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Rumos 2013-2014: A vida é cheia de sons e ruídos

8 de dezembro de 2014

obra: TranS(obre)por
selecionado: Marcelo Armani

“Costumo brincar que eu enxergo com os ouvidos.” É assim desde a infância: os sons capturam a atenção de Marcelo Armani. Quando morava na pequena Encantado, no interior do Rio Grande do Sul, ele se impressionava com os estalos, estampidos e trovões que antecedem as grandes tempestades. Da vida bucólica, caiu direto em uma indústria de Canoas, na região metropolitana de Porto Alegre. Na mudança para a cidade grande, os pais foram trabalhar em uma metalúrgica e o ruído ritmado das máquinas logo chamou a atenção do menino.

A música propriamente dita sempre fez parte de sua vida, especialmente pelo convívio com o avô João, que tocava sanfona e bateria. Já adulto, Armani achou que a sua trajetória enveredaria por esse lado. Integrou uma banda de pós-punk e até mesmo frequentou uma faculdade de música. A verdade, porém, é que não tinha interesse por instrumentos convencionais. “Eu fazia as minhas composições com máquina industrial”, relembra. Não terminou o curso. Tentou também engenharia mecânica, mas desistiu e preferiu adotar a linha do “faça você mesmo”.

Em 2007, com o fim da banda, decidiu que era hora de ir atrás dos seus sons e ruídos. Descobriu John Cage, Delia Derbyshire e Stockhausen, expoentes da música eletroacústica, e vislumbrou que aquele poderia ser o seu caminho. Pelos três anos seguintes, tocou em diversos festivais da América Latina. Até que, em abril de 2011, ao participar de um festival em Buenos Aires, veio o estalo: “Entendi que o que eu fazia era arte sonora. E achei muito mais interessante”, pontua.

Aos 32 anos, as peças de seu quebra-cabeça, enfim, começavam a se encaixar. “Na música, o pessoal falava: ‘lá vem o Armani com esses barulhos’. Nas artes plásticas, diziam: ‘que lindas as suas composições’”, conta ele aos risos. “O pessoal das artes plásticas me acolheu”, sublinha.

Na capital argentina, oficinas com os artistas mexicanos Manuel Rocha e Rodrigo Sigal foram fundamentais para que ele tivesse consciência de sua arte. Do Brasil, Armani destaca o papel de Paulo Vivacqua, que conheceu pelo Facebook e se tornou uma grande influência.

A experiência em Buenos Aires foi tão arrebatadora que ele voltou de lá já com a ideia de TranS(obre)por na cabeça. Dois meses depois, apresentava a primeira edição do projeto, que ocupava então um espaço bem pequeno em uma exposição coletiva realizada em Porto Alegre.

TranS(obre)por é uma fusão entre arte visual e sonora, mas tendo como ponto de partida sempre o som. Marcelo Armani vai até a cidade em que realizará a exposição e fica de 7 a 13 dias pesquisando e capturando ruídos que chamam a sua atenção. Depois, ele edita e manipula esse material. Fotografias também são feitas a partir do fragmento sonoro captado e, posteriormente, compõem a instalação. “As pessoas são muito visuais. As fotos criam essa percepção para o visitante. É uma ajuda, para que eles percebam toda a paisagem sonora ao redor”, explica.

A instalação é permeada por cabos de áudio vermelho, dispostos em desenhos feitos de forma instintiva por Armani, mas sempre em ângulos de 90 graus.

Depois de Porto Alegre, TranS(obre)por já teve outras seis edições pelo Brasil, em locais como Juazeiro do Norte (CE) e Curitiba (PR). Veja o vídeo abaixo:

 

 

Em cada lugar, resulta uma instalação diferente. É por isso que ele pretende seguir com essa proposta artística até o fim de sua vida. “Eu desenvolvo todo o projeto na cidade em que o aplico, tanto a parte visual quanto a parte sonora”, reitera.

São Paulo recebe TranS(obre)por no segundo semestre de 2015, com apoio do Rumos. Desta vez, Armani ficará 40 dias no município para trabalhar na sua pesquisa artística. “A minha relação com as cidades é justamente essa. Eu procuro me perder. Não sou eu que vou buscar o áudio, o fragmento. É ele que me encontra”, conclui.

Conheça mais sobre o trabalho de Marcelo Armani aqui.

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