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“Precisamos conhecer as variadas realidades negras”, defende O Menelick – 2º Ato

4 de janeiro de 2017

O legado de Abdias Nascimento é forte e ecoa. Para muitos, ele é visto como a personificação da luta antirracista no século XX no Brasil. A seguir, entenda como grupos que pensam questões raciais nos dias de hoje reverberam as principais ideias de Abdias sobre essa luta constante. Nesta entrevista, fala Nabor Jr., da revista O Menelick – 2º Ato.

Logo - O Menelick

Como você vê a luta atual contra o racismo e pela afirmação da identidade negra? O que tem mudado, o que ainda precisa mudar?

Vejo que estamos em constante progresso no que tange ao protagonismo de novos atores e às formas de combater o racismo no Brasil, apesar da morosidade das nossas conquistas e da discreta adesão de não negros às nossas legítimas reivindicações.

Observo também que muitas pautas que há tempos ocupam os debates dentro das comunidades negras mais combativas seguem em voga, uma vez que continuam mal resolvidas. Por outro lado, travam nossos avanços para outras discussões mais contemporâneas, igualmente urgentes, mas que dizem mais respeito aos anseios das novas gerações. Como exemplo, cito as discussões sobre as relações afetivas inter-raciais, as cotas raciais e a obrigatoriedade do ensino da cultura afro-brasileira em sala de aula, entre outras, que deveriam estar postas e solucionadas. Mas vejo que, para os detentores do poder e para aqueles que usufruem de algum tipo de privilégio por serem não negros, essas são discussões que nunca devem sair da pauta, pois mantêm os negros andando em círculos.

É com otimismo que acompanho as criativas e espontâneas estratégias de luta pela afirmação da identidade negra protagonizadas nas periferias brasileiras, por jovens meninos e meninas, por mulheres e por atores que não se enquadram nos padrões heteronormativos estabelecidos por uma sociedade que cotidianamente os agride. Esses grupos têm dado novo vigor à nossa luta, iluminando novos caminhos de atuação no combate ao racismo na afirmação da nossa identidade negra. Eles também utilizam com desenvoltura as ferramentas digitais de que dispomos para ampliar o alcance dos nossos discursos, ao mesmo tempo que não encerram suas atividades na internet, ocupando espaços que lhes pertencem por direito, fazendo manifestações em ruas, escolas, eventos públicos, enfim, oxigenando a centenária luta que travamos.

Hoje, a maioria do nosso povo já consegue se aceitar como é, ou seja, enquanto homens e mulheres negras com dignidade, passado, presente e futuro, com nossos cabelos enrolados, com nossos quadris largos. Reconhecem a beleza da nossa constituição física e da nossa capacidade intelectual. Aliás, chama a atenção o volume cada vez maior de homens e mulheres negras com mestrado, doutorado, com destacada capacidade intelectual de produzir e compartilhar discursos de empoderamento, assim como de construir novas possibilidades para as nossas reivindicações. Esse protagonismo na construção das nossas próprias narrativas tem sido determinante para nos entendermos enquanto sujeitos das nossas próprias falas e para ocuparmos os espaços sociais que nos são de direito.

Ainda precisamos de mais unidade em nossas reivindicações e lutas. Mas precisamos também respeitar e reconhecer a diversidade que nos compõe, e a imensidão territorial em que vivemos, onde as realidades negras são variadas em suas extremidades.

Como as atividades de O Menelick se encaixam nessa luta? O que vocês conseguiram transformar com seu trabalho?

Com O Menelick 2º Ato, fazemos uma luta mais silenciosa – digo isso pois a leitura é uma arma silenciosa –, mas necessária, que se destaca por circular em diversas camadas sociais e por expandir a compreensão das pessoas quanto às inúmeras competências que acompanham o fazer negro ao longo dos anos.

Nós nos orgulhamos muito de possuir uma produção de conhecimento cuja engrenagem, do começo ao fim, tem o negro como sujeito da sua própria história. Das definições das pautas, passando pelos colaboradores, até chegar ao leitor. Costumamos dizer que damos voz, vez, nome, número e CEP à vanguarda da produção cultural e intelectual do negro brasileiro, bem como jogamos luz nas histórias dos nossos que propositadamente foram deixadas pelo caminho. Ao colocar em circulação conteúdos que nos dignificam, acreditamos contribuir em diversos aspectos para o nosso povo. Por exemplo, despertamos em nossos pares as conquistas da nossa vida cotidiana ao revelarmos, sob a óptica negra, histórias do negro no Brasil e até mesmo ao propormos uma revisão da história oficial do país, que insiste em negligenciar a contribuição negra ao longo de todo o seu desenvolvimento.

Quem lê a revista O Menelick 2° Ato, assim como quem teve a oportunidade ao longo da história de ter contato com a produção da imprensa negra, se transforma e observa o mundo de outra maneira. Diria até que descobre um novo mundo, ou novas maneiras de ver o mundo em que vivemos.

Como lutar contra o racismo, seja na cultura, seja na política, seja no cotidiano? O que cada um de nós pode fazer?

Essa luta se faz de inúmeras formas, na postura e no comportamento cotidiano, nas relações familiares, com nossos amigos, no ambiente de trabalho. Uma roupa, uma resposta, uma fotografia, um discurso são atos de luta contra o racismo dependendo da forma como são utilizados ou proferidos.

O que cada um de nós pode fazer é lutar à sua maneira, não importa como ela seja, desde que seja.

Como veem o legado de Abdias Nascimento? Conhecem seu trabalho, ele os influenciou de alguma maneira, traz algo que lhes interessa?

Abdias Nascimento é um ícone para a comunidade negra mundial. Sua incansável trajetória de luta e sua produção intelectual são exemplos a serem seguidos. E olha que ele fez tudo o que fez em uma época muito mais difícil para os negros brasileiros. É difícil mensurar a contribuição dele para a população negra brasileira, tanto no teatro quanto nas artes visuais, na literatura, na política. Ele dignificou a figura do negro brasileiro ao redor do mundo, revelando nossa capacidade intelectual, nossas inquietações, nossa competência, e nos colocando na vanguarda do pensamento negro ocidental. Abdias Nascimento foi um dos grandes pensadores das relações raciais do século XX em todo o mundo.

Nós, da revista O Menelick 2° Ato, somos filhos do Teatro Experimental do Negro, do Museu de Arte Negra, do Instituto de Pesquisas e Estudos Afro-Brasileiros (Ipeafro) e das demais realizações de Abdias, pois nos beneficiamos diretamente das ações que ele protagonizou, seja na formação de público negro para as artes, seja nas lutas que travou para tivéssemos reconhecidos nossos direitos, assim como por espalhar pelos quatro cantos do planeta a capacidade do negro brasileiro de estar na vanguarda da produção intelectual ocidental.

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