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Uma “Ocupação” escrita com letra de mão

28 de julho de 2016

por Duanne Ribeiro

Lilian Mitsunaga é uma referência em sua área – no caso, como estamos falando de quadrinhos, poderíamos dizer que ela é uma super-heroína desse meio. É especialista em tipologia para a nona arte, tendo criado as fontes para as publicações brasileiras de autores como Will Eisner e Craig Thompson e de séries como Sandman, Cavaleiros do Zodíaco, Calvin & Haroldo e Spawn. Como se vê, seu trabalho perpassa todas as grandes editoras (Marvel, DC, Image), tanto em HQs norte-americanas quanto em mangá.

Lilian Mitsunaga na abertura da Ocupação Glauco, dia 9 de julho, no Itaú Cultural

Lilian Mitsunaga na abertura da Ocupação Glauco, dia 9 de julho, no Itaú Cultural


Na Ocupação Glauco, contamos com a habilidade de Lilian para trazer à mostra e à publicação impressa a letra própria do cartunista. Nesta entrevista, a letrista fala sobre como foi fazer esse trabalho e sobre a sua profissão em geral.

Como foi o trabalho para desenvolver a fonte para a publicação e a exposição? 

O trabalho em si não é tão complicado depois de tantos anos de experiência. Porém, a maior dificuldade, quando não se pode pedir diretamente ao artista todas as letras, os acentos gráficos, os números e a pontuação, é conseguir amostras com boa resolução em textos existentes. Boas fontes precisam ter como base desenhos com resolução de no mínimo 1.200 DPIs, mas muitas vezes isso não é possível.

Há alguma particularidade na letra de Glauco? Algo que lhe agrade ou que seja complicado em especial? E em relação a outros artistas com quem você já trabalhou?

Acho a letra do Glauco bastante orgânica e, por isso, é mais difícil construir uma fonte que consiga captar essa singularidade. Ele encaixava as letras umas nas outras, então ajustar a distância entre elas fica mais demorado. Outra dificuldade foram os bolds [negritos]… Ele usava uma caneta bem mais grossa do que para as letras normais, e tive de construir uma segunda fonte para eles.

Não dá para comparar um artista com outro. Cada um tem seu estilo e cada fonte apresenta características próprias. Letras mais “certinhas” facilitam muito na hora de ajustar o kerning [espaçamento entre letras].

Do ponto de vista de alguém que já trabalhou com a tipologia de inúmeras HQs, qual é a relação entre tipografia, arte e história?

Antes dos computadores pessoais, os quadrinhos eram feitos de maneira artesanal: desenho, arte-final, letras e cores. Hoje em dia, com os novos aplicativos, ficou tudo mais fácil, tanto para desenhistas como para coloristas e letristas. Apesar da facilidade no uso dos diferentes tipos no computador, ainda hoje algumas coisas (como letras em espirais ou em curvas) são mais fáceis de fazer à mão do que digitalmente. Mas uma fonte mal escolhida pode prejudicar muito uma história bem desenhada, acabando com o produto final. Já vi muitas HQs com desenhos não tão bons, mas cuja colorização fez maravilhas pelo produto final. É um conjunto. Uma letra que não combine com o desenho pode acabar com o projeto, mas não há cor, desenho ou tipografia que salvem um roteiro ruim.

No caso de Glauco, como você vê essa relação entre tipografia e conteúdo?

Acho que as letras combinam muito com o traço dele. Um casamento perfeito. Sempre acho que quem é capaz de desenhar bem não pode ter uma letra ruim.

 

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