960x80_falacomarte

Espaço Cultural em Santos tem a Cidade e sua População como Protagonistas

6 de dezembro de 2016

por Amanda Rigamonti

O Armazém Cultural 11 durante exposição do Carlos Moreira (Foto: Divulgação)

O Armazém Cultural 11 durante exposição do Carlos Moreira (Foto: Divulgação)

A cidade portuária de Santos tem uma histórica relação com a fotografia – grandes fotógrafos já a registraram, como Carlos Moreira, Marcos Piffer e Araquém Alcântara. Apesar de ter um Sesc e uma Pinacoteca, a cidade ainda não tinha um espaço que fosse dedicado somente à fotografia – até dezembro de 2015, quando o Armazém Cultural 11 iniciou suas atividades.

A proposta do espaço veio de Beatriz Estrada, que integra a diretoria da Deiclog (empresa do setor imobiliário). Beatriz conta que, conforme se aproximavam da inauguração do espaço, sentiram falta de dividi-lo com a população da cidade: “Pessoalmente, sempre tive uma forte ligação com a fotografia e sentia falta de um espaço destinado a essa atividade em Santos. A partir disso, o Armazém foi tomando forma e, em 8 de dezembro de 2015, foi inaugurado”.

O espaço apresentou as exposições Uma Cidade – Dois Momentos, com fotografias de Marcos Piffer, e Os Dias Lindos, com o trabalho de Carlos Moreira.

Na quinta-feira 8 de dezembro, teve início a mostra Correspondências. Com aproximadamente 65 fotos em preto e branco, é resultado da participação dos fotógrafos brasileiros Flávia Tojal, Helena Rios e Marcelo Greco e do francês Pierre Devin na Missão Lance Ventoux (MLV), que tem o objetivo de promover uma reflexão sobre a região da Provença, suas características e mutações no decorrer do tempo, de forma internacional, por meio da fotografia autoral e da literatura.

Em entrevista, Beatriz Estrada, Rosely Nakagawa e Beatriz Matuck falam da construção desse espaço, da relação com a população de Santos e da fotografia na cidade.

Como surgiu a ideia do espaço?

Beatriz Estrada (BE) – O Armazém Cultural 11 integra um projeto que teve início em 2011, com a aquisição do Edifício Almares pela Deiclog, empresa da qual integro a diretoria.

Iniciou-se então um processo de retrofit do edifício e a revitalização dos arredores, que durou até 2015. Ao nos aproximarmos da reinauguração do prédio, sentimos a necessidade de dividir essa estrutura com a população da cidade. Pessoalmente, sempre tive uma forte ligação com a fotografia e sentia falta de um espaço destinado a essa atividade em Santos. A partir disso, o Armazém foi tomando forma e, em 8 de dezembro de 2015, foi inaugurado.

Por que você escolheu Marcos Piffer para “estrear” o espaço?

BE – Eu já acompanhava o trabalho do Marcos há muito tempo, conhecia também os registros que o pai dele, o senhor Carlos Alberto Piffer, tinha feito do Porto de Santos durante as várias décadas que atuou no setor de logística.

Convidei o Marcos para uma conversa, antes mesmo de ter ideia do que poderíamos fazer com o espaço. Ele nos apresentou à Beatriz Matuck e à Rosely Nakagawa e, a partir desse encontro, o projeto desenvolveu-se.

Como foi para vocês esse processo de construção?

Rosely Nakagawa (RN) – Conheço o Marcos Piffer de longa data e, por ocasião da exposição Comunidades da Serra – com fotografias de Renata Castello Branco, que ocorreu em 2014 no Sesc Santos –, nos reencontramos e ele contou que estava fazendo uma exposição num lugar novo que abriria em Santos e que gostaria muito de ter nossa consultoria. Eu falei para ele conversar com a Beatriz Matuck.

Beatriz Matuck (BM) – O pessoal da Deiclog queria uma exposição temporária para o trabalho do Marcos Piffer. Isso envolvia encarar um espaço com dois pilares no meio de uma sala cercada de vidros com vista para o cais do porto, em frente ao Armazém 11. Quando fui fazer a visita técnica no local, pensei “este lugar tem muito potencial”. Então, decidimos desenvolver a ideia da construção de um espaço cultural, onde a população pudesse se aproximar de uma área atualmente desprezada da cidade e usufruir de um espaço cultural novo, com foco na fotografia.

Estamos acostumados a trabalhar com a construção e o desperdício de materiais na área de cenografia. Na maioria das vezes, por não existir no espaço expositivo uma área reservada para reserva técnica. Então, sugeri que eles gastassem um pouco mais para fazermos um projeto que tivesse uma estrutura um pouco mais fixa. Assim, chegamos à decisão de fazer um suporte resistente às intempéries do lugar, e optamos por fazer um painel de aço com penduradores de ímã, garantindo certa versatilidade ao espaço.

RN – E tinha também o seguinte: quando a Beatriz Estrada fez a proposta da instalação, o projeto do espaço já tinha uma ideia conceitual bem estruturada – é uma empresa que está investindo na renovação daquela área. A revitalização do cais do porto é um projeto antigo que a cidade não assume, então alguns empresários estão assumindo, porque fica inabitável, intransitável, é uma zona ainda em transição do antigo funcionamento do porto para o porto novo que se propõe, e essa empresa resolveu fazer por conta própria a revitalização da área, apostando nesse futuro que espera-se que não seja tão remoto.

Apostaram na revitalização, mas não só na revitalização física, também numa cultural. Ali é o circuito da memória da cidade, onde estão o Museu Pelé, o Museu do Café, onde tem o centro mais antigo; aquela área é muito importante para o crescimento da cidade, e esse espaço cultural tem essa vontade e essa vocação de fazer uma revitalização cultural de ocupação, de integração da vizinhança. Então, esse reforço que a Beatriz Estrada teve de fazer uma programação de longo prazo tem a proposta de formar ali um público de visitação que troaga vida nova à região, ou seja, ela não pensou somente numa construção física.

BM – E foi surgindo, porque virou um projeto de uma galeria e a Beatriz Estrada bancou essa ideia. Então, também teve uma vontade dela de querer fazer esse espaço funcionar e acho que, cada vez mais, a ideia é recuperar esse sentido de devolver alguma coisa para esse espaço. E assim surgiu uma programação que se relacione com a cidade.

Como está sendo essa relação com a Rosely e a Beatriz? Vocês pensam a curadoria juntas?

BE – A experiência de ambas foi e ainda é de grande importância para a criação e o desenvolvimento do Armazém. O projeto desenvolvido pela Beatriz concretizou a ideia que tínhamos de uma galeria aberta ao público, no sentido mais literal da expressão, uma vez que as imagens ficam, em sua maioria, voltadas para a rua e podem ser vistas por aqueles que passam, mas que ainda não tomaram coragem de entrar. Um espaço cultural pode ser intimidador para quem nunca conheceu um e nosso objetivo é tentar diminuir essa barreira.

Já a Rosely nos guia na direção do espaço, eu e o conselho curador participamos das decisões, opinamos, damos ideias, mas o processo de seleção e orientação da galeria é guiado por ela.

E Santos tem uma cena de fotografia forte?

RN – Sim, tanto que o Marcos é uma pessoa que só trabalha lá. No próprio Sesc Santos tem uma programação aberta para a fotografia que é interessante, e fotografia hoje é uma linguagem muito sob o domínio de qualquer artista. É uma linguagem simples, fácil e existem grupos de fotógrafos, fotoclube, é uma atividade bastante intensa já há certo tempo.

BE – De forma geral, Santos sempre teve uma cena cultural muito ativa, principalmente nas áreas teatral e musical, com diversos eventos, como o Mirada, o Fescete e o Santos Jazz Festival, que incentivam o interesse de jovens por essas atividades. Na fotografia, além do próprio Marcos Piffer, que sempre registrou a cidade, o Araquém Alcântara também iniciou sua carreira em Santos e hoje é um dos maiores nomes da fotografia no Brasil. Acredito que Santos evoque a fotografia, até mesmo pelo contraste entre o maior porto da América Latina e a cidade que ainda mantém um certo ar de balneário.

Como é pensada a curadoria tanto das exposições quanto das programações paralelas?

RN – O primeiro e o segundo ano de programação estão sendo pautados nesse esforço de fazer algo que tenha a ver com Santos, ou com o litoral, mas com o tema relacionado ao contexto geográfico e socioeconômico, vamos dizer assim. Criando uma nova imagem de Santos longe de estereótipos, levar o trabalho do Carlos Moreira para lá teve muito esse objetivo, já que a visão dele do litoral é uma abstração, de sobreluz. Inclusive, chamava Os Dias Lindos porque havia uma foto de um navio aportando e a luz era perfeita, e tinha uma crônica do Carlos Drummond de Andrade, chamada Os Dias Lindos, que falava dessa luz de abril – ela inclusive estava no espaço expositivo.

Então, é uma visão poética da cidade que tem como vocação essa coisa de ser uma cidade de porto, de mar, de ser uma cidade voltada para fora e não para dentro. Assim, estamos convidando artistas que tenham essa visão poética de uma cidade do litoral e que possam incluir na programação os problemas que essa cidade tem. Ao longo do processo, vamos incluir não só fotografias de litoral, mas aquelas que também tenham a preocupação de usar a fotografia como leitura desse contexto de paisagem.

Outro trabalho fundamental que está sendo desenvolvido é a leitura de portfólios dos fotógrafos da região, uma forma de nos aproximarmos e estimularmos a produção local.

BM – E ela é uma guerrilheira, porque está indo contra todos os obstáculos da prefeitura e está fazendo o que acha que tem que fazer, da forma como tem que fazer.

Como está sendo a troca com os moradores da região?

BE – Percebemos curiosidade por parte dos moradores ao passar pela galeria, observando as obras através das paredes de vidro. Apesar de a entrada ser gratuita, as visitas de nossos vizinhos ainda são tímidas.

Sentimos que a aproximação é um processo que vai acontecendo gradualmente. Em dias de sol, já vemos crianças que moram nos arredores jogando bola e andando de skate na rua aqui em frente, o que antes da revitalização era algo inimaginável. Aos poucos, eles vão se acostumando conosco e assim esperamos gerar interesse sobre fotografia e levá-la para a vida deles.

E como foi a relação com o Festival do Valongo, que aconteceu pela primeira vez em Santos neste ano?

RN – O Iatã Canabrava é um parceiro de longa data, desde as primeiras Semanas de Fotografia de São Paulo realizadas na década de 1980. Participamos juntos das Semanas de Fotografia da Funarte Infoto desde 1979. Fomos juntos ao Fotoseptiembre no México, em 1987, e participei de quase todos os Festivais em Paraty.

Quando ele apresentou o projeto do Festival do Valongo, a ideia de integrar à programação do Armazém Cultural 11 foi uma decorrência natural. A mostra do Carlos Moreira permitiu que o público conhecesse um pouco da fotografia analógica, ao lado das mostras digitais mais fluidas das ruas e dos espaços ocupados. O auditório proporcionou a apresentação de workshops com um número de 80 participantes, mesmo não estando exatamente no Valongo, e, por isso mesmo, o público pôde conhecer a relação com a geografia da cidade, o porto e os armazéns da região do cais, no Paquetá, onde estamos situados. Foi uma primeira e bela experiência.

BE – Participar do Festival do Valongo em nosso primeiro ano de atividade foi uma grande experiência. Acreditamos que a expressão artística tem o poder de transformar espaços e realidades, por isso investimos no Paquetá, uma área que, assim como o Valongo, carece de um olhar especial. Assim, fizemos questão de receber atividades desse evento e ajudar como fosse possível.

A exposição Correspondências fica em cartaz no Armazém Cultural 11 de 8 de dezembro de 2016 a 31 de março de 2017. Para mais informações, acesse a página do espaço no Facebook.

Beatriz Estrada é acionista de uma empresa do setor logístico. Além de duas décadas de experiência na prestação de serviços logísticos e portuários, traz em seu currículo experiência como administradora nas áreas têxtil e do comércio.

Apaixonada por arte e com carinho especial pela fotografia, Beatriz é idealizadora do Armazém Cultural 11, espaço cultural destinado a essa atividade em Santos que completa seu primeiro aniversário em dezembro de 2016.

Rosely Nakagawa é responsável pela seleção de conteúdo para o Armazém Cultural 11. É editora de fotografia e arquiteta graduada pela FAU/USP, com especialização em museologia e comunicação e semiótica. Fundou, junto com Thomaz Farkas, a Galeria Fotoptica, em 1979, e criou o Espaço Cultural Citibank, onde foi curadora de 1985 a 1990.

Na Casa da Fotografia Fuji, de 1997 a 2004, atuou em exposições nacionais e internacionais. Fez a curadoria de conteúdo das galerias Fnac Brasil, desde a sua abertura no país até 2009, quando publicou essa coleção e entrevistas no livro Encontros com a Fotografia. Em 1991, como uma das fundadoras do Núcleo dos Amigos da Fotografia (Nafoto), criou o I Mês Internacional da Fotografia em São Paulo, que aconteceria a partir de 1993.

Trabalhando de forma independente, realizou inúmeras mostras de artes plásticas, arquitetura, arqueologia e cultura material em instituições e museus do Brasil e em outros espaços internacionais.

Beatriz Matuck é responsável pela construção do espaço e pela identidade visual do Armazém Cultural 11. Arquiteta graduada pela Escola da Cidade, atualmente desenvolve projetos de expografia e design gráfico em seu ateliê de forma independente. Em 2014, colaborou para o projeto gráfico do livro Centro, do fotógrafo Felipe Russo, classificado como melhor livro pela TIME Best Photobooks of 2014 e pelo Photo-eye Best Photobooks of 2014. Projetou a expografia das exposições Tudo é Semente (2014), no Sesc Interlagos, e Retrato Popular – Do Vernáculo ao Espetáculo (2016), no Sesc Belenzinho.

Comentários


veja também

Blog

Histórias que transbordam: espetáculo “A Cidade dos Rios Invisíveis” ganha nova temporada

A linha Safira-12 da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM) parte do Brás e vai até Calmon Viana, no extremo [+]

Vídeo

Flávio Queiroz – Encontros de Cinema (2015)

O roteirista Flávio Queiroz define sua atuação como “contar histórias”. Ele conta que sempre buscou uma profissão em que pudesse [+]