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  • Rumos 2015-2016: Mídia Circus

    23 de junho de 2017

    Por Duanne Ribeiro

    Há quatro anos, em 2013, ocorria o ciclo de manifestações que representaram uma guinada na direção da política nacional, as chamadas Jornadas de Junho. Inicialmente ligados à luta pela redução das tarifas de transporte, os protestos agregaram diversas pautas e indicaram uma crise na institucionalidade brasileira. Marcou esse período a cobertura feita pelo coletivo Mídia Ninja – ao vivo, na rua, em meio ao povo, com mínimos recursos audiovisuais. Do coletivo, entre outros profissionais, destacou-se o jornalista Bruno Torturra.

    Hoje, Bruno acredita que a experimentação jornalística que deu vida ao Mídia Ninja precisa dar um passo à frente. Explorando novos caminhos quanto à tecnologia e à intervenção urbana, ele desenvolve com o apoio do Rumos 2015-2016 o Mídia Circus, um novo programa do projeto Fluxo, com outros formatos de entrevista e cobertura de personalidades e movimentos culturais.

    A palavra-chave do processo que desemboca hoje no Circus é streaming – o projeto é a mais recente fase das descobertas do jornalista sobre o uso desse instrumento. “Quando percebi que o meu smartphone – isso em 2011 – transmitia ao vivo, mudou tudo. Eu falei: ‘Nossa! Tenho um canal de TV na minha mão e não sabia’.” A partir disso foram várias experiências – em destaque, a Pós TV, com gravações em estúdio ou caseiras, e o Mídia Ninja, em que a rua assumiu papel preponderante.

    “Era importante transmitir a rua; a rua era onde a notícia estava”, explica Bruno, “e todo mundo queria saber o que estava acontecendo sem um repórter engravatado atrás de uma câmera grande, atrás da polícia. Tentamos fazer transmissões longas, sem edição, sem filtro, usando a ferramenta que mais nos faz parecer com o manifestante: o celular. A gente não era mais a imprensa – era um olhar subjetivo dentro da manifestação.”

    O impacto dessas escolhas de cobertura, Bruno ressalta, foi grande e inédito. De todo modo, em 2013 ele saiu do Mídia Ninja, por “já ter cumprido seu papel” no grupo e por uma vontade de “se expressar mais como repórter”. Foi nesse momento que nasceu o Fluxo. “A ideia era ter uma redação, um estúdio mesmo, onde a gente pudesse fazer experimentos de linguagem e de modelo de negócio para o jornalismo.”

    Com o avanço do Fluxo, os efeitos e as dificuldades dos formatos ao vivo e em estúdio, além dos hábitos on-line das pessoas, foram sendo apreendidos. A partir desse acúmulo de experiência surgiu a ideia do Mídia Circus, que se fundamenta no conceito de que “a mídia precisa ser entendida sob uma perspectiva cultural”, já que “a hiperconectividade e o barateamento de equipamentos de videodifusão fazem com que a produção de mídia não se restrinja mais a ser uma atividade econômica. Ela é uma atividade civil; não uma fronteira de negócios, mas uma fronteira criativa”.

    Nesse sentido, a vivência das tecnologias é única hoje. “Essa entrevista que a gente está gravando – há poucos anos você teria um gravador, separado de sua câmera, separado de seu fax, de qualquer outra coisa. Esse advento multimídia… Que tipo de programa pode sair disso, que tipo de expressão cívica pode sair disso?”

    A resposta – ou o caminho para encontrar as respostas a essas questões – é o Circus. O projeto inicialmente previa um furgão que percorreria a cidade com eventos culturais e transmissões ao vivo. No decorrer da produção, a ideia se mostrou muito custosa. Isto, somado a dificuldades burocráticas, mudanças de atitude por parte do Poder Público e polarização política, que afeta a vivência nas ruas, fez com que a proposta fosse deixada de lado – por enquanto. “Meu projeto é conseguir um furgão, mas com mais apoio, tendo doação do público, outro parceiro que ajude a financiar”, diz Bruno. Trata-se, assim, de um reposicionamento de foco. “A gente já tem a principal parte resolvida: equipe, conceito, agenda, experiência na rua com uma coisa mais simples funcionando.”

    É também pelo Circus que o jornalista quer avançar nessa “revolução ainda pouco explorada” que é o streaming. “Eu me admiro que está demorando tanto tempo para a gente usá-lo de maneira mais inteligente, mais eficiente, mais criativa mesmo”, conta. Para isso, o programa terá o desenvolvimento de uma tecnologia própria para aperfeiçoar a conexão 4G, mais de uma câmera para gravação e uso de material gravado – tudo em busca de uma qualidade de imagem e edição menos usual na transmissão ao vivo. Além disso, mantém-se forte no projeto o papel crucial do espaço urbano, na medida em que, nas palavras de Bruno, “a rua é o novo território de experimentação da participação civil”.

    Esse enfoque acarreta desafios e potencialidades ao Circus. “Você realmente trabalha no território do incerto – não é inseguro, é incerto mesmo, é bem diferente”, diz o jornalista. “A gente não sabe como as pessoas vão reagir, não sabe como o programa vai acabar, não sabe qual é a conversa que teremos com essas pessoas, não sabe qual pergunta o público vai fazer, não sabe que tipo de pessoa vai aparecer quando a gente chamar, porque é a rua, não tem roleta, não tem controle, não tem lista de chamada, não se sabe quem vai responder ao chamado, quantas pessoas virão, como a polícia vai reagir, quem vai interromper a gravação no meio… É no final do projeto que a gente vai descobrir o que ele realmente é, o que funciona e o que não funciona.”

    Entre as gravações piloto do Mídia Circus estão uma matéria no Instituto de Pesquisas Espaciais (Inpe) e uma conversa com o médico Drauzio Varella. Bruno também pretende gravar em Altamira, no Pará, a cidade mais violenta do país: “Ninguém nunca nem viu Altamira. Então é andar ao vivo lá e entrevistar essas pessoas. Só é possível se tiver uma produção muito enxuta, se nosso equipamento couber em duas mochilas”.

    Ele conclui: “Queremos ver como a gente interfere na agenda do país. É uma equipe pequena, nesse experimentalismo editorial mesmo. Sem o furgão, sem uma tenda, como é que a gente reproduz a ideia de chamada pública para ficar na rua de outra forma?”.

  • Rumos 2015-2016: Nave-gar

    Por Leticia de Castro

    Um tesouro escondido debaixo da terra, no topo de um morro povoado por espíritos de piratas e suas vítimas. Um país onde as pessoas se locomovem por meio de cambalhotas. Um rio que gosta de música e é habitado por sereias tóxicas. Histórias como essas, colhidas e criadas nas margens do Rio Jucu, no Espírito Santo, fazem parte do projeto Nave-gar, selecionado na edição 2015-2016 do programa Rumos Itaú Cultural.

    Principal rio do Espírito Santo – responsável, entre outras coisas, pela geração de energia elétrica, pela irrigação de lavouras e pelo abastecimento de água do estado –, o Jucu tem sofrido com a poluição e as práticas agrícolas insustentáveis. Fundadora da organização cultural Quintal Mobile e moradora de Barra do Jucu, em Vila Velha, por dez anos, a comunicadora Fabíola Mecal sempre teve uma forte ligação afetiva com a região e acompanha de perto o processo de declínio do rio.

    Sensibilizada com essa mudança na paisagem e nos recursos naturais, Fabíola decidiu investigar a relação da população com as águas do rio e acompanhar como as transformações no meio ambiente alteravam também a cultura da região. Em 2012, acompanhada por 15 artistas brasileiros e colombianos, ela viajou pelos seis municípios capixabas banhados pelo Jucu, com uma proposta de nomadismo artístico.

    “Percorremos toda a bacia hidrográfica entrevistando moradores para levantar histórias e causos da região e entender como era a relação deles com a água, com o rio”, diz Fabíola. Foi nessas andanças que surgiram as histórias da sereia tóxica, do tesouro escondido no morro, do rio que gosta de música. Convertidas em vídeos, animações, desenhos, poemas, performances, registros sonoros e fotográficos, as narrativas foram disponibilizadas no site Cartografia Afetiva do Rio Jucu.

    “Uma coisa ficou muito clara nesse processo: as pessoas que moravam na zona rural, os pequenos agricultores, tinham uma forte relação com o rio, conheciam seu trajeto, sua história e as mudanças que vinha sofrendo. Mas o que mais nos chocou foi a ignorância das pessoas dos centros urbanos. Elas não sabiam por onde passava o curso da água que abastece a casa delas, não sabiam a situação da poluição, absolutamente nada”, conta Fabíola.

    Com 166 quilômetros de extensão – passando pelos municípios de Domingos Martins, Marechal Floriano, Viana, Cariacica, Guarapari e Vila Velha até desaguar no Oceano Atlântico –, o Jucu é responsável pelo abastecimento de água de cerca de 70% da região metropolitana de Vitória. Sua importância para o estado é histórica: foi a partir dele que se realizaram as primeiras investigações do sertão capixaba e o desbravamento de cidades como Vila Velha, Cariacica e Viana. Atualmente, vive seus momentos de mais baixa vazão, provocada pela estiagem, pela ocupação e pelas práticas agrícolas irregulares. No ano passado, o rio perdeu por 15 vezes sua ligação com o mar. Some-se a isso o lançamento de grande volume de esgoto sanitário ao longo de seu curso, e o resultado é a alta taxa de mortandade da fauna aquática.

    Nave

    Concluída a cartografia afetiva, que incluiu também experiências de ecopedagogia com a apresentação do trabalho em espaços educativos, o projeto ganhou novos objetivos. Agora, era necessário extrapolar os limites da web e consolidar o trabalho em uma estrutura física e palpável, que pudesse ampliar ainda mais o alcance das ideias. Mas de que forma conciliar a natureza nômade e híbrida da iniciativa com a materialidade desejada?

    Esse desafio deu origem a Nave-gar, desdobramento do projeto de cartografia afetiva iniciado em 2012. Contemplada pelo programa Rumos Itaú Cultural e liderada por Fabíola e os artistas Nadeje Lucas e João Felipe Herrero, a nova proposta consiste na criação de um dispositivo móvel de cultura livre, um livro-objeto (ou simplesmente “nave”) e uma plataforma digital, uma comunidade on-line para juntar artistas, ativistas e educadores envolvidos com a questão da água. “Queremos reunir as pessoas que se articulam em torno desse tema para que troquem ideias e experiências e colaborem nos projetos das cidades vizinhas”, diz Fabíola.

    A “nave” criada pelo grupo é feita em papelão e bambu e carrega toda a trajetória do projeto ao longo do Rio Jucu. Dividida em vários compartimentos, tem jogos, caleidoscópios, mapas, diário de bordo e banco de sementes crioulas, além de um pen drive com materiais audiovisuais. O objetivo é que seja usada como um recurso para atividades de ecopedagogia e para a disseminação do conteúdo produzido nos últimos anos.

    A "nave" (sobre a mesa), com desenhos, jogos e outros materiais produzidos ao longo do curso do Rio Jucu | foto: divulgação

    A “nave” (sobre a mesa), com desenhos, jogos e outros materiais produzidos ao longo do curso do Rio Jucu | foto: divulgação

    Em maio de 2017, o trio realizou seis oficinas para artistas, educadores e ambientalistas, uma em cada cidade da bacia hidrográfica, sobre o funcionamento da “nave”. No total, foram produzidas 20 peças, depois distribuídas entre os participantes das oficinas para que fossem usadas em atividades educativas com a população em geral.

    Para a última semana de junho, está prevista a atividade de conclusão do projeto: uma grande mostra em Vitória, reunindo todos os participantes, com exposição de todo o trabalho gerado ao longo de anos de observação e vivência no Rio Jucu. “Nosso objetivo principal é fortalecer uma rede de cuidados com o rio”, diz a idealizadora do projeto.

  • Rumos 2015-2016: Tratados de Mim Mesma na Infertilidade

    22 de junho de 2017

    Por Camile Busato

    Integrada pelos artistas Heloísa Souza, Felipe Fagundes, Moisés Ferreira e Pablo Vieira, a Sociedade Cênica Trans, de Natal, Rio Grande do Norte, se dedica desde 2013 a criar obras que encontrem relevância na cena contemporânea por meio de encenação performática e atravessamento entre diversas práticas artísticas.

    Em sua terceira montagem, Tratados de Mim Mesma na Infertilidade – que conta com o apoio do programa Rumos Itaú Cultural –, a diretora Heloísa Souza parte do monólogo de Samuel Beckett, Not I, para tratar de um feminino autônomo, que gera a si próprio e não aos outros.

    “O espaço cênico que está sendo criado é o psicológico, o espaço interno de uma mulher em estado de consciência sobre si mesma”, conta Heloísa. “A infertilidade não tem a ver com o lado negativo, com algo que não produz, mas com a possibilidade de pensar a mulher não a partir do que ela gera. Tem sempre uma mulher parindo quando as pessoas falam do feminino. Essa exigência, que surge da possibilidade biológica da mulher, também é uma forma de opressão. Não me determino mulher a partir do que eu gero; eu gero a mim mesma. Não sou alguém a partir do outro – do filho, do parceiro, de quem for.”

    Os membros da Sociedade Cênica Trans durante o processo de elaboração do espetáculo | foto: Felipe Fagundes

    Os membros da Sociedade Cênica Trans durante o processo de elaboração do espetáculo | foto: Felipe Fagundes

    No entanto, a obra não trata apenas do feminino, mas da condição humana mais profunda: o existencialismo e o absurdo, temas centrais na obra de Beckett.

    O contato com Not I se deu em 2010, quando Heloísa iniciou um processo de criação que se estende até hoje. A partir desse e de outros trabalhos de Beckett, surgiu um texto dramatúrgico autoral – e o que foi escrito está sendo “queimado” pelo grupo, cuja prática da encenação ultrapassa o texto. “A encenação está se criando além das coisas que eu escrevi”, explica a diretora.

    “Me identifico muito nessa estrutura do Beckett”, continua ela, “na qual as personagens não são definidas a partir de uma história, como ocorre na dramaturgia tradicional. Elas não têm um ponto de identificação.”

    Nas produções da Sociedade Cênica Trans, teatro se funde com dança, performance e artes visuais, uma vez que o prefixo “trans” faz referência a algo que atravessa, que vai além. Segundo Heloísa, “a ideia é fazer obras que perpassem linguagens e vão para além de pensamentos estéticos já condicionados e formatados. Em Tratados…, retomamos a ideia de encenação performática, sendo que a performance é utilizada para compor o processo de criação, os exercícios, as cenas, a dramaturgia”.

    Um dos pontos altos do trabalho do grupo é a construção de imagens. “A gente chamou um artista visual para fazer da cenografia uma instalação em que os atuantes se movem e agem. São quatro pessoas em cena: Moisés Patrício, Pablo Vieira – que já são membros da Sociedade –, Mariana Batista e Rosana Oliveira, ambas com formação em dança. São pessoas com formações diferentes. Chamo corpos que me interessam a partir da sua expressividade”, diz Heloísa. No total, a equipe conta com 16 pessoas.

    Tratados de Mim Mesma na Infertilidade estreia no dia 23 de setembro no Barracão dos Clowns, sede do grupo Clowns de Shakespeare, em Natal. Fica em cartaz até dia 30.

  • Rumos 2015-2016: Traços da Resistência

    21 de junho de 2017

    Por Julia Alves

    Construir uma imprensa que chegasse no chão da fábrica. Esse era o objetivo da editora Oboré, que, entre 1970 e 1980, reuniu um time – hoje considerado de peso, mas, na época, jovens em jornada dupla trabalhando voluntariamente – de ilustradores para colaborar com as publicações dos principais sindicatos do país. Formado por nomes como Laerte, Glauco, Henfil, Chico Caruso, Fortuna, Jaime Leão e Jaime Prades, esse grupo de artistas acabou assinando cerca de 4.500 charges, tirinhas, caricaturas e vinhetas de divulgação de eventos e movimentos – trabalhos que estarão disponíveis para consulta pública graças ao projeto Traços da Resistência, que conta com o apoio do programa Rumos Itaú Cultural.

    Depois de passar por processos de categorização, higienização e digitalização comandados pelo Centro de Documentação e Memória (Cedem) da Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (Unesp) – responsável pelo acervo da editora desde a década de 2000 –, esse vasto material iconográfico poderá ser acessado em um site, que deve ser lançado em janeiro de 2018.

    Trata-se do registro de um momento fundamental em que a classe trabalhadora, em meio à ditadura civil-militar brasileira, reivindicava uma realidade política, econômica e social mais justa.

    Todo o esforço da editora era voltado para a construção de uma imprensa sindical alternativa, forte, atuante e democrática, que escutasse e falasse com a classe operária. Daí a importância da ilustração como ferramenta de comunicação: “Era uma maneira nova de dizer para o operário que ele era oprimido”, destaca Solange de Souza, historiadora do Cedem.

    É da cartunista Laerte, por exemplo, a vinheta de divulgação da Noite do Barulhaço, data histórica para o movimento das Diretas Já, em abril de 1984. A mobilização visava pressionar a aprovação da Emenda Dante de Oliveira, que pedia o restabelecimento de eleições diretas para presidente da República. Apesar da derrota no Congresso Nacional, a emenda teve grande apoio popular e foi essencial para unir diferentes vozes na luta pela volta da democracia no país.

    Ilustração de 1984, assinada pela cartunista Laerte | imagem: Fundo Oboré Editora/CEDEM

    Ilustração feita em 1984 pela cartunista Laerte | imagem: Fundo Oboré Editora/CEDEM

    Nessa época, Laerte dividia seu tempo entre o trabalho fixo na Gazeta Mercantil e as ilustrações que assinava para periódicos publicados pela Oboré, ligados a importantes sindicatos brasileiros, como o dos metalúrgicos do ABC.

    “A discussão sobre preservação de memória é mais do que incipiente no nosso país, ela é indigente”, afirma Solange. “E a preservação da memória é uma política pública que não só o Estado, mas também a sociedade civil, tem de construir.”

    Relembrar, afinal, também é resistir.

  • Rumos 2015-2016: Retrato Falado

    Por Cassiano Viana

    No Rio de Janeiro, o projeto Retrato Falado leva a narrativa e a produção fotográficas e as questões de identidade para jovens em conflito com a lei, internos em unidades do Departamento Geral de Ações Socioeducativas (Degase) do estado. Entre as ações do projeto, contemplado pelo programa Rumos Itaú Cultural, estão a realização de oficina de fotografia artesanal pinhole, a produção de autorretratos e a gravação em áudio de narrativas sobre as imagens produzidas.

    A oficina de fotografia artesanal começou em janeiro de 2017. São realizadas duas aulas semanais, às segundas e quartas.

    As aulas foram iniciadas com as meninas internas no Centro de Socioeducação Professor Antonio Carlos Gomes da Costa (CENSE PACGC), na Ilha do Governador. Participam atualmente da oficina 12 meninas. “No início eram 15, mas algumas saíram pois cumpriram a medida socioeducativa”, conta Tatiana Altberg, designer e fotógrafa.

    “Na primeira etapa tivemos a construção, junto com as meninas participantes da oficina, das câmeras de visualização e das câmeras artesanais pinhole, feitas com latas de alumínio”, conta.

    A segunda etapa foi a da experiência de fotografar com a lata. “Começamos a testar as câmeras para ver se estavam funcionando. Esse foi também o primeiro contato das meninas com este processo artesanal de fotografia: entrar no laboratório para carregar a câmera com o papel sensível à luz, ficar muitos segundos fotografando (expondo o papel à luz, por meio do buraco de agulha da câmera) e finalmente relevar o negativo no laboratório”, lembra.

    Às terças, são realizadas sessões individuais de escuta em que as meninas participantes da oficina relatam imagens que por algum motivo marcaram suas vidas. Os relatos são gravados em áudio e, em outra etapa do projeto, serão utilizados em uma instalação sonora.

    “As sessões são bem intensas. Sinto nas meninas uma grande necessidade de falar sobre suas vidas, suas histórias, as relações familiares e sociais”, conta Tatiana. “Creio que este ambiente de escuta que proponho seja para elas um modo de sair pelo menos por um momento do enclausuramento, tanto físico quanto emocional. Me parece que há uma grande necessidade de serem escutadas”, avalia.

    O projeto também está fomentando a leitura do grupo. “Nos surpreendemos com a voracidade com que elas têm lido os livros que emprestamos. E trocam umas com as outras depois que terminam”, comemora.

    Além da leitura, o projeto vem estimulando a escrita. “A ideia da escrita é que funcione como uma espécie de diário, um interlocutor para lidarem com o cotidiano. Como não podem levar as câmeras para dentro da unidade do PACGC, propusemos que usem a escrita como uma forma de fotografar imagens que veem e vivem durante os dias que passam ali”, explica.

    A próxima oficina do projeto será realizada na unidade de internação masculina Educandário Santo Expedito (ESE), em Bangu, para outros 12 jovens.

    Tatiana conta que este processo todo gera bastante curiosidade e empolgação. Depois das primeiras fotografias, são escaneados os negativos digitalmente e passadas as imagens para o positivo. “Estamos propondo exercícios fotográficos de autorrepresentação”, avalia.

    “A proposta do projeto Retrato Falado é revelar as imagens veladas desses meninos e dessas meninas. Usamos essa ideia do retrato falado – em que alguém descreve verbalmente um indivíduo para constituir uma imagem – para discutir questões acerca das construções preconceituosas das imagens desses jovens”, diz.

    Ela diz que instigar os adolescentes internos no Degase a produzir imagens de si, de suas vidas, e a narrar eles mesmos suas histórias é uma forma de questionar e desconstruir os estereótipos. “Criar outras imagens e outras narrativas, sair do círculo da descriminação e do medo é um modo de revelar a beleza e a potência desses jovens”, reforça.

    As imagens produzidas pelos participantes do projeto serão exibidas em uma publicação virtual no segundo semestre de 2017. As outras imagens relatadas verbalmente, os retratos falados, serão exibidas em uma instalação sonora, também no segundo semestre. A instalação deverá acontecer em alguns lugares na cidade do Rio de Janeiro ainda a serem definidos.

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