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Rumos 2013-2014: O corpo anoréxico sob o olhar da sétima arte

30 de março de 2015

Obra: Um Vidro sob Minha Pele
Selecionado: Moara Passoni

A busca por uma linguagem própria para “contar nossas próprias histórias”, tão presente na obra de Glauber Rocha e no Cinema Novo, é também uma marca no trabalho da paulistana Moara Passoni, de 34 anos, idealizadora e diretora de Um Vidro sob Minha Pele. O filme, que trata da anorexia e trafega entre documentário e ficção, está impregnado da trajetória real da cineasta.

Moara teve a doença quando adolescente e é dessa vivência que surgiu a primeira ideia de abordar o tema. Ela não conseguia reconhecer a sua história nos filmes e textos já existentes, nem na fala de médicos e sociólogos e muito menos em como a mídia retrata o assunto. Parecia que havia uma impossibilidade de comunicação.

“Quanto mais eu entrava no universo da anorexia, mais entendia a particularidade e semelhança do que eu vivi com o que outras garotas viveram e, ao mesmo tempo, mais forte foi se tornando minha necessidade de me aproximar do que havia sido minha própria experiência”, relata.

A linguagem própria de que ela precisava foi nascendo de uma criação compartilhada, repleta de diálogos com amigos e artistas colaboradores. Para que o filme pudesse extravasar o cunho autobiográfico sem deixar de falar “de dentro” da anorexia, foi fundamental também a ajuda de mulheres que padecem da doença e cederam seus diários ao projeto, além de profissionais do Programa de Atenção aos Transtornos Alimentares do Departamento de Psiquiatria da Escola Paulista de Medicina (Proata) e do Programa de Transtornos Alimentares da Faculdade de Medicina do Hospital das Clínicas/USP (Ambulim).

“Um dos objetivos do filme é pensar como se dá a construção de um corpo anoréxico e, a partir dele, pensar o ‘homem contemporâneo’ e o modo como ele inscreve seu corpo em uma série de práticas. Então, que civilização podemos descobrir a partir desse corpo? Onde nele está gravada a sociedade que torna possível a anorexia e a faz proliferar? Afinal, falamos da intimidade de um corpo, mas também de uma época, especialmente caracterizada pelo sofrimento associado ao gozo, pela restrição em meio à abundância, pelo flerte com a morte e o trágico”, explica.

Um Vidro sob Minha Pele parte da história da arquiteta Beatriz, que, ao completar 25 anos, se depara com seus escritos de adolescência e se assombra ao redescobrir a anorexia, vivida entre seus 11 e 18 anos.

Além do longa, o projeto também se desdobra em uma exposição e um romance. E a expectativa é lançar os três juntos no final de 2015. “Como se fossem três registros diferentes, três possibilidades de experienciar o que estamos propondo.”

Moara divide a direção, o roteiro e a pesquisa do filme com o artista e escritor Henrique Xavier.

Trajetória

Moara teve o seu primeiro contato com a arte por meio da fotografia e dos movimentos sociais. O país vivia o processo de redemocratização e ela, ainda criança, transitava pelas reuniões políticas de que os pais militantes participavam, fotografando tudo e fazendo de conta que era jornalista. “Acho que ali surgiu o meu interesse pela imagem, um pouco como brincadeira, um pouco como forma de me apropriar e me integrar a tudo aquilo que estava acontecendo ao meu redor.”

Na adolescência, veio a oportunidade de arriscar e conhecer. Moara fez parte de uma turma que implodiu a “grade curricular” tradicional da escola. A proposta dela e de seus colegas era “transformar conceitos em experiência” a partir da realização de grandes instalações. A primeira foi sobre o livro Visão do Paraíso, de Sérgio Buarque de Holanda. Muitas outras foram feitas depois. Mesmo após se formarem, continuaram a se reunir para desenvolver programas experimentais para televisão (“e também contra a TV”). “Nesse grupo, em reuniões de criação nas sextas à noite, escrevemos o que seria meu primeiro roteiro, com atmosfera (guardadas as proporções!) de 2001: Uma Odisseia no Espaço”, relembra, referindo-se ao filme de Stanley Kubrick.

A vontade de fazer cinema surgiu nesse momento. Moara, porém, ainda não tinha tanta certeza e optou pelo curso de ciências sociais. A sétima arte esbarrou com ela no último ano da faculdade, quando participou de um cineclube chamado Cinestrábico, que organizava eventos com debates e exibições de filmes. Foi quando mergulhou na obra de Glauber Rocha e na proposta de procurar “poéticas próprias” para contar histórias. Moara se aproximou também de outras artes, como dança, teatro, performance.

“Daí para a frente, muitas outras experiências e formações foram se desenhando, sempre na busca cruzada entre a urgência de contar determinadas histórias e a busca por uma linguagem.”

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