorado? Porque ele gosta muito de audiovisual e precisa ver os episódios desta série!’”, narra, rindo.

Depois dos debates sobre os processos criativos, a proposta era criar. A oficina não tinha o objetivo de aprimorar projetos em andamento: o intento era trazer ideias novas. Nesse sentido, a metodologia Caixa de Jogos fornecia esquemas criativos – tipos de trama, de personagem, de cenário, de contexto, que eram sorteados e/ou escolhidos pelos estudantes para incentivar a criação. “Às vezes, as pessoas travam: ‘Ah, mas eu não tenho ideias!’. Esse mecanismo é pensado para estimular: se não tiver uma ideia pronta, vai construindo, com o dado, as fichas”, diz a documentarista.

As proposições criativas seguiam o recorte da série de minidocumentários e abrangiam todos os campos do audiovisual. Além disso, procuravam levar o oficineiro a entender os seus próprios desafios estéticos. “Ajudar o aluno a saber onde está o seu núcleo dramático, a história e as questões que são importantes para ele, que o motivam”, conta Renata.

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