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Rumos 2013-2014: A arte de criar o mundo que se deseja

18 de agosto de 2014

obra: Projeto Mundano – Livro, Exposição de Rua e Performances
selecionado: Eleonora Fabião

O que você faria se estivesse andando pela rua e encontrasse uma mulher empunhando o seguinte cartaz: “Converso sobre qualquer assunto”? Aceitaria o convite? Falaria sobre o quê? Desde 2008, quando essa ação foi feita pela primeira vez no Largo da Carioca, no Rio de Janeiro, muitas pessoas sentaram-se na cadeira vazia disposta à frente da performer Eleonora Fabião, interessadas em vivenciar essa experiência inusitada.

Teve o senhor que falou da infância e da adolescência e comoveu-se ao se lembrar da mãe adotiva. O jovem que dividiu a alegria de conseguir o primeiro emprego como veterinário. Três adolescentes que debatiam sobre como pedir uma garota em namoro. Teve também gente curiosa sobre o que significava aquilo e quem era aquela mulher. Foram muitas as histórias ouvidas e compartilhadas ali. Mas, afinal, com qual objetivo?

Segundo Eleonora, a ideia, não só desta, mas de outras performances que vem desenvolvendo ao longo dos últimos seis anos, é propor e experimentar um novo modo de relação com as pessoas e com a cidade.

O tipo de ação varia conforme a necessidade do instante, mas atende momentaneamente a uma questão recorrente: “Que ações geram o mundo em que quero viver e que ações impedem o desenvolvimento desse mundo? Então, crio o mundo que desejo a partir das ações que realizo”, explica.

É isso o que move o trabalho dela e o que ela fez ao idealizar a performance descrita acima. Eleonora vinha se sentindo oprimida, acuada. “A situação no Rio estava gravíssima. Nada fez mais sentido para mim do que sair de casa para conversar com meus concidadãos em praça pública”, revela.

Depois da cidade carioca, a mesma ação, batizada de Converso sobre Qualquer Assunto, foi realizada também em Berlim (2008), Bogotá (2009), Fortaleza (2010) e São José do Rio Preto (2012). E outras performances vêm sendo desenvolvidas por Eleonora desde que ela finalizou o doutorado em performance na Universidade de Nova York, em 2006.

Na cidade americana, por exemplo, ela fez Linha, iniciativa que consiste basicamente em visitar uma pessoa desconhecida (indicada por um conhecido) em sua casa para trocar ideias, beber água, chá ou café e o mais importante: planejar juntos uma ação a ser realizada pelos dois, conjuntamente, em um espaço público. “Parti do interesse de conversar com desconhecidos em suas casas; não mais nas ruas, mas em suas casas. Nessa performance, interessa cocriar e correalizar. A Linha é uma prática de amizade política, cujo objetivo é fazer performance e fazer cidade, uma por meio da outra”, pontua.

Todo esse trabalho performático, que não é apenas prático, mas também teórico, compõe o projeto Mundano – Livro, Exposição de Rua e Performances, selecionado pelo Rumos.

Trata-se de uma iniciativa em três frentes, que são ao mesmo tempo distintas e complementares. A primeira delas é a publicação de um livro de arte composto de imagens dessas performances que Eleonora realiza desde 2008 e de textos de pensadores contemporâneos refletindo sobre performance em tempos de ocupação, manifestação, renovação de espaço urbano e dos modos de coabitar a cidade. A segunda é uma exposição de rua no Rio, que apresentará ao público práticas desenvolvidas ao longo desse período. A última atividade é a continuação da realização de performances individuais e coletivas.

“Ou seja, o projeto Mundano surge para dar continuidade à pesquisa em andamento e surge da necessidade de trazer novas vozes, temporalidades e materialidades para o trabalho; do desejo de abrir novos espaços e modos de diálogo e circulação”, resume Eleonora.

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